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Correio da Manhã

Tv Media
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‘SOBRE FIALHO, COM AMOR…’

Na hora em que a televisão portuguesa perde um dos seus pioneiros, Luiz Andrade, realizador do célebre ‘Zip Zip’, e actual director de programas da RTP, recorda em exclusivo para a Correio TV o Homem de todos os ofícios...
9 de Outubro de 2004 às 00:00
Éramos todos ainda muito novos quando nos encontrámos na RTP. Fialho estava cá desde o início. Ele, sim, foi um pioneiro, eu não, cheguei já a procissão ia no adro!
Não tínhamos estudos específicos para televisão, não tínhamos ninguém que nos ensinasse grande coisa, o país era muito fechado e o que tínhamos para oferecer era uma vontade enorme de fazer programas de televisão. A criatividade de Fialho Gouveia parecia que destoava do ambiente.
Fialho cumpria todos os pontos que ainda hoje atribuímos aos grandes profissionais: pontual, criativo, bom ouvinte, escrevia maravilhosamente, geria muito bem as equipas. De resto, quando nos engalfinhávamos todos uns com os outros, ele era um elemento pacificador. Tinha uma imensa versatilidade, fazia reportagens para o ‘Telejornal’ e apresentou-o, criou programas de entretenimento, e deu-
-lhes a cara, foi o primeiro ‘pai’ dos ‘Jogos Sem Fronteiras’ em Portugal… Fazia tudo o que era preciso.
Naquele tempo, a televisão era muito diferente, tinha muito poucos meios técnicos, vivíamos todos da imaginação e da experimentação. Era um homem que se comovia com imensa facilidade, apesar de ser um espírito muito alegre. Não me esquecerei, aliás, de uma reportagem feita em Penedos, uma aldeia muito pobre que foi toda reconstruída pelos cidadãos, até as crianças carregaram areia em baldes de praia. Fialho tinha de apresentar a aldeia reconstruída e estava tão emocionado com a lição de solidariedade que não havia meio de parar de chorar, não podendo falar. Nós, que nessa altura ainda não tínhamos descoberto que um apresentador em pranto dava audiências, esperámos para que se recompusesse. ‘No ar’ apresentou-se como um profissional, embora nos bastidores reagisse como um ser humano.
Mas também me lembro de uma longa viagem que fizemos juntos aos países que organizavam os ‘Jogos Sem Fronteiras’. Fialho dirigia as negociações para Portugal entrar, eu fotografava tudo. Na Jugoslávia (ainda a de Tito), a representante belga perguntou a Fialho: “Por que é que o seu fotógrafo não fala, é tímido?” Fialho explicou que eu era o realizador do programa e que de tímido não tinha nada e, para provar a sua teoria, convidou-me para dançar. Os dois, numa triste mas divertida figura, dançámos o ‘kalinka’ à russa, acompanhados dos aplausos dos restantes convivas. Sorrio sempre quando conto isto, embora também core de embaraço. Infelizmente vivemos numa época em que a idade é um defeito. Fialho continuava a ser um grande criador, mesmo aos 69 anos. Foi pena que se tivesse dispensado a sua colaboração, porque… “os jovens que me perdoem, idade é fundamental”.
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