O director da RTP 2, Jorge Wemans, diz que o serviço público de televisão deve formar espectadores exigentes.
- Foi desafiado para este canal, na altura a 2:. Para si, o que é serviço público?
- Entendo que o Serviço Público contribui para a melhoria genérica do espaço televisivo do País. Diria que, globalmente, tem de ter algumas características. Em primeiro lugar, constitui, por natureza, um projecto televisivo, que pode consubstanciar um ou mais canais, mas que pressupõe, à partida, autonomia e independência face à imposição estrita do mercado. E deve afirmar--se com um tipo de programação plural, independente dos poderes económicos, que contenha formas inovadoras de fazer televisão e assim contribuir para a formação de um público exigente. Há um outro elemento no serviço público que é o ser escrutinável, quer pela opinião pública quer pelos organismos competentes. E estou a falar do número de horas, mas também do que deveria dar e não dá. Tenho sentido que a RTP 2 está permanentemente sob o olhar das pessoas, que se sentem muito mais à vontade para se pronunciarem sobre nós do que em relação a outros canais.
- Que diferenças consubstancia hoje entre a 2: e a RTP 2?
- Tentamos, no que é estritamente serviço público, manter o que era constitutivo na 2: e que era a sua relação com a sociedade Civil. Repare que entre a essência da 2: e a RTP 2 o nosso mandato não mudou, o tal ‘contrato’, que é público e tem uma lei que o regula, não se alterou. O que há aqui de diferente é essencialmente uma interpretação do modo como concretizar os objectivos que o segundo serviço público de televisão deve ter. Desse ponto de vista, reforçámos a nossa atenção ao documentário, à área ligada ao conhecimento e à ciência, e finalmente, tivemos uma conjuntura que nos permitiu reforçar a atenção na programação infantil.
- Foram investidos 1,5 milhões de euros no programa infantil ‘A Ilha das Cores’. A audiência justifica o investimento?
- Estamos muito contentes.
- Vai investir noutras áreas?
- Na ‘reentrée’ esperamos ter novas propostas, nomeadamente na área da ciência e do conhecimento, que é essencial. Mas o facto de a produção infantil ser da RTP é que é excepcional, porque grande parte da nossa produção resulta de propostas e entendimentos externos. Uma das missões da RTP 2, que acho importante e está na proposta da nova Lei de Televisão, é um reforço da imposição de que o segundo serviço público contribua para a vitalidade da produção audiovisual independente, nomeadamente pela obrigação de dedicar parte do seu orçamento anual. E nós estamos cumpridos.
- A RTP 2 tem um saco azul suficientemente vasto para aguentar estas solicitações, quer as que advêm da nova lei da Televisão, quer da produção externa que já faz? Isto já não falando da própria gestão diária?
- Há pouco falei de escrutínio... Aqui não há nenhum saco azul, as contas são feitas ao cêntimo. Enquanto, através dos seus representantes, a decisão for a de que cada português contribua com dois euros para o orçamento deste canal vamos ter problemas. Vinte e dois milhões de orçamento de grelha é manifestamente curto face às obrigações que impendem sobre nós. O que não quer dizer que não seja possível assacar responsabilidades ao programador que aqui se senta sobre as opções que faz.
- Está aí porque quer...
- Só estou cá porque quero. Apesar de tudo, acho que existem também factores favoráveis. Produzir para televisão hoje é muito mais barato do que há cinco anos. E existe uma pluralidade de empresas e produtoras que respondem a desafios específicos. A esse nível, o tecido está bastante mais complexo em Portugal e permite-nos, com poucos euros, chegar mais longe. O que não quer dizer que se possa manter muitos mais anos assim, pois numa sociedade que vai aumentando as suas necessidades de consumo, o grau de exigência também aumenta. Daí que não seja possível, no futuro, gerir uma resposta com este orçamento.
- O serviço público deve continuar a receber o contributo da publicidade?
- Na Europa e nos Estados Unidos existem várias formas de financiar o serviço público. Umas apoiadas no mercado, outras no financiamento público, outras ainda no financiamento directo dos cidadãos.
- É o caso da PBS...
- Sim. E há sistemas que misturam essas vias todas. O português é misto, depende da contribuição pública do estado mais publicidade e no caso concreto da RTP 2, também da contribuição, mais em disponibilidade de tempo e ideias, dos nossos parceiros. Não sei se é o melhor do Mundo, mas funciona. Se pudessemos recomeçar do zero talvez outro molde fosse possível, mas como este funciona, com críticas, é certo, por parte das privadas, acho que chegámos a um entendimento aceitável.
- Há uma proposta do PSD de que o serviço público poderia ser feito por um privado...
- Se estivessemos na origem dos tempos, essa discussão seria interessante e o auto final não sei qual seria. Acontece que estamos em 2007, com um serviço público, duas televisões privadas e uma série de canais distribuídos pelo cabo. Creio que o tipo de acolhimento público que essa proposta teve mostra que ela não tem, neste momento, espaço de poder mobilizar algo que seja favorável ao público, à redefinição de serviço público e de oferta privada. O próprio silêncio que se seguiu a um momento de discussão mostra que não está na ordem do dia. Não é, seguramente, a reflexão mais importante no momento.
