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Correio da Manhã

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TROVAS DO TEMPO QUE PASSA

Eles já fizeram a televisão de Portugal, mas, vários anos depois, estão fora do ecrã. Uns por vontade própria, outros ainda hoje não sabem por que foram para a ‘prateleira’. São caras que os portugueses recordam. São nomes que os espectadores conhecem. São histórias de vida que a Correio TV recupera…
18 de Setembro de 2004 às 00:00
Os cabelos brancos já abundam, porque o tempo também passou por eles. A televisão deixou de fazer parte das suas vidas, mas os portugueses não os esquecem: eles são parte da história da caixa que mudou o mundo. Parte da nossa história comum. Mas, afinal, foram eles que se esqueceram da televisão, ou foi a ‘máquina trituradora’ que se esqueceu deles?
Os casos que apresentamos mais à frente – Artur Agostinho, Ribeiro Cristóvão, António Mega Ferreira, Luís Pereira de Sousa, Maria de Lourdes Modesto, Vera Roquete, Fialho Gouveia e Joaquim Letria – são apenas alguns. A este plantel de luxo (cada um na sua área…) podíamos juntar muitos mais, de Sousa Veloso a Vasco Granja, de Lauro António a Raul Solnado, de Raul Durão a Maria João Metello. E tantos outros…
Aos 84 anos, Artur Agostinho é ainda uma das referências maiores, um artista multifacetado, reconhecido por espectadores e profissionais do mesmo ofício. “Não houve ninguém que fosse melhor relator e comentador desportivo do que ele”, garante Joaquim Letria.
Afastado do desporto, da apresentação e do entretenimento, onde se destacou, Artur fez o seu reaparecimento na televisão através da ficção, participando em novelas e séries da TVI. E não se queixa. Porque não lhe falta trabalho. Mas quando questionado sobre o desaparecimento de figuras emblemáticas da nossa televisão, explica que “Portugal é um país original. Com gente e ideias originais”. E tanta originalidade “dispensa profissionais com experiência”.
O conhecido comentador desportivo deixa um alerta “a quem manda nas televisões e que deveria passar em revista o nome de alguns profissionais que há muito desapareceram e poderiam estabelecer um equilíbrio junto dos profissionais mais novos”. Mas estaria ainda Artur Agostinho na disposição de conduzir um programa desportivo? Responde que “dependeria do formato e da finalidade”. E avisa “ser incapaz “ de se enquadrar num espaço onde os participantes “defendem apenas interesses clubísticos”, sob a capa de “uma informação clara e verdadeira”. “Este tipo de programa tem toda a razão de existir, mas num determinado enquadramento”, afirma à Correio TV.
Em casa, a ultimar o lançamento do seu primeiro romance, Artur Agostinho é um consumidor da televisão por cabo e confessa “ver de tudo um pouco, mas pouco de tudo”. Ele não é, contudo, a única referência televisiva dos portugueses. Joaquim Letria, o apresentador de ‘Directíssimo’, em 1978, na RTP 1, e do ‘Tal e Qual’, em 1979, na RTP 2, é, para António Mega Ferreira, o caso mais inexplicável de marginalização: “Trata-se de um extraordinário profissional, uma figura carismática e um homem com enorme experiência, que está há anos sem fazer um programa de televisão”, afirma o escritor e antigo jornalista.
Aos 60 anos, Joaquim Letria explica que “haveria lugar para todos (jovens e menos jovens) se houvesse na televisão portuguesa uma preocupação de qualidade”.
O fenómeno que afastou gente qualificada da televisão é, para este profissional, mais vasto, “atinge os jornais e ainda é mais acentuado na rádio”. E avança com uma explicação: “Se, por um lado, os homens do marketing tomaram conta dos meios de informação, por outro, há gestores que pensam que, acima dos 35 anos, os profissionais já não têm ambição, nervo e disponibilidade familiar”, sublinha.
ERRO ESTRATÉGICO
Letria não tem dúvidas: “Este é um erro que vamos pagar caro, porque é um perfeito disparate pensar-se que os jovens só ligam às coisas feitas e escritas por jovens”. Até porque, “na idade em que muitos destes jovenzinhos estão a dar cartas, outros, em países como Espanha, Inglaterra, Brasil ou Estados Unidos, vão comprar sandes e coca-colas para o resto da redacção”. “Eu também fiz isso...”, recorda.
