De volta a Portugal Gilberto Gil recorda a filha: "A Preta faz-nos muita falta e deixa-nos muita saudade"

Aos 84 anos, músico brasileiro fala do espetáculo que traz até nós [dia 10 de outubro no Coliseu dos Recreios], recorda a estreia no nosso país em 1969, fala de envelhecimento e lembra a filha que morreu no ano passado.

29 de agosto de 2026 às 16:20
Gilberto Gil
Gilberto Gil traz o espetáculo 'Amor Azul' a Portugal Foto: Direitos Reservados
Gilberto Gil Foto: Sarah Hawk
Preta Gil Foto: Getty Images

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Já é sabido que o espetáculo que traz a Portugal em Outubro, 'Amor Azul' é bem diferente daquele que apresentou em julho no Cooljazz. De que tipo de espetáculo estamos a falar?

Trata-se de um conjunto de música, de canções e de elementos musicais ligados a um poema de Jayadeva ('Gita Govinda'), um grande poeta milenar da cultura indiana. Esse poema é transformado num libreto e num conjunto de canções que formam uma ópera contemporânea feita em interação com a música popular do Brasil. É um trabalho feito em conjunto, entre mim e o maestro italiano Aldo Brizzi que já tem um longo currículo nesta área. É também uma pessoa muito interessada na canção popular brasileira e na música moderna. A versão concerto desta ópera é o que estamos a fazer atualmente. Este espetáculo já foi apresentado no Brasil e em França e vamos apresentar agora em Portugal. Em palco temos uma grande orquestra, um coro e vários artistas solistas a interpretar as variadas áreas. 

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Sempre que se anuncia o regresso do Gilberto Gil a Portugal, gera-se uma espécie de histeria à sua volta, uma quase onda de culto. Consegue explicar esta relação e este amor que Portugal tem pelo Gilberto Gil?

Eu acho que tem a ver com o facto de Portugal, até por razões históricas, ser sempre muito acolhedor, o seu povo e as suas instituições culturais. Portugal sempre esteve muito próximo da vida cultural brasileira e nos últimos 30 ou 40 anos, os artistas brasileiros têm sido muito acolhidos em Portugal. Eu sou parte desse mundo, de uma geração que tem sido entusiasticamente acolhida por causa da língua comum que falamos e dos traços culturais que partilhamos. A música portuguesa, em todas as suas variações, também tem tido uma influência muito grande na formação da música brasileira e tudo isso nos aproxima. O público português é como uma extensão do público brasileiro. 

Ainda se recorda da primeira vez que atuou em Portugal?

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Se não me engano, a primeira vez que cantei em Portugal foi em 1969 quando fui convidado a fazer uma apresentação num teatro de Lisboa. Fiz paragem em Portugal a caminho de Angola onde ia representar o Brasil num festival de música popular. Depois voltei em 1971/72 quando estava no exílio em Londres. Visitei Portugal muitas vezes e de lá para cá fui visitando Portugal regularmente, a ponto de já ter perdido a conta. Foram vários espetáculos em momentos muito diferentes.

E o que conhece e o que gosta mais de Portugal?

Destaco o relacionamento natural com a versão mais profunda da música popular portuguesa, de que Amália Rodrigues é o nome mais representativo. Ela foi a grande responsável pela expansão da música popular pelo mundo. Mas há muitos outros nomes, mais da minha geração e até de gerações mais recentes que têm uma forte presença entre o público brasileiro. O fado especialmente é um modo expressivo muito querido no Brasil, mas também a música ligeira que sempre nos interessou. Portugal é a pátria mãe da nossa cultura. 

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As notícias que nos chegam do Brasil sobre o Gilberto Gil dizem que está a despedir-se dos palcos. Quer explicar?

Eu estou a despedir-me das grandes digressões, mas não dos concertos. Houve uma altura em que se confundiu um projeto que tive, 'Tempo Rei', que fiz no Brasil durante um ano para públicos com 40, 50 ou 60 mil pessoas em estádios, com um encerramento de carreira. Mas isso não é verdade. Na verdade o que aconteceu com esse projeto foi a minha despedida dos grandes espetáculos. O que eu quero, no futuro, é continuar a ter uma relação mais modesta e tranquila com os músicos aqui no Brasil.

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E consultou a sua família para tomar essa decisão?

Não. Essa decisão foi tomada por mim mesmo em função do meu próprio envelhecimento. Sou um homem com 84 anos de idade e com uma redução significativa das energias e do próprio entusiasmo em relação ao trabalho. Foi uma decisão que tive de tomar por conta das condições da própria vida. 

Chegou a comunicar esta sua decisão à sua filha Preta [morreu a 20 de julho de 2025, vítima de cancro]? E qual foi a opinião dela?

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Ela partilhava da minha opinião. Entendia que o seu pai era um homem idoso que precisava de manter uma vida artística mais tranquila. Ela compreendia bem a minha decisão.

Como é que tem sido este último ano sem a Preta?

Foi um ano de muita saudade. É palavra na nossa língua que melhor expressa o nosso relacionamento com as ausências, perdas e desaparecimentos daquilo que nos importa e que mais prezamos. Preta era uma dessas pessoas prezadíssimas por nós. Tinha-se tornado numa grande artista, numa grande intérprete e numa grande comunicadora da canção popular do Brasil. Faz-nos muita falta e deixa-nos muita saudade. 

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E a vida dela já deu mesmo origem a um documentário!

Sim. Acaba de ser lançado no Brasil. Eu também participo nele com várias entrevistas e declarações não só como pai, mas também sobre a sua vida artística. Eu fui um dos muitos que manifestou essa verdadeira saudade que sentimos dela.  

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