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Correio da Manhã

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Santa Engrácia na Casa Branca

O claro risco de incêndio foi o pretexto da Administração dos Estados Unidos para fechar a sala de Imprensa mais famosa do Mundo, mas os jornalistas, que ali passam parte das suas vidas, desconfiam da esmola, por ser tão grande.
6 de Agosto de 2006 às 00:00
A Casa Branca fecha o degradante e espartano espaço e promete, dentro de nove meses, oferecer, noutro local, condições condignas para os correspondentes. O problema é que eles sabem que Bush não gosta de os ver pela frente e, por isso, já vislumbram mais umas obras de Santa Engrácia.
A Sala Brady é acanhada e quase insalubre, como reconheceu George W. Bush, que anunciou o fim de uma velha era, quando o seu porta--voz, Tony Snow, explicava aos jornalistas o que se passará nos próximos meses. A sala, do tamanho de um bom quarto mas com péssimas condições de habitabilidade, fecha, pelo menos, pelo período de nove meses. Até lá, passarão a trabalhar num espaço situado do outro lado da rua.
Os jornalistas, que há muito se queixavam das condições da sala, estão de pé atrás relativamente à boa vontade do presidente estado-unidense e, inclusive, já há discussão pública sobre o que poderá significar o encerramento. O debate está lançado e poucos acreditam que, em nove meses, seja dada à luz uma Sala Brady “mais adaptada à nova era e às novas tecnologias”, segundo Snow.
Luís Costa Ribas, que esteve cerca de 100 vezes, em trabalho, na sala imortalizada no cinema e televisão – a SIC, por exemplo, exibe ‘A Sra. Presidente’ – , escorado nos ‘fóruns’, que acompanha através da ‘net’ e da TV, não aposta, mas tem a forte convicção de que estaremos na presença, como só nós portugueses sabemos dizer, de mais umas “obras de Santa Engrácia”. O problema não é tempo, nem dinheiro, tão-pouco ausência de eficácia. É, apenas, vontade de ver os correspondentes mais longe da vista.
“Bush nunca gostou de jornalistas”, reconhece Luís Costa Ribas. Mas não se pense que “o clima de hostilidade relativamente aos correspondentes” teve a sua génese na gerência do actual inquilino da Casa Branca. Não. “Foi na ponta final da Administração Clinton que tudo começou”. E com um empurrão valente de um espião russo.
As obras podem durar nove meses ou arrastar-se para lá desse período. Mas os jornalistas já têm duas certezas: a chamada sala provisória não lhes proporcionará condições por aí além e as cadeiras, se quiserem sentar-se, serão trasladas, para o outro lado da rua, por eles próprios.
COSTA RIBAS INVESTIGADO UM MÊS
Luís Costa Ribas foi investigado durante um mês e sabia que os serviços secretos estado-unidenses lhe viravam o passado e reviravam o presente. As regras eram e são muitos claras: quem quer ser correspondente na Casa Branca fica sob investigação. Só se tiver um perfil que não choque com os cânones traçados pela administração estado-unidense é que consegue a acreditação. O jornalista da SIC, que passou duas décadas em Washington, conseguiu garantir o acesso ao serviço da Rádio Voz da América. Para o ex-correspondente da estação de Carnaxide e da TSF na Casa Branca, os métodos de admissão não encerram críticas, pelo menos à luz da sua pragmática afirmação--constatação: “Nós estamos, ali, a dois metros do presidente dos Estados Unidos.”
RUSSO ROUBA PORTÁTIL
O cerco aos jornalistas na Casa Branca começou a apertar na recta final do consulado de Bill Clinton. E a culpa é de um falso repórter que cumpria, fielmente, as instruções do antagonista dos Estados Unidos na Guerra Fria. O jornalista, perdão, o membro dos serviços secretos russos, que, afinal, não fora tão investigado como seria de supor, entrou numa das salas do secretariado do Departamento de Estado, anexa ao gabinete de Madeleine Albright – a primeira mulher a ocupar o cargo –, situada no sétimo andar, pegou num computador portátil e... ala que se faz tarde. Um PC a menos não pesava nas contas públicas, mas o facto de guardar segredos de Estado incomodou a administração e os jornalistas, verdadeiros.
CAVACO 'PEDE' DÓLARES
Ano: 91. Cavaco Silva, então primeiro-ministro, é recebido na Casa Branca. Os jornalistas aguardam na ‘Stake Out’ pelo governante português, mas o correspondente-chefe da ABC antecipa-lhes as declarações: “Estão, aqui, à espera de quê?! Já sabem qual é a notícia: ele veio cá pedir dólares.” A sério, hoje, os correspondentes em Washington podem manter brincadeiras idênticas.
CURIOSIDADES
- A famosa sala tem o nome do porta-voz de Ronald Reagan, James Brady.
- Em 1933, Franklin Roosevelt mandou construir uma piscina na Casa Branca. É exactamente sobre ela que está assente a Sala Brady.
- A Sala Brady é, na prática, a sala de ‘briefings’. Há ainda a Stake Ou’, espaço no exterior, e mais duas pequenas salas de redacção (uma delas ao lado de um refeitório), onde os jornalistas trabalham.
- Só há 48 cadeiras na Sala Brady e cada uma delas tem uma placa que indica o nome do meio de Comunicação. Coitado de quem se sentar onde não deve.
- As cadeiras estão reservadas, essencialmente, aos estado-unidenses, canadianos e britânicos (BBC).
- O ‘staff’ do presidente integra 1500 pessoas e há cerca de dez mil jornalistas a trabalhar em Washington.
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