Filipa Lemos e a "culpa" no suicídio do irmão
Cantora recorda o irmão e admite que se tivesse em Portugal na altura da sua morte talvez se tivesse apercebido de que algo estava para acontecer.
Mais de três anos depois da morte de Tony Lemos, fundador dos Santamaria, Filipa Lemos, a irmã do músico e cantora do grupo, continua sem conseguir fazer o luto. A vida presseguiu, a nível pessoal e profissional, mas a ausência de Tony Lemos continua a fazer-se notar. "Às vezes dou por mim a virar-me de costas para o público como fazia muitas vezes em direção ao meu irmão. E quando de repente caio em mim é que me apercebo que ele já não está lá. Tem-me custado muito, até porque era com ele que eu discutia os assuntos e a orientação da banda. Ele era o meu braço direito", diz a cantora de 44 anos. No próximo dia 6 de Abril, os Santamaria assinalam 25 anos de carreira com um espetáculo especial no Coliseu de Lisboa, e nele Tony Lemos será obviamente lembrado. "É um espetáculo que, sendo comemorativo, terá também uma parte alusiva e dedicada ao meu irmão. Acho que ele estaria muito feliz por perceber que a banda conseguiu chegar ao quarto de século", revela Filipa. Se é verdade que a morte de Tony Lemos, que se suicidou em 2020, apanhou de surpresa o mundo da música, o drama do seu desaparecimento ainda hoje toma de assalto a cantora. "Eu estaria a mentir se dissesse que já consegui fazer o luto do meu irmão. Não o fiz porque ainda não consegui ter capacidade de encaixe para aquilo que aconteceu. Desde os cinco anos que fazia a minha vida pessoal e profissional com ele. O mundo da música foi-me apresentado pelo meu irmão. Ele era o meu melhor amigo" confessa Filipa que hoje admite algum sentimento de culpa por na altura da morte de Tony estar a viver no México. "Eu não sei se o desfecho não teria sido o mesmo, até porque eu não vivia com ele, mas se estivesse por perto talvez me tivesse apercebido de algumas coisas. Por isso sinto alguma culpa com tudo o que aconteceu". Explicar o que se passou ainda hoje é uma tarefa difícil, mas a verdade é que havia alguns indícios. "O meu irmão passou por fases muito complicadas. Os momentos depressivos dele começaram com a separação da mãe dos filhos mais velhos, em 2017. Ele nunca se divorciou dela e teve ali um choque" diz. "O meu irmão era uma pessoa que estava habituada a que os alicerces dele não abanassem e que lidava muito mal com as adversidades. Quando levou aquele choque foi muito abaixo. Acho que nunca vi um homem sofrer e chorar tanto como ele. Depois passou por fases em que não queria ir para o palco e que eu tinha que o obrigar. Eu arrastava-o um bocado. Por causa de eu ter estado ausente e depois de se ter metido o covid pelo meio, sem que as pessoas pudessem viajar como queriam, houve coisas que eu não me apercebi e que ele me conseguiu esconder. E isso dói-me até agora". Para trás ficam agora as memórias, incluindo as de quando Filipa Lemos e o irmão começaram a cantar juntos na dupla Tony e Marlene: "Na altura ninguém nos conhecia. Era difícil ser artista e havia até muita maldade por parte de colegas nossos que olhavam para nós como artistas inferiores e que até boicotavam o que fazíamos. Esse caminho dos meus cinco anos até aos 17 teve muito pedregulho que nos obrigou a aprender muita coisa", lembra.
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