- A 2:, quando surgiu, apostou em séries de referência, que tinham quase desaparecido das televisões. Hoje, parece que a RTP 2 não está a ir buscar novas séries tão marcantes. Houve um desinvestimento nessa área?
- Não creio. Oferecemos todas as noites uma série entre as melhores existentes. É facto que hoje não estamos sozinhos, há mais oferta quer no cabo quer, no ‘late night’, nos generalistas. E também na RTP 1, à tarde. A série tem, neste momento, uma atenção que não tinha há uns anos. A RTP 2 descobriu esse filão e explorou-o em Portugal, muito antes até do que outros canais da Europa. Já estou em desacordo que não tenhamos as melhores séries. Temos a continuação daquelas que fizeram história. É certo que acabou ‘Sete Palmos de Terra’, ‘Os Sopranos’ também vai acabar...
- Neste momento, a RTP 2 exibe a segunda linha...
- Não. Está a partir do princípio de que as séries novas não vão constituir, daqui a três anos, a referência. Acontece que começaram a surgir séries tão sofisticadas que não tiveram êxito. Estivemos agora no mercado de Los Angeles e constatámos que não havia tanta novidade e textos tão bem construídos como antes. As produtoras apanharam um susto no ano passado e vieram para terrenos menos nebulosos.
- O ‘Jornal 2’ deixou de ter 40 minutos e passa uma sobreposição de peças da RTP 1. A aposta no internacional deixou de ser visível... Qual o objectivo desse ‘lifting’?
- Parte dessas questões devem ser dirigidas ao director de Informação, Luís Marinho. Mas acho injusto que defina o ‘Jornal 2’ como um ‘remake’ do ‘Telejornal’. O ‘Jornal 2’ tem uma equipa própria, isso nota-se, e uma escolha muito criteriosa dos entrevistados. O problema é que, como os jornais fecham cada vez mais cedo, essas opiniões nem sempre são aproveitáveis. No que diz respeito ao conteúdo, continuamos a privilegiar o internacional e a economia. É certo que muitas imagens internacionais já passaram na RTP 1, mas também na SIC Notícias, na RTPN, Sky News... Neste momento, o que distingue os serviços informativos é a forma como se edita. E a RTP 2 tem um share de 5% no total que sobe para 10% na classe A/B.
- Entende este cargo como uma missão política?
- Nem pensar. Acho que ser director da RTP 2 é, com facilidade, um lugar interessante e entusiasmante, pois o que é realmente significativo é a possibilidade de oferecermos opções de entretenimento, informação e conhecimento. E a RTP 2 pode oferecer de facto às pessoas que vêem televisão em Portugal algo que as outras não oferecerem. Hoje, o que podemos aspirar para a sociedade portuguesa é que as pessoas possam usar a liberdade e escolher. E nas hipóteses de programas em que pensámos, se temos algum papel é educativo.
NA RTP, O CANAL QUE EXIBE PRIMEIRO É QUE PAGA: “‘PERDIDOS’ É CLARAMENTE UM PRODUTO PARA A RTP 2”
- Há concorrência entre a RTP 1 e a RTP 2 na compra e exibição de formatos?
- Não. Procuramos manter a nossa programação centrada numa oferta alternativa. Identificamos claramente os formatos que são para um público mais amplo, da RTP 1, e os que são da RTP 2. Há alguns que ficam na fronteira, como ‘Perdidos’, que é claramente um formato para a RTP 2 e nem sempre acertamos. No que respeita à ficção portuguesa, há uma situação mais clara. Dentro das prioridade da RTP 2, produzir ficção é muito caro. Podia fazê-lo, mas deixaria de produzir documentários, magazines, etc. Portanto, quem produz, compra e exibe ficção portuguesa é a RTP 1. Isso tem a ver com a dimensão do orçamento e a prioridade dos programadores. Por vezes, trocamos formatos, como aconteceu com o programa de António Barreto, os documentários do 11 de Setembro ou agora a série ‘Sobrenatural’. Segundo o nosso trato, quem exibe primeiro é quem paga.
NOVIDADES: MAIS PROGRAMAS INFANTIS
Na nova temporada, a RTP 2 vai estrear um ‘talk show’ sobre ciência e conhecimento, documentários e mais programas infantis. As séries mantêm destaque na grelha deste canal. Levar alguns temas à discussão pública é outra prioridade de Jorge Wemans, que vai dar continuidade a acções como a de ‘Então é Assim’, que deixou aos pais a decisão de acompanhar os filhos no visionamento de um filme sobre educação sexual.
Jorge Wemans tem 53 anos. Diplomado pela Escola Superior de Jornalismo de Paris, foi subdirector do ‘Expresso’, esteve ligado à fundação do jornal ‘Público’ e foi director de informação da Agência Lusa. Antes de assumir a direcção da RTP 2, era director de comunicação da Fundação Calouste Gulbenkian.
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