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Eu conto como foi: Henrique Viana

O Calinas Bairrista

31 de janeiro de 2010 às 09:52

Nasceu em Lisboa em 1936. Era um homem de bairro popular. Acérrimo. Batendo-se por causas nobres desde muito novo. No segredo dos deuses ele criava os seus bons momentos. Até no teatro. Quando estreia na famosa Guilherme Cossoul a peça ‘Amanhã há Récita’, de Varela Silva.

Outros espectáculos por ali, até que D. Amélia Rey Colaço o convida para o Nacional D. Maria II. Faz o conservatório. Com Palmira Bastos a grande, ele intervém na ‘Visita da Velha Senhora’.

Depois é o empresário Vasco Morgado pai que o chama para várias comédias. O teatro de revista faz de Henrique o autêntico ‘calinas de Lisboa’, quando com Ary dos Santos e no Adoque escrevem ‘Ó Calinas Cala a Boca’.

No Variedades ‘7 Colinas’ é um tremendo êxito escrito por César de Oliveira, Rogério Bracinha e Paulo Fonseca.

Com Raul Solnado no Villaret ganha notoriedade com ‘Ovison Voador’ na estreia de Io Apolloni. Trabalha com Sérgio de Azevedo mo ABC. É já um actor do povo.

No cinema os realizadores Pedro Martins, Henrique Campos, João Botelho, Fonseca e Costa e Leonel Vieira entre outros guindaram-no ao estatuto de estrela da 7ª arte pelo perfeccionismo como desempenhava os personagens.

Na televisão Henrique foi grandioso. Entre novelas, séries, documentais e outros momentos, soube sempre passar o seu ar de galã marialva.

Acompanhei-o dezenas de vezes nas viagens até a RTP Porto, onde tínhamos rubricas semanais.

Ouvi-lo era saber dos actores, autores e do teatro e de todo um tempo que eu não sabia. Nunca se queixou de nada. Nem nunca me falou que estava doente.

Graça Braz, a sua companheira dos bons e maus momentos, recorda-o com carinho. "O Henrique sempre dizia que só ia morrer aos 90!" Aquele espírito jovem, alegre, e como adorava viver. E é ela que no final descobre "o homem maravilhoso que foi. O ser humano sensível, tremendamente bairrista".

Até o Baptista-Bastos dizia "Ó pá, não podes ficar agarrado aos limites bairristas, tens de saltar essa barreira, para teres uma visão mais global do mundo e das coisas".

O escritor que foi sempre um grande amigo, confessou-me. 

ESCONDEU SEMPRE QUE ESTAVA DOENTE

Nos últimos meses de vida, Henrique Viana cantava, dizia poesias e chamava a sua Graça da "dramaturga" quando lia os seus poemas.

Escondeu sempre que estava doente. Viveu a dor, o sofrimento atroz estoicamente. "Foi uma outra grande representação que só os geniais conseguem."

Morreu no dia 4 de Julho de 2007. E disse dias antes: "Não tenho medo da morte. Tenho pena é de morrer."

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