<font size="2">É ator de comédia, não humorista! o quotidiano é a sua fonte de inspiração. A observação, a sua ferramenta de trabalho. Avesso à fama, diz "ter os pés bem assentes na terra" </font>
Como conseguiu desdobrar-se por tantos projetos: ‘AntiCrise’, ‘Herman 2013’, ‘A Mãe do Senhor Ministro’, a peça de teatro ‘Toc, Toc’ e a rádio?
Durmo sete horas por dia. Faço sempre tudo na perspetiva de ter, depois, umas belas férias. Neste momento, estou no sprint final. Quero ir de férias, desligar-me do trabalho e esquecer tudo.
Que balanço faz do programa ‘AntiCrise’?
Acabámos agora a terceira série. Depois logo se vê. É puxado fazer 25 minutos de comédia diários. Mas está a ser enriquecedor e a correr muito bem.
Também escreve os textos do ‘Anticrise’?
Escrevi, no começo, mas o volume de trabalho não nos deixava espaço para redigir também os textos. Na segunda série, não fazia sentido continuar a escrever, só o Eduardo o fez. Precisávamos da ajuda das Produções Fictícias, com quem estamos habituados a trabalhar.
Como correu ‘A Mãe do Senhor Ministro’?
Terminou também agora e correu muito bem. Foi um ritmo louco, gravávamos um episódio num só dia. Apesar de tudo, trabalhávamos com mais calma do que no ‘AntiCrise’, onde passávamos o tempo a pôr e a tirar peruca, bigode… é mais cansativo, estávamos sempre a mudar. Em ‘A Mãe do Senhor Ministro’, chegávamos de manhã ao estúdio, fazíamos uma leitura, o realizador ensaiava connosco e depois do almoço, gravávamos. Era tudo calmo.
O ‘AntiCrise’ é serviço público?
Sim. O humor neste momento é um serviço público. Considero-o um dos melhores serviços públicos . Com ‘A Mãe do Senhor Ministro’, desmontamos a política atual. Neste sentido, serve para desanuviar.
Entre os seus projetos de humor, qual o que correu melhor e menos bem?
Meto-me nos projetos sempre para correr bem. Acho que até agora tudo tem corrido bem. Não vejo nenhum que tenha corrido mal. Mesmo os passados correram muito bem.
Olhando para as audiências, que interpretação faz de alguns destes projetos?
Claro que é importante pensar nas audiências, mas quando estou a trabalhar, nunca penso nisso. Quero é dar o meu melhor, quero que as coisas saiam bem, quero divertir-me. Se pensasse nas audiências, fazia o mesmo que os outros canais e despia-me… Não é por aí que quero ir.
Identifica-se com este humor? É o que queria fazer?
É. Tenho as minhas referências humorísticas de sempre.
Quais são? A nível nacional e internacional?
Herman José, Maria Rueff, Mário Viegas, Woody Allen, Peter Sellers e os Monty Python.
O trabalho com o Herman tem sido ininterrupto?
Nunca deixei de trabalhar com ele. É um irmão profissional.
Gostava de ter um programa a solo?
Não gostava, nem deixo de gostar. Se a oportunidade aparecer, empenhar-me-ei com a mesma intensidade que tenho posto nos outros projetos todos. Deixo as coisas acontecerem. Procuro fazer o melhor possível com o que tenho entre mãos.
Que vai fazer quando vier de férias?
Agora quero é descansar. Mas já há projetos falados, que não posso revelar.
Preferia dar continuidade a algum destes projetos, ou fazer algo novo?
O que me apetece é ter trabalho. E fazer o que gosto.
Neste momento, a RTP dá espaço suficiente ao humor?
A RTP está a dar um enorme espaço ao humor.
O espaço ideal?
Acho que é o espaço ideal, como dá à ficção portuguesa. Neste momento, a RTP tem tido um espaço privilegiado e alargado de humor (5 para Meia-Noite, Herman 2013, AntiCrise, A Mãe do Senhor Ministro). Tem-se apostado no humor.
Começou com Herman, Ana Bola, Rueff, Monchique, e continua com eles. São uma família?
Acho que somos uma família. Conhecemo-nos há muitos anos e, volta e meia, trabalhamos juntos.
Como é ser considerado uma das maiores revelações nacionais do humor?
