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Correio da Manhã

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‘Telenovelização’ da acção

Terminou a longa saga de ‘Equador’, que teve pontos positivos mas que, muitas vezes, se deixou fascinar demasiado pelo discurso de telenovela. O último episódio deixou mesmo portas por fechar.
24 de Julho de 2009 às 00:00
‘Telenovelização’ da acção
‘Telenovelização’ da acção

Não parecia ser fácil transpor ‘Equador’ para série televisiva. E como se provou nesta longa série, não era mesmo uma tentativa isenta de riscos colaterais. A propósito de ‘Equador’, sempre me lembrei de uma série marcante da idade de ouro da televisão britânica (os anos 80), ‘A Jóia da Coroa’. Aí assistíamos aos últimos dias do império britânico na Índia. Aqui vislumbramos o fim da monarquia em Portugal, embora grande parte da acção se passe em S. Tomé e Príncipe. Mas, se na primeira (uma grande adaptação da notável trilogia de Paul Scott) se conseguia sempre cruzar o universo emocional e amoroso com o mundo político, em ‘Equador’ nunca conseguimos descortinar esse equilíbrio, que daria, por certo, mais riqueza à série.

 

Não é que faltassem meios: a produção foi de excelente qualidade e alguns dos actores surpreenderam mesmo pela positiva. O que sempre faltou a ‘Equador’ foi um guião que conseguisse interligar todos os universos paralelos onde a história decorre. A partir de certa altura deixámos de ter qualquer ligação ao que se passava em Lisboa, centrados muitas vezes em cenas que se prolongavam para lá do normal. Por outro lado, notou-se, em demasiadas partes da série, uma forte tendência para a ‘telenovelização’ da acção, estendendo certos acontecimentos sem lógica aparente. Em alguns casos faltou, sobretudo, contenção narrativa, mas em Portugal ainda não há uma escola de séries. Cujo discurso é diferente do das telenovelas.

 

O último episódio mostrou à evidência essas fragilidades. Como em muitos episódios, hoje acção a menos e telenovela a mais, tudo teve de ser fechado a correr. E ficaram pontas soltas: o comerciante vai de charrete para a fazenda de Maria Augusta (há ali um fogo, há um ferido, há as consequências da morte do coronel), depois não se passa nada. Ficou por ali uma ponta solta, como ficaram outras ao longo da série. ‘Equador’ não foi uma má série. Mas poderia ter sido muito melhor do que o que foi: teve meios para isso. E, por isso, no fim não deixámos de sentir alguma frustração.
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