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Correio da Manhã

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“Televisão fica em último lugar pela falta de qualidade"

A actriz revela que a televisão está atrás de cinema e teatro nas suas preferências profissionais e afirma que a ficção portuguesa ainda tem um caminho a percorrer para atingir a excelência
6 de Janeiro de 2012 às 00:00
“Televisão fica em último lugar pela falta de qualidade'
“Televisão fica em último lugar pela falta de qualidade' FOTO: Helena Poncini

Como está a correr a experiência em ‘Rosa Fogo'?

Estou a gostar imenso. Divirto-me a fazer a Catarina e tive sorte porque podia ser uma mulher mais sedutora, segura de si, mas decidimos fazê-la, também por sugestão da Patrícia Muller [autora da novela], um bocadinho mais nervosa, mais desequilibrada, o que me deixa espaço para criar, fazer pesquisa e ir à procura de registos de antagonistas. Acabei por ir buscar registos de mulheres obcecadas com o amor ou por uma ideia dele, em várias personagens e histórias, como na Branca de Neve.

Esta é a sua primeira vilã?

Já tive um papel de antagonista, ou qualquer coisa do género, nas ‘Chiquititas' [SIC, 2007], se bem que foram só 30 e tal episódios. Mas com mais consistência este é, de facto, o meu primeiro papel de antagonista.

Porque é que ‘Rosa Fogo' não está a ter grande receptividade junto do público?

Não sei. Procuro manter-me afastada das audiências e dos shares, até porque não percebo muito bem como isso funciona e faz-me alguma confusão. Vimos de um grande sucesso que foi ‘Laços de Sangue', feito em parceria com a Globo, e talvez nesta novela as coisas não tenham tido o mesmo tipo de cuidado. E o facto de termos estado a competir com a ‘Casa dos Segredos' também teve os seus efeitos....

Acha, portanto, que há o peso de ‘Laços de Sangue'?

Sim, mas poderia ter sido óptimo. O ‘Laços de Sangue' poderia ser um bom empurrão para esta novela funcionar... 

E o peso da co-prOdução com a Globo?

A Globo é muito respeitada na SIC e na SP Televisão. Se calhar por fazer novelas há mais tempo têm um grau de exigência maior. E se calhar isso faz a diferença. Eu sou exigente. Acho que ainda se consegue fazer mais e melhor. É óptimo termos tido os dois prémios internacionais do Emmy nos últimos anos mas ainda estamos muito longe de termos realmente qualidade. Os actores em Portugal fazem milagres, garanto-lhe! Temos muito bons actores e actrizes em Portugal. E por isso acho que podemos fazer sempre mais e melhor.

Participou em ‘Laços de Sangue'. Sente o Emmy também como seu?

O Emmy na SP é uma continuidade. Se o sinto como meu prefiro dar-lhe essa conotação. A primeira novela que a SP fez e as que tem feito ultimamente não têm comparação. Nota-se uma evolução, uma preocupação... a ‘Rosa Fogo', por exemplo, tem uma imagem muito boa, uma fotografia surpreendente. E não nos podemos esquecer que estamos a falar de televisão, onde as coisas são feitas em quantidade, ainda que o melhor possível, e não em qualidade. Têm de ser feitos muitos minutos de ficção por dia e isso acaba por fragilizar a qualidade das coisas. Mas em relação ao Emmy, se o sinto como meu é porque ele é parte da SP e da SIC. Com a SIC tenho um contrato e na SP sinto-me muito acarinhada. Fico, portanto, muito feliz que estas duas empresas, às quais estou ligada profissionalmente, tenham ganho um prémio.

Participou numa das primeiras novelas da SP Televisão - ‘Perfeito Coração'. Foi um passo importante para si?

Quando falo na continuidade refiro-me ao ‘Perfeito Coração' também. Nessa novela testaram-se imensas coisas - os guionistas do ‘Perfeito Coração' foram os mesmos de ‘Laços de Sangue', aos quais depois se acrescentou a qualidade da Globo -, viu-se o que é que funcionava ou não. Na minha opinião foi o grande passo da SP no género novela, que deu o incentivo para fazer mais e melhor. E para mim, foi a primeira novela.

Neste momento está em duas frentes da SIC: na reposição de ‘Perfeito Coração', à tarde, e em 'Rosa Fogo', à noite...

É muito interessante. Permite-me olhar para as personagens das duas novelas e perceber que elas são muito diferentes. Isso deixa-me muito contente porque percebo que me consegui distanciar e fazer trabalhos muito diferentes. É um orgulho porque acho que ser um bom actor é conseguir fazer trabalhos que não sejam monocórdicos e repetitivos.

‘Perfeito Coração' surgiu no seguimento do filme ‘Amália'. É possível viver só de cinema em Portugal?

Claro que não! Quem o faz tem de ter uma boa família por trás que o sustente.

Portanto, o salto do cinema para a televisão acaba por acontecer um pouco também por necessidade?

Sim. Durante muitos anos nunca procurei este espaço de maior exposição e notoriedade. Mas depois comecei a crescer e a perceber que temos de ganhar dinheiro e ter a nossa vida. Portanto, a seguir ao ‘Amália' ter um convite para protagonizar uma telenovela fez-me pensar muito mas também foi uma experiência que me permitiu testar os ‘horrores' que se dizem sobre fazer novelas. Percebi que fazer novela é uma boa escola e é o trabalho mais difícil dentro da representação. Estamos sem rede, são muitas cenas por dia, não há ensaios e, portanto, é um bom lugar para se testar quem é bom ou mau actor. Se não trabalharmos em casa, se não tivermos truques na manga, se não soubermos improvisar e fazer opções inteligentes, podemos fazer um mau trabalho em televisão. Mas regressando à sua pergunta, sim, aceitei um trabalho porque sei que há pouco cinema, e o que há obedece a um lóbi e a uma série de regras, que eu não sei se faço parte delas. Por isso tenho de me adaptar ao mercado que existe. Agora, se me perguntar se me realizo mais a fazer cinema, teatro ou televisão digo que a televisão fica em último lugar, pela tal falta de qualidade e exigência.

