‘TEMOS HISTÓRIAS COM MAIS SUMO QUE OS BRASILEIROS’

É um dos mais bem sucedidos autores de telenovelas portuguesas e estreia em breve outra ficção, desta vez sobre mulheres. Manuel Arouca diz que o segredo do realismo é escrever sobre o que se conhece e não tem medo de expor os seus sentimentos. Mesmo que isso o obrigue a vasculhar na memória
08.05.04
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‘Baía das Mulheres’ é uma história feminina?
Tem um lado feminino muito forte, mas como é da autoria de um homem acho que vai agradar a todos. Depois de vermos as primeiras imagens, percebemos que há três grandes histórias, três grandes fios condutores, todos inspirados em mulheres. O tema central gira sobre a Sílvia, uma miúda de cinco anos que foi abandonada, e mais tarde vamos ver que a mãe existe e é uma grande promessa do ténis português. Essa é a história mais forte.
Mas há outras histórias paralelas…
Este é um dos enredos. O outro é o da Maria do Mar, interpretada pela Bárbara Norton de Matos, uma mulher jovem, casada e educadora de infância, que tem problemas de infertilidade. E depois há a história da Graça (Cristina Homem de Melo), uma mulher de 42 anos, que casou muito nova, deu tudo no casamento e vem a perceber que sofreu muitos enganos, vendo-se obrigada a começar uma vida nova. Essa personagem é muito interessante.
Onde encontrou inspiração para todas essas situações?
Primeiro foi um desafio feito pelo próprio José Eduardo Moniz, que queria uma telenovela com um retrato mais social. Eu, para fazer histórias próximas da realidade, do dia-a-dia, tenho que escrever sobre o que conheço melhor, que é a realidade da zona de Cascais. Escrevi o livro ‘Filhos da Costa do Sol’, que teve muito êxito, e retratava certa classe, em 1974. E agora, vou, através da televisão, ter o prazer de mostrar o que acho ser o retrato actual desta sociedade.
Desde então, mudaram muitas coisas nesta zona...
Imenso… As mulheres eram mais estrangeiras na altura da minha juventude (risos). Houve uma evolução tremenda na mulher portuguesa. Maria do Mar representa uma mulher mais afirmativa, que não existia quando tinha 18 anos, nem quando escrevi os ‘Filhos da Costa do Sol’. Depois mudou a realidade social, houve um desenvolvimento demográfico muito grande e hoje em dia há mais mistura. Nesta telenovela tentamos ir às raízes de Cascais e assim retratamos também o País. Há a família de pescadores, muito popular, que são os pais da Maria do Mar, mas que agora já vivem bem…
Na telenovela, a diferença social que existe entre a Maria do Mar e o marido é também um retrato da sociedade actual, a diferença e o conflito?
A telenovela vive um bocado de ódios… Nisso sou conservador. Acho que a ‘Baía das Mulheres’ traz muita novidade mas a estrutura da telenovela está lá, o que obriga a essa interacção social, sempre. Acontece que hoje em dia as pessoas de um núcleo popular aproximam-se das outras classes, porque as famílias vivem melhor e têm educações semelhantes. As coisas apreendem-se muito mais facilmente.
Era capaz de escrever com realismo sobre outro local que não o seu mundo de Cascais?
Já escrevi, ‘A Senhora das Águas’ e ‘Filha do Mar’. E uma das críticas favoráveis que se fez a ‘Filha do Mar’ foi, precisamente, o facto de retratar muito bem o Ribatejo. Na altura, fiz pesquisa, passei lá muitos dias, foi fascinante até…Mas agora, como se queria uma história com modernidade, a zona de Cascais retrata muito bem isso, além de que é muito estética, com a baía, os veleiros… Por isso, quando se pediu uma telenovela actual, mais próxima do Rio de Janeiro ou da Riviera, não se poderia ir para outro local. Ainda mais, conhecendo eu bem este sítio, pois vivo aqui desde os sete anos.
Ao retratar o seu meio não tem medo de se expor?
Não. Isto é uma telenovela actual, tenta-se fazer um espelho, dentro de uma interacção de casais, de famílias, mas não há que temer nada. Um escritor não pode ter medo. Vemos os autores que escrevem sobre o Rio de Janeiro e eles também não têm medo…
CONTAR HISTÓRIAS
O que o levou a passar dos livros para o mundo das telenovelas?