Ribeiro Cristóvão, Estrela Serrano, João Paulo Dinis, Rui Tovar e Artur Agostinho são nomes que Joaquim Letria lamenta não encontrar na televisão portuguesa, que vê, aliás, cada vez menos. “Recorro ao cabo e à parabólica, que me traz diariamente 600 canais.” E conta que, para não chegar a sentir saudades da televisão, participa em trabalhos de produção a convite de algumas equipas estrangeiras, e dá aulas de televisão numa universidade privada de Lisboa.
Sublinhando o talento da gente nova que tem surgido no ecrã, cita, por exemplo, o nome de Sílvia Alberto e de Ana Sousa Dias, e destaca a SIC Radical como sendo “um dos canais mais interessantes feitos em Portugal”.
LIMITES NA TV
Deputado e histórico director do departamento de Desporto da Rádio Renascença, Ribeiro Cristóvão esteve 15 anos ao serviço da televisão e “o que ali tinha de fazer está feito”, diz hoje.
“Não estava cansado da televisão” quando a abandonou no final da década de 90, mas fê-lo porque percebeu que o espaço para desenvolver algo que fosse objecto da sua criatividade “era cada vez mais limitado”. “E havia outros interesses que não passavam pelo desporto. Assim sendo, estava na altura de abrir caminho aos mais jovens, que não podem ficar eternamente à espera de que os mais velhos morram ou se reformem”, afirma à Correio TV.
Sobre o desaparecimento televisivo dos profissionais da sua geração, Ribeiro Cristóvão refere que “com a implantação das privadas houve uma revolução. Apareceu gente nova nas chefias e com outras ideias sobre o conceito de televisão. Algumas dessas pessoas nunca tinham feito televisão, como o Emídio Rangel. E assim se foi preterindo os mais antigos e lançando gente nova, alguma com muita qualidade, outra de qualidade duvidosa”.
Depois, apontando a realidade além-fronteiras, Ribeiro Cristóvão lembra exemplos internacionais, “onde se vê gente de cabelos brancos a apresentar alguns dos espaços mais importantes da programação, porque lhes transmitem grande credibilidade”.
O conhecido profissional, que hoje se limita a assessorar o departamento desportivo da Rádio Renascença, não se vê a regressar aos ecrãs, porque não tem “apetência pela televisão que está muito confusa. E no domínio desportivo, os atropelos são enormes”, afirma.
Considerando-se grande consumidor de televisão, o jornalista-deputado aponta um defeito aos seus conteúdos: “o sensacionalismo”. E adianta: “Entrou-se muito na guerra da concorrência e na disputa de audiências. Por sua vez, os ‘reality shows’ passaram a monopolizar grande espaço na televisão, mas a maior parte deles nada traz de novo ao telespectador português”.
SEM CONDIÇÕES
Chefe de redacção e pivô da RTP 2 entre 1978 e 1980, Mega Ferreira, escritor e ‘pai’ da Expo’98, sublinha que há uma grande diferença entre o jornalismo do seu tempo e o que hoje se pratica. “Não havia formação académica. Os jornalistas eram tarimbeiros, ou então licenciados noutras disciplinas que não em Comunicação Social.
Os filmes eram a preto-e-branco, e quase não se faziam directos na área da informação”. Como os estúdios também não tinham ar condicionado, Mega Ferreira recorda uma entrevista feita a Sá Carneiro: “Cinco minutos depois de termos começado a gravar tivemos de interromper, porque o nosso entrevistado tinha a camisa encharcada em suor”.
“As condições materiais daquele tempo não têm qualquer comparação com as de hoje”, recorda o escritor, que afirma ainda hoje ter “alma de jornalista” e se define como um “profissional do efémero”. Mega acredita que “a qualidade do jornalismo, a profundidade da investigação e a capacidade de acesso às fontes é muito superior” à que se vivia na sua época.“Há mais desenvoltura na abordagem dos temas. No meu tempo, não passava pela cabeça de um jornalista entrar na esfera privada de alguém”, recorda.
Mas nem tudo vai bem no universo televisivo e Mega Ferreira aponta o exemplo ao “ sensacionalismo informativo”, quase a raiar por vezes “o grotesco”.
A EXPERIÊNCIA ACUMULADA
Outro rosto há muito afastado dos ecrãs é o de Luís Pereira de Sousa, um dos mais populares apresentadores de entretenimento da televisão pública, nos tempos de monopólio da RTP. Hoje tem 60 anos e a sua actividade laboral é preenchida com locuções para a TV Cabo. Não tem dúvidas de que “muitos dos erros actuais da nossa televisão poderiam ser colmatados com a experiência dos mais velhos”. E, à semelhança de Mega Ferreira, reconhece que os recursos humanos e tecnológicos “são muito superiores aos de antigamente”.
