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Correio da Manhã

Tv Media
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Sobriedade marca a informação

José Carlos Castro, apresentador do ‘Jornal Nacional’, na TVI, não tem dúvidas: a imagem em televisão é “60% expressão e voz e, 30 ou 40% conhecimento e experiência do pivô”. Mas, no ecrã, o que “marca mais a imagem de um homem é a gravata. Ou seja, posso ter 12 ou 15 fatos, mas preciso de ter quatro ou cinco vezes mais gravatas. Se hoje usar uma gravata e uma semana depois voltar a usá-la, o telespectador lembrar-se-á”, explica.
24 de Julho de 2009 às 00:00
Cristina Esteves
Cristina Esteves FOTO: Sérgio Lemos

O pivô da TVI diz que o tom ideal em TV é o azul escuro. “As cores escuras, azuis e cinzas, e com poucos padrões, ficam sempre bem. As gravatas querem-se de cores lisas e com riscas largas,” dita a experiência do jornalista. Uma boa imagem em TV tem regras, mas, como diz José Carlos Castro, as regras existem “para ser quebradas”. Foi o que fez quando, há uns anos, apresentava o ‘Directo 21’ e era vestido por Nuno Gama. “Usei camisas com cor, o que era raro em televisão”, recorda o jornalista.

 

No ‘Jornal da Noite’, na SIC, Clara de Sousa é presença assídua. Depois de 16 anos na informação já tem a certeza do que lhe fica bem. “Para um jornalista que apresenta noticiários não é preciso muito. Um bom fato com um bom corte é fundamental. De quando em vez, podemos arriscar um pouco mais numa cor ou num acessório. Acima de tudo, tem de ser uma imagem cuidada”, explica. A pivô do ‘Jornal da Noite’ usa “todas as cores”, porque, diz, desde que “bem conjugadas não há cores proibidas”. Clara de Sousa é adepta de “cortes cintados e padrões lisos ou com risca giz”. Fazer televisão é um trabalho de equipa, por isso, a pivô da SIC não hesita em ouvir Helena Carmona, consultora de imagem da estação há 17 anos. “E é a eles que devemos recorrer quando temos dúvidas, tal como recorremos aos nossos colegas da política quando temos uma importante entrevista com uma personalidade dessa área. Trabalhamos em equipa e é em equipa que devemos funcionar em todas as áreas”, sublinha a pivô.

 

Aparecer de manga curta na apresentação das notícias não é coisa que agrade a Clara de Sousa, nem à sua colega Andreia Vale, pivô de informação da SIC Notícias. “Não gosto de usar mangas curtas. Não tenho corpo para isso. Evito deixar os braços à mostra”, diz Andreia. Na SIC, cada pivô é vestido por uma marca. É a chamada ‘ajuda à produção’, explica a jornalista da SIC Notícias. “Com o conselho de Helena Carmona vamos escolhendo o guarda-roupa ao gosto de cada um”, acrescenta. “Evitamos o verde, por causa do croma. Alguns brancos dificultam o controlo da imagem. Mas tudo se pode usar com bom senso”, explica Andreia Vale, que gosta de uma “maquilhagem leve”. “Quanto menos maquilhagem melhor”. No âmbito dos penteados, a jornalista da SIC Notícias aponta como mais gosta de ser ver no pequeno ecrã: de rabo-de-cavalo. “Antigamente havia um preconceito contra este penteado, que é um dos mais usados pelas pivôs e apresentadoras italianas”.

 

Sobriedade é a imagem que a SIC procura difundir. Com um curso de Design de Moda do IADE, Helena Carmona ajuda a criar essa marca. “O canal tem de ter uma identidade. Na área da informação pretende-se sobriedade nos pivôs femininos e masculinos: poucos adornos e acessórios, coisas que podem desviar a atenção do telespectador da notícia. Na informação exige-se um maior rigor do que no campo do entretenimento”, esclarece a consultora de imagem da SIC. “Há cores que, em TV,  ficam bem a toda a gente: os azuis fortes ou eléctricos e os vermelhos escuros. Já o verde vamos usando cada vez menos à medida que aumenta o número de cenários digitais. Os beges potenciam as qualidades e os defeitos de quem os usa. São cores ingratas para trabalhar. É preciso ter um tom de pele especial para usar rosa ve-lho, bege claro ou lilás”, esclarece Helena Carmona. Na RTP N, a pivô Cristina Esteves prefere o preto, o branco e os azuis, embora ache que os “tons mais fortes” a favorecem mais. “Por vezes tento conjugar cores neutras com outras mais quentes. A maioria da roupa que uso é clássica, muito à base dos tailleurs, com calça, e lisos”, explica. “Há roupas e acessórios de que gostamos, mas que ficam mal no ecrã. A experiência e alguns bons conselhos são importantes nesta profissão, que, por ter mais visibilidade e ser mais susceptível a críticas, merece um olhar atento”, revela a jornalista a pensar em Isabel Tomás, responsável pela imagem da RTP.

