Envolvida em mil e um projetos, a apresentadora de televisão garante que não abdicava da "liberdade" profissional que tem atualmente por nada deste Mundo. ‘Entre o Medo de te Amar e a Dor de te Perder’ é o título do seu mais recente livro, uma história de um amor distante dos padrões convencionados pela sociedade.
Esta história surgiu pela consciência de que este ainda é um tema, ou seja, que ainda não é olhado e falado com a naturalidade. Quando se fala da relação entre um homem e uma mulher mais nova pode haver ainda comentários preconceituosos - que há – mas a sociedade aceita. Há um certo machismo na forma como se olha para estas relações: um homem que consegue conquistar uma mulher mais nova é porque é, enfim, um macho do mais alto nível! Se for uma mulher com um homem mais novo… das duas uma: ou está num crise de meia idade, ou deve ser um bocadinho ‘doida’ - porque se fosse realmente uma mulher com todas os seus predicados no sítio certo não iria envolver-se com uma pessoa mais nova - ou ele só está com ela por dinheiro. É só machismo, preconceito, não é mais nada. Tenho essa perceção, talvez porque me cruzo com muitas histórias e com muitas vidas.
Existem ideias muito poucos saudáveis à volta do que é juventude. As pessoas são olhadas a partir da idade que têm inscrita no seu cartão de cidadão. Se tens 40 ou 50 anos já tens o teu prazo validade caducado para muita coisa. As pessoas são vistas de uma forma muito rígida, quadrada, pouco saudável e muito pouco humana. Mas acima de tudo é machismo, porque se for uma escolha do homem está tudo bem, se for da mulher é que não.
Primeiro: quando acontecem mudanças na minha vida, eu não dou aos outros o direito de opinar sobre ela. Peço desculpa mas eu sou uma pessoa muito assertiva. E adulta. Se eu fosse uma criança, aí sim os meus pais tinham que me orientar, tinham que me dizer o que é que era melhor para mim, etc. Sendo eu uma mulher de 57 anos, não! Peço desculpa, mas quem decide sou eu. Bem ou mal, quem escolhe sou eu, portanto, como diz o povo, “a cama que fizeres é nela que te deitarás”. E é uma máxima que eu tenho para a vida. Mas eu sou assim porque os meus pais me educaram a ser assim. Portanto, quando lhes transmito uma mudança na minha vida estruturante - seja o fim de uma relação, uma mudança profissional grande como a saída de uma estação - os meus pais não dão opinião.
Os meus pais fazem sempre a mesma pergunta: se eu estou bem e se estou tranquila com a minha decisão. Se estou tranquila com a minha decisão. E oiço deles sempre a mesma coisa: “o que precisares, nós estamos aqui. Independentemente do que tenhas escolhido, nós estamos sempre ao teu lado, somos teus pais”.
Eu procuro passar os mesmos ensinamentos aos meus filhos. Os meus filhos não têm que dizer o que é que a mãe tem que fazer, porque senão estamos a inverter as hierarquias. A mãe sou eu, os filhos são eles. Nem é suposto darem a opinião. A vida do pai é a vida do pai. E a vida da mãe é dela. Os filhos não têm que se manifestar relativamente a isso. Aceitam ou não aceitam, mas não é uma escolha deles. Não existe o “concordam ou não concordam”. Eu continuo a respeitar os vida deles, eles respeitam a minha, e continuo a ser a mãe, como sempre fui com muita transparência e verdade. Até com os amigos mais íntimos. Tem de haver honestidade. Informo as pessoas importantes da minha vida, não peço a opinião e, quando assim é, toda a gente te respeita. Eu consegui divorciar-me duas vezes, e manter amizade com pessoas que eram próximas dos dois. É preciso saber gerir isso também. É uma questão de bom senso.
Não. Eu já me casei duas vezes. Não preciso do papel para nada, não altera nada. Para quê, sinceramente? Não está nos meus planos.
