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Correio da Manhã

Tv Media
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Um passo em frente na ficção

‘Cidade Despida’ ainda não é o policial que faz a ruptura na ficção TV portuguesa, mas é um produto sério e estimulante. E mostra que há vida para lá das telenovelas que continuam hegemónicas na produção nacional.
30 de Abril de 2010 às 00:00
Concurso sem nada de novo
Concurso sem nada de novo

Quando se coloca uma mulher num mundo masculino como foi, em tempos, o policial, sabe-se o resultado: muita resistência antes dela, pelas suas qualidades, conquistar os que a cercam. O conceito não é novo em séries policiais: foi utilizado inteligentemente na fabulosa série ‘Prime Suspect’ com Helen Mirren e, mais recentemente, em ‘The Closer’ com Kyra Sedgwick. Esse conceito é também utilizado em ‘Cidade Despida’, onde a inspectora (bem interpretada por Catarina Furtado, que mostra que as suas virtualidades não devem ficar presas às teias da apresentação) cai num campo minado por homens.

A ideia, não sendo original, é boa e, por isso, não causa transtorno que ela sirva de elemento secundário de tensão na série. As reticências a este elemento estranho ao sistema masculino conferem, de resto, um interesse acrescido a uma série que, no primeiro episódio, teve como intriga os homicídios cometidos por um ‘serial killer’. O argumento (mesmo com alguns pontos com pouca consistência, como foi ter imagens do suspeito a sair dum carro, e se pedir para passá-las na televisão em vez de aumentá-las para ver a matrícula) tinha lógica e foi servido por uma realização segura e com meios um pouco superiores ao que costuma ser visível nas séries policiais portuguesas.

Há personagens bem interessantes (o detective interpretado por António Cordeiro tem tiques definidores bem agarrados por um actor que é um dos que melhor faz de polícia em Portugal) e outros menos (o pianista namorado, ou marido, da inspectora é ainda mal desenhado, e o momento de tocar piano pareceu nunca mais acabar, o que é mau num policial). Não é uma série de ruptura com os modelos estabelecidos entre nós. Mas, no conjunto, é um pequeno passo em frente na ficção televisiva nacional, que precisa de se libertar das margens das telenovelas. ‘Cidade Despida’ é, assim, um estimulante produto televisivo nacional que se espera cresça mais nos próximos episódios. E é um pequeno corte com as vistas estreitas dos programadores nacionais.

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