 

A pivô Cristina Esteves evita “demasiados acessórios”, mas não resiste a pérolas, que usa “com frequência”. “Um jornalista deve ser discreto para que a notícia não disperse. A primeira impressão é importante para captar a atenção, mas o que interessa é o conteúdo. Julgo que a naturalidade acaba por trazer credibilidade e ajuda na transmissão da mensagem”. Enquanto Marina Cruz trata dos penteados da RTP, Cristina Gomes coordena a maquilhagem da estação desde 2001. A equipa de oito elementos que tem no canal chega a maquilhar mais de 1200 pessoas por mês, entre “funcionários e convidados”.

 

Uma das primeiras pivôs de informação da televisão portuguesa foi Maria Elisa Domingues, que agora apresenta ‘Serviço de Saúde’ , na RTP 1. Quando começou, nos anos 70, não havia aconselhamento. “Tive de me guiar pelo meu bom senso procurando inspiração no que via nas televisões estrangeiras quando viajava. Um pivô de informação tem de ter uma naturalidade cuidada, ou seja, não pode ter um estilo muito elaborado para não distrair o telespectador do essencial: a notícia. Isso tornou-se óbvio, quando se começou a ver a CNN, onde os pivôs se vestem de forma clássica e se penteiam com simplicidade, evidenciando a tal naturalidade cuidada”, explica a jornalista.

 

Ao contrário da moda, “que muda” e “surpreende”, os pivôs não podem fugir muito da imagem que criaram. “O telespectador habitua-se a uma determinada cara e estilo e cria laços de empatia que ajudam a reforçar a credibilidade”, explica a jornalista. Maria Elisa, que tem uma predilecção pelos beges, preto, azul escuro e vermelho, recebeu aconselhamento de um assessor de imagem quando foi directora de Programas da RTP.  Os cabelos penteia-os no mesmo cabeleireiro “há mais de vinte anos”.

 

Manuel Luís Goucha não é pivô de informação, mas é uma referência na TVI pelo estilo cuidado e inconfundível com que se apresenta no pequeno ecrã. Ao contrário dos pivôs e apresentadores de TV, nunca vestiu um fato que não fosse seu. “A imagem que tenho no ecrã é a mesma que apresento no dia-a-dia. Não é trabalhada, ou seja, faço o programa com o mesmo fato com que anfitrio no meu restaurante à hora de almoço e com que chego a casa à noite”, diz Goucha. Apaixonado por moda, gosto que herdou da mãe, o apresentador de ‘Você na TV!’ recebe vários telefonemas de espectadores que querem saber onde adquiriu a gravata ou blaser, que combinam sempre com os óculos e os sapatos. O azul é a cor preferida de Goucha que, apesar de “adorar” gravatas, não as usa há um ano.

 

CABELEIRO MORENO: “PENTEADOS CONTIDOS”

 

Moreno é quem cuida dos cabelos dos pivôs e apresentadores da SIC. Na informação, diz, os “penteados querem-se “contidos, pouco extravagantes” porque o que se procura transmitir é “seriedade”. “Uma cabeleira tem de se apresentar limpa, bem tratada e penteada”. Se na informação é preciso assegurar uma imagem “mais clássica”, no “entretenimento pode brincar-se mais com os cabelos, ser mais criativo”, explica o cabeleireiro, que há seis anos trabalha para a estação de Carnaxide. Sobre Clara de Sousa, revela que a pivô apresenta um cabelo “saudável e bem pintado”, e que, por ser todos os dias sujeito a secador, precisa de “uma boa máscara”. Os seis cabeleireiros da equipa de Moreno tratam também dos cabelos dos repórteres de exteriores: “Quando uma jornalista sai, tentamos fazer um penteado que prenda os cabelos para evitar que esvoacem durante os directos”, desvenda.

 

BASTIDORES

 

ISABEL TOMÁS

 

Para a responsável da imagem da RTP, azuis e vermelhos são as cores mais utilizadas. Já os castanhos e verdes exigem maior atenção. “Padrões de tweed e algumas riscas fazem batimento, ou seja, tremem a imagem”. “No Inverno, algumas fazendas fazem engordar a imagem”.

 

HELENA CARMONA

 

Maquilhagem, cabelos, guarda-roupa em televisão, “tudo tem limites”, porque como diz Helena Carmona, que zela pela imagem da SIC, “trabalha-se com um público muito vasto e heterogéneo e pretende-se agradar ao maior número de pessoas”.

 

CRISTINA GOMES

 

“A cor da roupa e a hora a que o jornal é emitido são factores a ter em conta, mas o mais importante é respeitar a personalidade e os gostos de cada pivô. Quem dá a cara tem de gostar do que vê e sentir-se bem”, explica Cristina Gomes, maquilhadora externa da RTP.
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