São poucas as mulheres que se estão nas tintas para o que os outros pensam. Nas últimas décadas, houve uma grande evolução no que toca à igualdade de género, mas estamos longe de ser efetivamente uma sociedade igualitária. Nada disso.
Já tive a felicidade – digamos assim – de me ir cruzando com pessoas que passaram por isto. Não sou pessoa de fazer perguntas, ou pelos menos não faço perguntas intrusivas ou que ultrapassem a privacidade ou a intimidade das pessoas. Sou simplesmente muito observadora. Tenho um radar que, mesmo numa conversa mais banal, apanha muitas coisas à volta e fui fazendo uso desses elementos. Emocionei-me muito, sobretudo quando acabei de escrever a história, porque eu fico com saudades das minhas personagens. Da ‘Patrícia’, uma mulher guerreira, e do Daniel, que é um homem maravilhoso e encantador.
Trabalho de uma forma muito próxima com a minha editora, a Sofia Monteiro, e se tenho dúvidas, mando-lhe e peço-lhe que me diga de sua justiça. Só ela tem acesso ao que eu escrevo. De resto, não mando a mais ninguém. Nem pai, nem mãe, nem filhos, nem companheiro, ninguém lê o que eu escrevo. Mas é preciso ter muita confiança no editor, tens de ter a certeza que aquela pessoa te conhece, porque se não vai sugerir uma coisa que não tem a ver com aquilo que tu definiste com o propósito daquele livro e, de repente, estás a tentar satisfazer a vontade do outro. Nós temos essa confiança. Dos meus 12 livros, a Sofia só não publicou um.
Nunca recebi mas vou confessar que é um dos meus grandes sonhos. Gostava muito de um dos meus livros chegasse à tela. Sou uma pessoa muito sonhadora, esperançosa e que não desiste facilmente. Se me dizes não, eu digo: “Ok, mas então na próxima vamos ver”. E se voltar a ouvir não, volto a dizer o mesmo. Sou bastante obstinada e dificilmente desisto. Acho que deve ser muito giro e, além disso, eu estou cá para aprender. Garanto que me sentava ao lado da pessoa que estivesse a fazer a adaptação – porque é sempre preciso fazer alterações – para aprender. E acho que ia chorar imenso na estreia! Penso nisso sempre que sai um livro meu.
Não tenho vergonha nenhuma. Sim, os outros podem pensar: “se ela não consegue é porque não tem qualidade suficiente ou porque não é suficientemente cativante”. Mas eu não penso em nada disso, penso apenas que era algo que eu gostava que acontecesse. Se tiver de fazer parte do meu caminho, vai fazer. Se não tiver, também não fico a chorar. Só chorarei de felicidade se acontecer.
Ando sempre envolvida em muitas coisas, porque sinceramente gosto muito desta vida de liberdade e diversidade que escolhi nos últimos anos. Mantenho a televisão, com a SIC, porque continuo a gostar fazer reportagens sobre a nossa portugalidade; continuo com o canal ‘Casa e Cozinha’.Vamos fazer agora mais duas temporadas do ‘Aqui Há Saber’ onde irei a casa de 20 figuras públicas para cozinhar e entrevistá-las. Tenho os livros e continuo a fazer um trabalho muito próximo, com muitas empresas. Dois terços do meu trabalho hoje em dia é trabalhar nos bastidores a comunicação das empresas num determinado evento. Não tem visibilidade pública mas é muito desafiante e eu adoro, porque, no fundo sou mais um elemento daquela equipa, a pensar, soluções, caminhos, etc. E a implementá-los. Adoro fazer isto. Quando saí dos diários de televisão e comecei à procura de um novo caminho, em plena pandemia, comecei a montar a minha primeira palestra, com uma empresa multinacional que queria uma comunicação humanizada, e ainda hoje trabalho com eles. Descobri que sou superfeliz a fazer isso. Também porque sou uma ‘formiguinha’ e faço tudo para estar à altura da confiança que depositaram em mim. Mas eu adoro trabalhar. Não é sacrifício nenhum. Já não abdicava é da liberdade que tenho agora por nada.
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