Quando escrevi ‘Filhos da Costa do Sol’, o Vítor Cunha Rego, que era director do ‘Semanário’, encomendou-me umas crónicas e notou que tinha muita facilidade para escrever os diálogos, que a minha escrita era muito descritiva… Depois, o Nicolau Breyner e o Tozé Martinho acharam o mesmo e foi assim. Esse fenómeno dos escritores é relativamente recente e no tempo em que comecei a escrever livros não dava para viver bem… Por isso optei pela televisão, porque gostava de contar histórias e de participar nisto. Era uma indústria que estava a nascer.
Tem formação específica para escrever telenovelas ou é tudo intuitivo?
Frequentei ‘workshops’. Mas é também muita experiência, ir fazendo, ir vendo…
As telenovelas brasileiras continuam a ser uma escola…
Sim. Acho que vale a pena ver. Agora, se quisermos ser ousados, até temos histórias com mais sumo…
Então o que falta para as igualarmos?
Temos tido grandes vitórias sobre as novelas brasileiras. Os ‘Jardins Proibidos’ ganharam claramente à novela brasileira, a ‘Filha do Mar’ e os ‘Olhos de Água’ também… e há mais casos. O que eles têm é mais tempo e mais dinheiro. Nós temos que tentar coisas com muita qualidade com muito menos meios técnicos.
Há quem diga que a ‘Baía das Mulheres’ foi uma encomenda para se colar ao sucesso de ‘Mulheres Apaixonadas’, que passou na SIC …
Não, por acaso não foi.
Mas há semelhanças: uma novela urbana, muitas mulheres, várias histórias principais…
’Filha do Mar’ já tinha muitas histórias, simplesmente não era um estilo urbano. O pedido que me foi feito foi o de encontrar histórias para uma novela mais urbana. Quando me foi feita esta encomenda ‘Mulheres Apaixonadas’ nem sequer era ainda um êxito… O José Eduardo Moniz teve um ‘feeling’ antes disso. Simplesmente, este processo foi muito moroso, pois nunca houve um investimento tão grande numa novela em termos de escrita, ‘casting’ ou realização como nesta. Está aqui muito trabalho investido, vamos lá ver...
A novela ainda não está terminada. Gosta de mudar o rumo à história?
Gosto imenso! Nem sei o que vai ser o amanhã das personagens. Quando as criamos há objectivos, claro, o que chamamos pontos altos. Mas ainda hoje, decidimos mudar o rumo da vida de uma personagem porque algo inesperado lhe aconteceu.
As personagens são imprevistas?
Sim, a vida vai mexer com elas. E também gosto muito de ouvir a opinião das pessoas. Entendo que as novelas vivem de um ciclo que é a autoria, a realização, os actores e o público. Uma novela não pode ser vista como um fascínio de autor, é um trabalho aberto de interacção.
Gosta mais de escrever telenovelas ou romances?
Realizo-me mais a escrever romances, sem dúvida. Mas a telenovela é um trabalho fascinante, porque nos sentimos menos sós. Nesta equipa somos três escritores, eu a Ana Casaca e o Tomás Múrias, e formamos uma equipa muito equilibrada. O Tomás já trabalha comigo desde ‘Jardins Proibidos’, a Ana começou a trabalhar comigo em ‘Filha do Mar’.
‘QUERIA SER JOGADOR DE FUTEBOL’
Se não fosse escritor o que seria?
Quando era miúdo queria ser jogador de futebol (risos). E depois não fui por aí. Tenho o curso de Direito, poderia ser advogado, mas acho que ia ser infeliz. Não me iria sentir realizado. Só fiz parte do estágio, pois descobri que aquele sonho da exercer advocacia, os grandes combates, isso não acontece. Eu já estava a idealizar a advocacia como um filme, como aquelas séries americanas, com os tribunais… e a realidade não é essa…
Escolheu Direito por, na altura, ser o melhor curso de Letras?