Em Portugal, os actores são valorizados?

No nosso País não conta só ter talento. Em primeiro lugar, é preciso ser giro. Depois, tem de se ter uma boa base social, tanto em televisão, como no teatro ou no cinema. Só depois vem o talento.

O Globo de Ouro de Melhor Actriz em Cinema [com o filme ‘Amália'] foi importante para si?

Foi o reconhecimento do trabalho, foi bom, foi óptimo, gostei imenso. Todas as actrizes sonham com isso... Mas foi uma coisa sem qualquer consequência. Por uma única razão: não há mercado em Portugal. A única coisa que dá é reconhecimento na rua.

Tem trabalhado exclusivamente para a SP Televisão e, consequentemente, para a SIC e RTP. Nunca foi convidada pela TVI?

Já. O meu nome foi proposto pela minha agência e eles já tiveram interesse em mim. Na altura em que fiz o ‘Perfeito Coração' houve a possibilidade de fazer uma novela para a TVI. Mas acabei por aceitar o ‘Perfeito Coração' porque a personagem era mais aliciante. Por isso, as coisas acabaram por não se concretizar. Com a protagonista de ‘Perfeito Coração' fiquei como selo SIC estampado e começou-se logo a falar e a negociar o contrato de exclusividade.

Era uma coisa que ambicionava?

Não. Acabou por vir como consequência do sistema em que vivemos. Mas do ponto de vista da segurança financeira, que é o grande medo de todos os actores em Portugal, é óptimo. Por outro lado, já tive de recusar propostas de outros canais por causa do contrato. Mas não me posso queixar, foi uma escolha que fiz...

Esse contrato prevê que faça outras coisas que não só ficção? Apresentação de programas, por exemplo?

Não ponho isso de parte. O mercado da representação em Portugal é muito pequeno, portanto tudo o que eu possa fazer para aprender e desenvolver as minhas capacidades enquanto intérprete, enquanto pessoa e enquanto mulher estarei sempre aberta. Detesto a monotonia e ficar presa a uma ideia fixa. Sou actriz mas posso ser outra coisa, agrada-me essa ideia!

Quais são as principais diferenças entre a ficção da SIC e da TVI?

Acho que não tem nada que ver com actores. Tanto temos bons actores de um lado como do outro. As diferenças estão relacionadas com a imagem. Há primeira vista, e não sendo uma espectadora muito atenta, noto que na SP as novelas têm muito mais dinâmica, há mais exteriores, mais ritmo, mais cor.

Falou-se na possibilidade da SIC ter duas novelas no ar ao mesmo tempo. No entanto, por restrições financeiras, isso acabou por não se concretizar. Acha que é uma ‘machadada' na ficção televisiva da SIC?

Para nós actores era óptimo que a SIC tivesse duas novelas ao mesmo tempo. Mas para o público não sei se seria bom...

Há perigo de o público de saturar com tantas novelas?

Sim. Duas novelas pode ser um bocadinho de mais para o público, quanto mais três. Às tantas as pessoas já confundem as histórias e os actores acabam por ficar saturados. Deixa de haver um lado fresco que a SIC tem, com caras novas. Pelo contrário, na TVI as caras são sempre as mesmas, o que é péssimo para os actores.

Teme a saturação da sua imagem?

Tenho um certo receio disso. Mas o meu verdadeiro receio enquanto actriz é perder a credibilidade junto do público.

E como é que se perde essa credibilidade?

Aparecendo muitas vezes, apostando em personagens muito iguais umas às outras.

Vê muita televisão?

Não! Só vejo notícias, filmes e, influenciada pela família, vejo os programas do Gordon Ramsay.

Porquê?

Gosto muito de televisão e por gostar tanto do conceito é que me afasto dela. A televisão é um óptimo veículo para se comunicar e podia ser um instrumento para nos ajudar a crescer como sociedade. Mas o facto da ‘Casa dos Segredos' ser o campeão de audiências afasta-me completamente. Se tivéssemos um Estado e um povo que gostasse de cultura e educação as coisas seriam diferentes. E aí sim, a televisão seria um instrumento para vermos coisas interessantes. Infelizmente, neste momento não encontro nada que me prenda.

Ambiciona uma carreira internacional?

Neste momento, não. Se quisesse ter tido uma experiência internacional quando acabei o ‘Amália' teria feito as malas e ido à procura. Mas apesar de tudo não tenho perfil de emigrante. Não conseguiria viver longe de Portugal. E não me apetece começar uma vida do zero. Já me sinto pouco integrada aqui que se fosse para outro país ia-me sentir completamente desintegrada.

PERFIL

Sandra Barata Belo nasceu em Lisboa, em 1979. Estudou na escola do Chapitô, onde iniciou a carreira profissional. O primeiro papel regular em televisão aconteceu em 2007, na série infantil ‘Chiquititas', da SIC. Mas foi com o filme ‘Amália', no ano seguinte, que se tornou conhecida do grande público, tendo ganho o Globo de Ouro de Melhor Actriz. Em 2009, protagonizou a sua primeira novela, ‘Perfeito Coração'. Actualmente dá vida a Catarina, vilã de ‘Rosa Fogo', a novela de horário nobre da SIC

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