Não, não penso assim. Tenho os pés bem assentes na terra e não penso nesses voos, não me sinto dessa forma. Há pouco tempo, ganhei um prémio como ator de comédia, e eu que não acreditava ganhar nada, nem preparei discurso. Foi uma vergonha, recebi o prémio sem saber a quem agradecer, agradeci à minha mulher e filha e fiquei sem jeito.
Mas não pensa nisto por timidez?
Por timidez, por racionalidade... A fama é tão efémera.
A popularidade pode afetar um artista?
Pode, acho que sim.
Como se defende disso?
Tenho alguns travões incutidos pelos meus pais, que sempre foram muito trabalhadores e são um exemplo para mim. Nunca me deixei deslumbrar. Tal como a minha irmã. É muito fácil isso acontecer, sobretudo para quem não tem essas referências.
De todas as muitas personagens que já fez, há alguma que o tenha tocado mais?
Gosto mais de fazer personagens de raiz do que imitações. Eu, que vivi em Setúbal, adoro fazer aqueles indivíduos dos bairros da zona, mas também gosto muito das primeiras personagens que interpretei no Herman.
O universo do humor é muito competitivo?
Estou focado, não me disperso a pensar nesse tipo de coisas. Há competitividade em todas as áreas, não só no humor. Vivemos num Mundo muito competitivo. Os pais incutem isso nos filhos.
E o mercado português é pequeno...
Quero acreditar que há espaço para todos, mas o mercado é, de facto, muito pequeno.
Alguma vez pensou em trabalhar além-fronteiras?
Já, e se hoje não tivesse família e atravessasse uma fase menos boa de trabalho, se calhar pegava nas minhas coisas e ia para fora. Hoje, isso não me passa pela cabeça. A menos que alguém, conhecedor do meu trabalho, me fizesse um convite.
No humor tem alguns tabus?
Cabe-nos a nós, humoristas, romper com esses tabus. Como ator de comédia – não gosto de dizer que sou humorista –, procuro romper com alguns tabus e para isso não posso ter vergonha de nada. A começar pelo meu corpo, tenho uma boa relação com o meu corpo, por isso admiro tanto ‘Little Britain’ [série da BBC].
O humor nacional é um pouco envergonhado?
Hoje já não tanto, mas já foi. O Herman foi o primeiro a romper com esse lado.
As novas gerações querem outro tipo de humor?
Querem. Hoje temos acesso a tudo, e até os mais novos veem os Monty Python. O YouTube tem muita coisa. Referências não faltam.
Que feedback tem do público na rua?
É sempre bom quando alguém vem falar connosco e diz que gosta desta ou daquela personagem. Não me incomoda nada, o País é tão pequenino, passando Badajoz, já ninguém nos conhece.
Convites de outros canais tem recebido?
Há sempre um convite ou outro, mas como tenho trabalho na RTP, mantenho-me por aqui.
Quer continuar na RTP?
Nunca se sabe. Para já, sinto que faço parte da família .
Se estivesse num canal privado, faria o mesmo tipo de humor?
Não sei… Procuro fazer aquilo em que acredito e gosto.
Como é a sua relação com a rádio, onde apresenta ‘Portugalex’, com António Machado?
O programa está no ar há sete anos. Não tenho aquilo a que as pessoas chamam o ‘bichinho’ da rádio, mas gosto imenso de o fazer e faço-o há muitos anos. Comecei com a minha irmã na Rádio Azul, em Setúbal, tinha 15 anos.
Que ficou do curso de Belas Artes, que quase acabou?
Ficou a liberdade dos primeiros anos do curso, as aulas de desenho, a novidade dos materiais... A desilusão deu-se quando, no design gráfico, nos foi imposto o computador. Os últimos anos já foram um pouco sofridos, e também porque na altura já fazia formação de atores, o que me dava muito prazer…
Perfil
Manuel Marques - Natural de Setúbal, o ator, de 38 anos, começou a carreira no teatro. Estreou-se em TV em 2001, no ‘Programa da Maria’. Desde 2002 que colabora com Herman José. Integrou o elenco de ‘Os Contemporâneos’ e ‘O que Se Passou Foi Isto’. Entrou no filme ‘Julgamento’, de Leonel Vieira, e foi protagonista da versão portuguesa do musical ‘Os Produtores’, de Mel Brooks. Pode ser visto na versão televisiva de ‘O Inimigo Público’ (Canal Q).
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