Matilda, neta de Carlos do Carmo, faz a sua estreia em disco: "Precisava da música para me salvar"

Cantora de 31 anos acaba de lançar o disco 'De Corpo Inteiro'. O pretexto para falar de música e lembrar o avô, um dos maiores nomes da história do fado.

07 de junho de 2026 às 15:58
Matilda
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Matiilda
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Este Matilda é o nome artístico ou é mesmo o seu nome de batismo?

Eu sou Matilde. Adotei o nome de Matilda porque apaixonei-me pela personagem do filme 'Matilda' [sobre uma menina prodígio com poderes telecinéticos]. Eu queria muito ser como ela. 

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Como é que pode apresentar este primeiro disco, 'De Corpo Inteiro'?

Este disco vem de um lugar muito profundo. Fala com uma honestidade emocional enorme sobre aquilo que eu sou e aquilo que eu passei. Tentei pôr a minha verdade na minha música e demorei até perceber que era isso que me faltava para conseguir construir este disco. É um álbum que fala de vulnerabilidade, de feminilidade, de amor e desamor, de memória, de saudade. Acho que este álbum passa às pessoas a mensagem de que nós não temos que caber nos outros. Temos que ser nós próprios. E eu estou a fazer esse trabalho.

No 'press' que chegou à imprensa diz que durante muito tempo andou a ser aquilo que os outros queriam que fosse. Fala mesmo em ter ando perdida. O que é que quer dizer com isto?

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Eu sou uma pessoa que desde miúda me preocupo muito com o que os outros pensam de mim. Quero sempre ser a melhor versão possível para os outros porque eu já perdi quatro pessoas muito importantes na minha vida. Perdi dois melhores amigos quando era muito nova, um deles aos 13 anos. Por isso queria ter sempre a certeza que ocupava o melhor papel na vida dos outros, mas no meio disso eu perdi-me um bocadinho. Deixei de saber o que sentia, deixei de saber quem eu era. Acho que ainda estou nesse processo de descoberta. E acho que este disco ajudou-me muito a construir a minha força, o meu caminho e a minha verdade. 

E sobre o que sentiu vontade de falar neste disco?

Este disco fala de histórias de amor, não só de um amor romântico, mas também do amor de alguém que perdemos, do amor ao próximo ou do amor próprio. Tenho músicas inspiradas no meu parceiro, mas também músicas sobre desamores. Quis encontrar histórias e juntar pedaços meus que se tornassem histórias universais para toda a gente.

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Nasceu e cresceu num meio cheio de música [é bisneta de Lucília do Carmo, neta de Carlos do Carmo e sobrinha de Gil do Carmo]. Quando é que percebeu que a música era uma inevitabilidade?

Eu sempre soube que a música ia acontecer na minha vida. Claro que tenho uma sorte enorme de ter crescido rodeada de artistas e portanto se calhar por isso mesmo sempre tive muito respeito pela arte no geral. Eu só acho que estive à espera da maturidade e de ter a certeza de que estava pronta para cantar as minhas verdades e a minha música. 

Mas houve uma altura em que sente que se deu o clique?

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Acho que houve uma fase em que eu já tinha passado por tanta coisa que precisava da música para me salvar. E acho que foi aí que eu percebi que tinha que agarrar isto. Isso aconteceu há dois ou três anos. Foi quando eu percebi que quero mesmo isto. Por isso, este álbum é muito sobre transformação.

Bisneta e neta de fadista, o fado nunca foi uma hipótese para si?

Não. Respeito demasiado o fado e sei que tenho uma herança enorme mas prefiro fazer o meu caminho, fazer aquilo com que eu me identifico mais. O fado até agora ainda não me chamou (risos).

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E ninguém a chamou para cantar fado?

Já me chamaram. Em miúda já cantei fado mas não é por ai que quero ir. Quero mostrar às pessoas quem é que eu sou e não quem é que eu sou por causa de... 

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Por ter crescido neste meio como é que foi a sua infância?

Foi ótima! cresci rodeada de artistas, cresci com uma família que eu adoro, que me deu muitas bases, que me deu muita cultura geral, que me ensinou muito sobre poesia, sobre pintura, sobre música. Fui uma miúda muito feliz. Fui uma sortuda.

O que se recorda com mais saudade do seu avô?

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É das coisas que se tem saudades dos avós (risos). É dos miminhos e das conversas, de ligar a poder contar como é que foi o meu dia. 

Dizia que chegou a cantar fado em miúda. Quando é que isso aconteceu?

Tinha 12 ou 13 anos. Era uma miúda cheia de vontade de ir para os palcos e nós fomos num cruzeiro. Era o cruzeiro do fado. Eu então pedi ao meu avô para cantar com ele uma música da Marisa, a 'Rosa Branca'. Foi a minha primeira experiência. Tive umas senhoras que até vieram pedir-me autógrafos. 

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E depois disso andou a cantar em bares com a sua irmã!

Tinha 14 anos e ainda nem sequer tinha idade para entrar em discotecas (risos). Tocávamos em todo o lado. Cantávamos 'covers' de música portuguesa e inglesa. Foi muito bom para me dar experiência. Depois entrei para a faculdade com 18 anos. Ainda fui para os EUA e cheguei a querer ficar por lá para ser cantora. Mas depois fui um bocadinho mais consciente, tomei a decisão de continuar a estudar e de acabar o meu curso e fui experimentar o jornalismo. Estive na CNN e SIC Noticias. Gostei muito de ser repórter, mas acho que a arte é para mim mais fácil de comunicar. 

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É verdade que o Paulo Gonzo teve um papel importante neste início de carreira?

Sim. O meu avô tinha falado com ele antes de morrer a disse-lhe para se manter atento a mim porque ele não queria que eu desistisse da música. Pediu-lhe para me levar a estúdio para me ouvir. Um dia o Paulo Gonzo ligou-me a perguntar-me se eu não queria ir lá fazer uma brincadeira. Quando cheguei, deu-me uma música para cantar e aquilo foi um momento muito emocionante.

Quando a sua história começar a chegar às pessoas, se calhar muita gente vai pensar: “Ela é neta do Carlos do Carmo e não canta fado?”. Acha que pode existir essa expectativa na cabeça das pessoas?

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Isso é algo que eu nunca poderei controlar. Provavelmente é algo que vai acontecer mas não é uma coisa que me preocupa porque eu estou claramente num universo diferente. Mais cedo ou mais tarde as pessoas vão acabar por perceber que o que eu estou a fazer não é por ser neta dele.

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