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Correio da Manhã

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“Tenho vergonha deste País que não respeita os actores seniores”

Faz televisão para sobreviver. Mas contesta a pressão e a forma de trabalhar, sem tempo para ser criativo ou perfeccionista. Aos 48 anos, o coração do actor bate cada mais forte pelo teatro.
11 de Novembro de 2011 às 00:00
O actor José Raposo
O actor José Raposo FOTO: Bruno Colaço

O seu novo projecto é Zé Larau (‘Remédio Santo’). Em que consiste este papel?

É uma personagem engraçada e vai ser o quarto marido da viúva Hortense (Sofia Alves). Após o casamento haverá uma disputa constante entre os dois para saber quem vai morrer primeiro.

Em ‘Espírito Indomável’ já fez uma personagem cómica. Regressa no mesmo registo. É coincidência?

Convidam-me para interpretar uma vertente humorista, mas não é por gostar mais. Já fiz todos os registos, nomeadamente drama. Se não o faço na TV faço-o no teatro, onde gosto muito de estar.

É aí que se sente melhor?

Sou actor acima de tudo! Mas com a idade apetece-me muito mais fazer teatro. É pena que o teatro não nos pague o suficiente para que possamos optar só por ele.

Tem alguma coisa contra a televisão?

Não, e sempre fiz televisão, que hoje é uma indústria. Uma máquina de fazer chouriços. Enquanto actor, não me sinto muito bem quando sou pressionado. Mas preciso de viver como as outras pessoas e tenho de aceitar. Na TV o actor tem de despachar serviço.

Não há espaço para o perfeccionismo?

Nem para o perfeccionismo nem para a criatividade.

Vai estar na novela até quando?

É uma participação especial porque vou entrar na próxima novela do Tozé Martinho. Para que isso se concretize não posso estar muito tempo em ‘Remédio Santo’.

É a primeira vez que contracena com a Sofia Alves?

É e está a ser muito gratificante porque há uma química engraçada entre nós. Algo que nem sempre existe entre actores.

Na novela cruza-se com Sara Barradas (Aurora)?

Cruzámo-nos apenas uma vez, mas nem sequer houve diálogo. A Sara está felicíssima porque contracena com a Manuela Maria, uma grande actriz. Fico muito feliz por ver que a actriz com quem me estreei há 30 anos teve esta oportunidade para fazer um excelente papel. Há grandes actores que não são convidados só porque são velhos.

A nossa TV não tem espaço para os seniores?

Não! Mas basta olhar para as produções de outros países para encontrar actores de todas as faixas etárias. É uma falha da nossa produção, que trabalha apenas com dois ou três seniores. Tenho vergonha de pertencer a este País que não respeita os actores seniores. Não há respeito pelo actor.

Não fala do público?

Não, refiro-me à sociedade em geral e aos preconceitos.

A idade é um dos preconceitos a que se refere?

As pessoas acham que os mais velhos não têm audiência. É um erro tremendo. A qualidade não se mede por este conceito de estética que agora se sobrepõe a tudo. Há muitos actores esquecidos, engavetados.

Falta humor na nossa TV?

Diria que faltam diferentes tipos de humor. Descobriu-se agora o registo do non-sense, do stand-up... Mas na nossa televisão falta o humor português.

Como se caracteriza esse humor?

Falo do humor do Raul Solnado, do Camilo de Oliveira e de outros mais antigos. Um humor simples, directo, do trocadilho, da anedota à portuguesa. Um humor que existia na revista à portuguesa. Hoje é preciso ir à RTP Memória para ver outros tipos de humor. Vou ao cinema ver comédias estrangeiras fabulosas, sem pretensões intelectuais, e com um humor simples. Mas em Portugal somos muito elitistas e os subsídios não incluem filmes com ‘humor fácil’...

A crise é um bom pretexto para fazer humor?

Mais do que nunca há muitos motivos para criticar a política e os políticos. O poder odeia o humor, porque é a forma mais violenta de o criticar. O humor é contrapoder.

O poder ainda censura?

Claro que sim. Há censura camuflada neste País. Recordemo-nos de alguns programas do Herman. E por que terminou o ‘Contra-Informação’, na RTP 1? O humor é contrapoder.

Ganha a vida a fazer humor. No dia-a-dia também é assim?

Não, sou muito mais reservado. É estranho, mas é verdade. Talvez exteriorizemos no plateau o que não fazemos na vida.

PERFIL

José Raposo nasceu em Angola há 48 anos. Começou a carreira no teatro infantil (1981). Fez teatro de revista no Maria Vitória, Variedades e ABC. Trabalhou também no Teatro Aberto e no D. Maria II. Em TV, além das novelas, entrou em séries como 'Ballet Rose', 'Médico de Família' e 'Conta-me como Foi'. No cinema, fez mais de dez filmes.

"SARA É BONITA E TALENTOSA"

"Eu e a Sara estamos muito felizes. Amamo-nos muito!", confidencia José Raposo (48 anos), que já partilha casa no Cartaxo com a actriz Sara Barradas (20 anos). Sem querer entrar em pormenores sobre a relação e a diferença de idades, Raposo analisa o desempenho da jovem actriz em 'Remédio Santo'.

"A Sara tem 20 anos, e dez de carreira ininterrupta em televisão, e tem muita bagagem. É uma belíssima actriz. Bonita, talentosa e muito trabalhadora. Sou um admirador incondicional da Sara", confessa o actor, cada vez mais apaixonado.

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