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Correio da Manhã

Tv Media

Sou noveleiro por natureza

O autor de ‘Fascínios, em exibição na TVI, explica como fez de Margarida uma vilã complexa e sociopata.
28 de Dezembro de 2007 às 00:00
- Como é que o guionismo surge na sua vida?
- Aos 13 anos decidi que queria ser escritor de novelas. Uns querem ser bombeiros, outros médicos, eu queria escrever novelas e ficar na retaguarda da ficção.
- Que mais o fascinou nesta profissão?
- Talvez a capacidade de comandar o destino dos outros. Poder ser um pouco Deus, omnipotente. Fascinava-me a possibilidade de criar um universo de muitas pessoas e ser eu a decidir o destino delas!
- Era consumidor de novelas?
- Era fã. E ainda sou. Assumo publicamente. Sem pudor nenhum. Sou noveleiro por natureza.
- Quais os autores que mais admira?
- Os brasileiros Manoel Carlos e o Gilberto Braga.
- Como foi o começo da profissão?
- Sou da Vidigueira e comecei por escrever radionovelas na Rádio Vidigueira. Até que ganhei o concurso de guionismo lançado pela NBP, em 2002, e fui convidado para a Casa da Criação.
- ‘Fascínios’ é uma novela clássica?
- É clássica, porque vive das emoções, mas não no sentido dos amores e desamores!
- Então, o que a caracteriza?
- É uma novela que vive em função de todo o tipo de relações, sejam elas de trabalho, amorosas, entre pais e filhos... Mas não é uma novela de pares românticos e tem vários núcleos duros.
- Qual é a mais-valia desta produção?
- O fascínio do Oriente. Daí o título ‘Fascínios’ e a consciência daquilo que nós fomos (somos sempre o produto do que já fomos). O olhar para nós sem vergonha, olhar para a primeira pedra que caiu do nosso império e que foi a Índia. Esse olhar é o que a novela traz de novo aos portugueses. Depois há o choque de culturas entre o Oriente o o Ocidente, as diferentes maneiras de estar na vida, de pensar e sentir.
- Como é feito o recorte social?
- Vamos ter a estratificação social portuguesa e a oriental. Estará representada uma das castas, os brâmanes, a casta mais elevada da Índia e que representam o espírito da nação. E vai haver choque entre as duas civilizações. Por cá vamos ter os ricos, os pobres... ainda que esta novela tenha muito glamour. Teremos o Óscar Ventura, dono de um império, mas também a família da mulher dele que vive no Seixal...
- A Alexandra volta a ser vilã. O que vai distinguir a Margarida da Luísa Albuquerque?
- Há um livro intitulado ‘As Três Faces de Eva’, eu diria que esta novela vai apresentar as dez faces de Margarida. Ela é diferente consoante a pessoa com que interage. Inclusive com aqueles que sabem quem ela é realmente. Com a família que a conhece bem ela tanto é sincera como cínica. A Margarida tem um comportamento degenerativo. Vamos assistir a vários níveis de vilania e a vários níveis de representação.
- Houve conversas entre actriz e guionista para a composição da personagem?
- Houve reuniões alargadas, com a presença da Alexandra Lencastre e do André Cerqueira, que é um excelente coordenador de projecto. E sabe exactamente o que o autor escreve. Já tinha trabalhado com ele no ‘Dei-te Quase Tudo’ e tivemos a sorte de voltar a fazer um casamento que, espero, seja feliz. O André compreende na medida exacta o que pomos no guião. Quanto à Maria Henrique, está a fazer um excelente trabalho de direcção de actores. Temos um contacto quase diário para fazer passar pequenos feedbacks: ela dá-me conta do trabalho dos actores, eu passo-lhe ideias que estou a ter para os próximos capítulos e vamos, assim, chegando a um consenso sobre o perfil das personagens.
- Definir a personalidade da Margarida fica por conta a Alexandra Lencastre?
- O trabalho da concepção da personagem vai no guião, onde damos indicação das mudanças de registo que a personagem tem. Depois vem o trabalho da Alexandra, que é uma actriz inteligentíssima, de mão-cheia.
- Este papel é um desafio para a actriz?
- É, mas acima de tudo é uma honra tê-la a representar nesta novela. Só uma grande actriz pode fazer um papel deste género. A Margarida tem uma personagem muito complexa. Pode parecer apenas mais uma vilã, mas não é, é antes uma sociopata. E este comportamento degenerativo e doentio está em todas as atitudes dela. Até na relação com a filha.
- Ela é mais vilã do que a Luísa Albuquerque?
- A Luísa não fazia determinadas coisas, como matar. E se matasse, mataria com pudor. A Margarida, não. É mais fria.
- É feliz na Casa da Criação?
- Estou satisfeito. Estou lá há quatro anos.
- Como é a dinâmica do grupo de guionistas?
- Cada produção tem a sua própria sala de trabalho. Uma equipa faz ‘Fascínios’, outra ‘Morangos’ e outra ‘Deixa-me Amar’. Temos reuniões semanais e aí decidimos para onde vai a estória. Quando há empates sou eu quem decide. O grupo de trabalho é giro. Damo-nos muito bem e estamos em sintonia.
- Que acontece se a inspiração falhar?
- Nesta novela já me aconteceu de tudo... Ter de escrever com uma gripe e 40 de febre, uma crise de sinusite, outros tiveram gastroenterites.... Temos a obrigação de alimentar uma produção que está em andamento e não podemos falhar. Todos os dias têm de estar prontas 70 páginas. Os quatro escrevem-nas e eu faço a versão final.
- Como é que isso funciona?
- Estruturamos um episódio por cenas e estas são divididas pelos quatro elementos. Eu depois faço a revisão das cenas e uniformizo a linguagem da novela. O texto final tem de parecer ter sido escrito apenas por uma pessoa.
PERFIL
António Barreira tem 33 anos e é licenciado em Direito. Integra a equipa da Casa da Criação desde 2002, altura em que ganhou o concurso de guionismo lançado pela NBP. Participou na escrita das novelas ‘Saber Amar’, ‘O Teu Olhar’, ‘Queridas Feras’ e ‘Mundo Meu’. Depois, assumiu o comando de ‘Dei-te Quase Tudo’. Ao lado de Manuel Arouca colaborou na autoria de ‘Tu e Eu’. É dele a ideia original da novela ‘Fascínios’ em transmissão na TVI.
NA CASA DA CRIAÇÃO: OS CRIATIVOS
“Cada um deve escrever onde se sente bem. Eu gosto mais de escrever à noite, o silêncio da noite é inspirador. Mas estou na Casa da Criação todos os dias. O que interessa é que cada um dê o melhor de si. Somos uma equipa de criativos, não de funcionários públicos”.
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