Luís Pereira de Sousa afirma compreender a “apetência da televisão por caras novas” e elogia o “dinamismo e irreverência” do trabalho desta geração. Mas acrescenta que “na informação há muita competitividade, mas que não é real, porque as matérias são afloradas só até ao ponto conveniente”. “E vejo também muita coisa desinteressante e alguns concursos perfeitamente idiotas...”, critica.
O conhecido apresentador lamenta que os profissionais mais velhos tenham sido afastados e silenciados. E sublinha que o fenómeno de exclusão é ainda mais grave no universo radiofónico: “A quem pertencem as rádios locais que deveriam ser livres, independentes e críticas? A meia dúzia de merceeiros, onde os profissionais da rádio não têm lugar”.
ESQUECIDA PELA TV
Vera Roquete é hoje ainda presença assídua nas revistas sociais, mas, do ponto de vista televisivo, não é mais do que uma referência para a geração de espectadores que tem hoje 30 anos. Foram esses que cresceram a vê-la nas tardes da RTP a apresentar o ‘Agora Escolha’, em 1985 e 86.
Hoje, em declarações à Correio TV, afirma ter a idade que aparenta e torna claro que foi esquecida pela televisão. “Mas não fui a única a ser esquecida. Veja-se os casos do Joaquim Letria, do Raul Durão, da Margarida Mercês de Melo e do próprio Eládio Clímaco, que apesar de ter trabalho na RTP, merecia ser tratado com mais dignidade, porque é uma bandeira da estação. E por que se está a desaproveitar o talento e a experiência do Carlos Pinto Coelho?”, questiona.
Vera Roquete admite ver pouca televisão e acredita que era bem possível, e até desejável, “juntar a experiência ao sangue novo. Mas a televisão de hoje, preocupada com as audiências, é discriminatória, e mais ainda em relação às mulheres”. E interroga-se: “Por que não está Margarida Marante na televisão? E porque é que a Alice Cruz foi afastada tão cedo?”
Menos inconformado está Mário Zambujal, escritor, jornalista e cronista, que esclarece que se afastou da televisão quando chegou a altura de se aposentar. Fê-lo “sem nostalgia”, porque do que ele mais sentia saudades era dos jornais, do toque do papel, do bulício das tipografias...
Aos 68 anos, consumidor dos programas de desporto e de informação (ele que apresentou a ‘Grande Área’, nas noites de domingo na RTP), e “fanático por filmes”, Mário Zambujal lamenta que “se abdique cedo demais das pessoas que já têm alguns cabelos brancos, e que ganharam confiança, credibilidade e prestígio junto dos telespectadores”. “Espero que os profissionais que hoje têm 40 anos vejam a sua actividade prolongada e não sejam substituídos por nenhuma carinha laroca”, sublinha.
SABOROSAS RECORDAÇÕES
Outra pioneira na televisão foi Maria de Lourdes Modesto, que estreou, no final dos anos 50, na RTP, o primeiro programa de culinária. Reformada de uma multinacional, manteve-se no ar durante 12 anos. Sempre em directo. Primeiro semanalmente. Depois de 15 em 15 dias. “Em 1970 deixei a televisão. Por razões de saúde e de muito cansaço. A RTP ainda esperou dois anos por mim, mas não voltei”, explica Maria de Lourdes Modesto, que tem entre mãos mais um livro de culinária e continua a prestar colaboração ao Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva e à Associação Protectora dos Diabéticos Portugueses.
Maria de Lourdes Modesto, hoje com 74 anos, só voltaria à televisão num formato distinto: “Apenas colaboraria num programa de educação alimentar e com a participação de gente competente”. Autora de uma crónica semanal no ‘Diário de Notícias’, Maria de Lourdes Modesto acompanha algumas produções estrangeiras de culinária e recorda os directos, a interacção com os telespectadores e a crítica, e o perfeccionismo dos primeiros programas que fez em televisão: “Naquele tempo, toda a gente torcia para que o programa resultasse, desde o rapaz que segurava o cabo até ao realizador. Depois vieram os enlatados e ninguém ligava a nada. Claro que o dinheiro é bom, mas ele não é a minha principal motivação”.
‘QUEIMADOS’
AOS 50
Crítico do que considera ser a “marginalização de pessoas com mais de 50 anos”, António Mega Ferreira considera que Portugal “sofre um bocadinho do infantilismo próprio de quem saltou etapas muito rapidamente. Neste país queimam-se políticos aos 50 anos”, afirma Mega, de 55 anos, apresentando o exemplo do antigo Presidente da República António Ramalho Eanes. “No capítulo político, a excepção continua a ser Mário Soares”.
