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Correio da Manhã

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TRISTE, ANGÚSTIADA E MORTIFICADA

Clara Pinto Correia, a escritora de 43 anos confessa a sua culpa no plágio do artigo ‘O Castelo’, mas diz que a partir daí já é “maledicência”.
7 de Fevereiro de 2003 às 00:00
Correio da Manhã – Como explica o plágio à crónica no “The New Yorker”?

Clara Pinto Correia – Assumo a responsabilidade do meu acto e sinto-me triste e angustiada com o que fiz. A única explicação a dar é que escrevi uma crónica demasiado grande, com 3500 caracteres, sobre a falta de complexidade moral e sentido de ideal da nossa classe política para colocar em contraste a personagem do Havel que saiu do Governo há pouco tempo e que é daquele género de pessoas que nos dão razão para ter esperança. Na necessidade de ter alguns detalhes cronológicos do Havel usei o artigo de Remnick. Na fase dos cortes acabei por retirar a parte escrita por mim. Quando voltei a olhar para o texto já o tinha enviado para a revista que, por seu turno, já o tinha colocado em edição. Não pude fazer nada. As minhas partes ficaram de fora e eu achei que noutra ocasião poderia voltar a usá-las...

– Costuma socorrer-se de artigos de outras pessoas?

– Se é algo que sinto dever partilhar com os leitores. Mas, por regra, uso sempre aspas ou cito a pessoa que o escreveu. Neste caso, como estava a pensar servir-me da informação para suporte ao texto, não o fiz. Escrevo crónicas há onze anos todas as semanas. Já escrevi para o ‘DN’, para o ‘Público’, para a ‘Visão’. E isto aconteceu uma vez por distracção. É óbvio que não é uma prática corrente em mim.

– Apercebe-se da gravidade da situação?

– Só me apercebi da gravidade quando a ‘Visão’ me contactou a dar conta da decisão de suspenderem as minhas crónicas.Vou voltar a Portugal daqui a dez dias. É em Portugal que trabalho e vivo e não estou a pensar tomar nenhuma atitude mais drástica em relação a este problema. Já pedi desculpas publicamente em vários órgãos de comunicação social e tenho a consciência tranquila em relação ao que aconteceu. Não foi com intenção nem tinha uma ideia deliberada de o fazer. Estou tranquila mas simultaneamente triste...

– Sabe que há outra acusação de plágio da crónica o “Eixo do Mal”?

– Esta segunda acusação já entra no domínio da maledicência e da má vontade pessoal. Admito que houve um problema grave na história do Havel porque quando fiz o corte o texto que lá ficou era basicamente o texto de origem. Mas mesmo isso, usar os textos de origem de outra pessoa é algo que faço quando são muito bons e quero partilhar com os leitores. Só que normalmente indico o autor e coloco aspas.

– Como vai resolver a situação?

– Estou a pensar falar nisto o menos possível. Estou mesmo mortificada e envergonhada com a situação. Se houver alguém determinado em fazer-me mal que vá ao ponto de contactar o jornal ou o colunista em questão para armar um enorme circo à volta de uma questão que já assumi e da qual me envergonho. Já me parece um cenário de ficção científica. Pessoalmente quero falar o menos possível. Mas talvez seja bom a gente saber onde estão os nossos inimigos.
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