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Eu conto como foi: Ary dos Santos

Um poeta castrado não!

24 de janeiro de 2010 às 09:31

A sua genialidade ultrapassou toda a forma de dizer, de cantar as palavras. Foi o poeta grandioso que partiu há 25 anos...

José Carlos Ary dos Santos. Assumiu-se sempre como 'nascido na alta burguesia'. De vasta cultura, era um perfeccionista em tudo que sabia fazer. Ele driblava as palavras. Como que as reinventava. Do corpo de linho trazia Agosto. Da menina do alto da serra com cheiro a feno pela manhã. Do cavalo à solta com poema e gomos de saudade.

E na tourada daquele tempo como no tempo que hoje passa. Que toureamos ombro a ombro as feras. E não se pegou no mundo, depois de tanto tempo, pelos cornos da desgraça. Foi cantado maravilhosamente por Simone, Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo e Amália.

Com 16 anos de idade publica poemas e é aclamado como a revelação. E sai de casa como todos os inconformados. Faz de tudo. Vendedor de pastilhas elásticas. Até publicitário, onde cria os melhores anúncios da época. O seu livro ‘A Liturgia do Sangue’ é uma pedrada no charco.

É em 1969 que se torna membro do PCP, e os seus poemas galvanizantes fazem a ditadura temer a sua voz. Quando participa no Festival da Canção RTP vence em absoluto com ‘Desfolhada’ (um dos seus mais belos poemas) que Simone cantou/arrebatou.

E foi Tonicha com ‘Menina’, uma outra jóia da canção portuguesa. Ainda Fernando Tordo tem a vitória com ‘Tourada’, numa crítica social tremenda. É Nuno Nazareth Fernandes o compositor que ao lado de Ary cria as canções de sucesso.

Escreveu centenas de poemas. Publicou livros. Gravou discos onde declamava com paixão as suas palavras. Aos 47 anos de idade (18 Janeiro 1984), o poeta de ‘As portas que Abril abriu’ continua vivo.

ARY E A SUA REVOLTA COM O PAÍS

Ary (conheci-o bem) não era uma pessoa fácil. Difícil até no trato. Mas um coração do tamanho do mundo quando era preciso. E como era vaidoso. Fazia gala disso. As palavras dos seus poemas podem dizer tudo. Da sua forte personalidade. Dos seus erros e das suas grandes virtudes. Da revolta que sentia porque não compreendia o seu país tantas e tantas vezes. Ary dos Santos era um lutador. n

INESQUECÍVEL EM TUDO

Estive várias vezes em sua casa na rua da Saudade. Ouvi-o muitas vezes ralhar. Tentar ajudar. E perceber naquele grande homem uma solidão tremenda. As recordações de sua querida mãe, de seu irmão, que se suicidou aos 21 anos de idade. Uma outra dor. Teve amigos. Grandes nomes da cultura. Como era de Amália. Idolatrava-a. Fez teatro no seu tempo de juventude. No teatro de revista, assinou peças inesquecíveis. E o que foi que ele não fez?

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