Do convívio com profissionais mais velhos, Mega Ferreira lembra a lição de jornalismo que recebeu de Fernando Pessa. “Entre outras coisas, aprendi com esse homem extraordinário que nunca se começa duas reportagens da mesma maneira”, recorda.
FIALHO GOUVEIA O PIONEIRO
“Nunca me considerei vedeta. Sempre quis ser um bom profissional.” Assim se define José Fialho Gouveia, locutor, autor e apresentador dos concursos ‘A Visita da Cornélia’, ‘Prata da Casa’, ‘Faz de Conta’, ‘Par ou Ímpar’, ‘Com Pés e Cabeça’ ou ‘Zip Zip’, o mais famoso de todos. Aos 22 anos, Fialho Gouveia trocou a licenciatura em Filologia Românica pela televisão e tornou-se um dos pioneiros em Portugal. Hoje é um dos símbolos da televisão em Portugal e, por essa razão, o País tem acompanhado consternado o drama vivido desde o dia 24 de Agosto, quando foi hospitalizado em Coimbra.
Da sua memória, lembra os meses de Maio a Setembro de 1969, durante a exibição do ‘Zip’ como os mais inesquecíveis da sua carreira. “Eu já estava na televisão há 12 anos, mas nunca tinha feito nada meu”, recorda. O sucesso deste concurso foi partilhado com Raul Solnado e Carlos Cruz. Fialho Gouveia foi também um dos mais emblemáticos locutores de rádio. No antigo Rádio Clube Português, de novo ao lado de Carlos Cruz (um amigo que não abandonou nunca, nem nos mais recentes e delicados momentos vividos por Cruz), deu voz ao famoso ‘PBX’.
Mais tarde, viria a ser um dos rostos da informação do 25 de Abril de 1974, quando, ao lado de Fernando Balsinha, apresentou o primeiro ‘Telejornal’ no dia da revolução dos cravos. Sem casaco nem gravata, uma informalidade inusitada em televisão, leu os comunicados do Movimento das Forças Armadas e apresentou aos telespectadores todos os elementos da Junta de Salvação Nacional.
Casado e pai de três filhos, Fialho Gouveia é referenciado no meio televisivo pela sua dedicação, talento e versatilidade. Artur Agostinho, por exemplo, elogia o “profissional versátil e cumpridor que teve sempre a preocupação de manter-se actualizado”.
Por seu turno, Ribeiro Cristóvão refere-se ao popular apresentador como “um amigo muito admirado pelas suas qualidades profissionais e humanas”. Foi nas bancadas do velhinho (e já demolido…) Estádio da Luz que António Mega Ferreira mais se aproximou e conviveu com Fialho Gouveia. “É um excelente profissional e um extraordinário benfiquista. Tenho por ele, que é uma figura marcante na televisão, uma enorme ternura, sentimento que ele também sempre me retribuiu.”
OS ‘KENS’ E AS ‘BARBIES’
Na televisão, Mário Crespo e Henrique Garcia são os raros e mais conhecidos exemplos de profissionais, acima dos 50 anos, que se mantêm presentes no ecrã a fazer trabalho jornalístico. O jornalista da SIC Notícias, de 58 anos, explica o fenómeno dizendo que “o mercado foi selvático em determinado período da história ao optar por uma série de ‘Kens’ e ‘Barbies’ a apresentar telejornais em detrimento de pessoas com experiência.
A anormalidade é ser apenas eu o único indivíduo acima dos 55 anos ainda a fazer trabalho jornalístico de televisão. Não considero isto mérito da minha parte, mas sim um dos sintomas da patologia do mercado”. Na opinião de Henrique Garcia, de 56 anos, a opção pelos rostos jovens no ecrã prende-se com “uma moda que atingiu a televisão de todo o Mundo”, e que “ao contrário de outros países, se arrasta ainda em Portugal.
E, depois, “os mais velhos, gente com experiência e notoriedade, começaram a ser solicitados para outro tipo de tarefas da actividade jornalística e para outras funções de chefia, tarefas com mais responsabilidade. Por isso abandonaram a apresentação”. É o caso de Joaquim Furtado, na RTP, ou de José Eduardo Moniz, na TVI, recorda Henrique Garcia, que desde segunda-feira apresenta o novo ‘Jornal da Uma’, na TVI.
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