Aconteceu-me uma história curiosa, que conto sempre. Quando tinha 12 anos, foi-me detectada uma dislexia. Era muito mau aluno, trapalhão. Mas tive uma professora extraordinária, que me motivou, e então passei de pior para o melhor aluno a Português. E lembro-me de ela dizer que eu havia de escrever um livro e ser advogado. Isso ficou-me na memória e quando vi que o futebol não dava…
Por falta de jeito ou por preconceito?
Eu até tinha muito jeito e cheguei a receber um convite para o Benfica, mas o meu pai não deixou… Sabe, a minha carreira foi a decrescer. Quando comecei, como juvenil, aos 15 anos, era um craque, depois piorei, porque também surgiram outras coisas e não conseguia conciliar tudo. Foi também aquela fase louca dos anos 70. Se tivesse sido jogador de futebol também não tinha escrito ‘Filhos da Costa do Sol’.
Não está arrependido?
Não, acho que este é o dom que Deus me deu e que é bom ir por aí…
Quando escreveu o livro decidiu-se logo pela escrita ou ainda achava que podia ser advogado?
Ainda havia essa hipótese. Estava a tirar o curso nessa altura. Só entrei para a faculdade aos 25 anos. Aliás, os 25 anos foram uma viragem na minha vida. Corresponde à morte do meu pai e talvez eu tenha feito uma promessa, não sei. Lembro-me que comecei a escrever o livro pouco antes dele morrer e entrei para a faculdade pouco depois dele morrer. Coitado, andei 25 anos numa vida um bocado complicada…
Complicada em que aspecto?
Bom, nesse tempo… a vida foi uma aventura (risos). Viajei muito, estive nos Estados Unidos, um ano na Bélgica, trabalhei em barcos, em hotéis… Depois houve um período em que estive doente, que também me ajudou a reflectir. Posso dizer que tive uma vida cheia de aventura, mas um bocado perdida, no fundo.
Há a experiência e não se arrepende…
Não, nada. Há coisas que gostava de não ter feito. Mas penso que tive sorte, podia ter caído e não recomendo a ninguém. A experiência só por experiência não interessa. Tive sorte, não sei se foram as orações da minha mãe… Acho que tive um anjo da guarda que me protegeu muitas vezes. Tenho a perfeita consciência disso e tento dizer aos meus filhos que há coisas que não é necessário fazer.
Nota muita diferença entre a juventude actual e a da sua época?
A juventude hoje é mais consumista e tem muito menos tempo para perder. Eles perdem um ano e ficam arrasados. Nós tínhamos mais tempo.
COMO EDUCAR
Os seus filhos são muito críticos em relação ao seu trabalho?
São muito críticos e sobretudo muito motivadores também. As crianças hoje têm uma visão diferente. E depois de ver o primeiro episódio de ‘Baía das Mulheres’ já percebi em que parte é que algumas personagens vão pegar na juventude.
As expressões que eles usam também o ajudam no trabalho?
Claro. Tenho personagens com as idades dos meus filhos (11, 10 e quatro anos). Os miúdos hoje são muito imaginativos, criaram uma linguagem própria muito engraçada e estão mais informados, até porque vivem bombardeados por muita informação. Nesta telenovela tentamos abordar essa questão de ‘como educar’. A novela vai ser muito rica em situações que tentam mostrar um meio termo. Há pais que são cem por cento ausentes, e isso reflecte-se nos filhos, e outros que são demasiado permissivos, o meio termo é que é difícil.
Como se classifica como pai?
Não sou perfeito, mas tento o equilíbrio. Eu sou mais permissivo, a minha mulher é melhor educadora. Vou tentando incutir valores e acho que também é importante que haja amor…
PERFIL
Manuel Arouca nasceu em Moçambique e aos sete anos veio com a família para Portugal. Aos 49 anos, casado e pai de três filhos, é autor e argumentista. Leitor compulsivo, aprecia particularmente biografias e relatos e a obra de autores como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Ernest Hemingway, Jorge Amado e Erico Veríssimo. Escritor e argumentista, entre as suas obras destacam-se o romance ‘Filhos da Costa do Sol’ e as novelas ‘Filha do Mar’ (TVI, 2001), ‘A Senhora das Águas’ (RTP, 2001), ‘Jardins Proibidos’ (TVI, 2001/2002) e ‘Jóia de África’ (TVI, 2002/2003).

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