José Maria Tallon: "Eu não sou pacífico"
Polémico, o ‘médico dos gordos’ fala das suas cápsulas, que toma sempre que engorda, e da ex-mulher que o acusou de maus tratos.
Polémico, José Maria Tallon, conhecido como o ‘médico dos gordos' fala das suas cápsulas, que toma sempre que engorda, e da ex-mulher que o acusou de maus tratos. Diz ainda que trabalha para os cinco filhos.
- Está a sentir a crise?
- Não. Temos crescido todos os anos. Penso que isso se deve a querer estar sempre à frente. E a obesidade está a aumentar. Se não houvesse crise, teríamos crescido uns 30%, mas acho que crescemos 5 ou 6%. As pessoas começam a estar conscientes de que quilos a mais é saúde a menos.
- Por uma questão de saúde ou por uma questão estética?
- Eu penso que cada vez mais é por uma questão de saúde. As pessoas começam a perceber que a obesidade é uma marca social, causa de morte indirecta, e começam a preocupar-se. Hoje, em todas as consultas, disseram-me que tinham colesterol alto, tensão alta ou diabetes. Ninguém me disse que queria entrar no fato de banho. Também é verdade que estamos em Janeiro e não em Junho.
- É verdade que tem 213 mil pacientes?
- Na altura em que fiz o livro [‘Minha Dieta'] tinha, agora já devem ser bastantes mais.
- Quantos?
- Todos os meses fazemos 400 novas consultas. Muitos são ‘filhos de', ‘sobrinhos de', outros que ouviram falar ou que vieram cá há anos e depois engravidaram...
- Mas a sua chegada a Portugal não foi pacífica.
- Eu não sou pacífico. Quando cheguei, a maioria dos médicos tratava os obesos como bichos, diziam que comiam como animais. E eu sabia que não era pelo facto de comerem mais que engordavam. Então apostei na relação médico-paciente, com carinho e compreensão. E o meu sucesso não se deve tanto a resultados, apesar de os haver, mas mais ao carinho e à compreensão que eles encontraram quando me procuraram.
- Mas porquê Lisboa, porquê Portugal?
- Eu vim a Portugal ver um rali. Adoro automóveis. E apaixonei-me por este país. Dois dos meus três casamentos foram com portuguesas.
- Quando chegou a Portugal tinha dois filhos e estava separado?
- Tinha dois filhos e estava casado. A minha mulher veio comigo, mas não se adaptou, e acabámos por nos separar.
- E os filhos ficaram com ela?
- Ficaram, porque entendemos que naquela altura da vida deles precisavam mais da mãe. Mas decidimos que quando fizessem 15 anos voltariam a viver comigo, como aconteceu. E hoje não se imaginam a viver noutro país.
- Entretanto, apaixonou-se e casou-se com Catarina Fortunato de Almeida.
- Apaixonei-me. Tive um filho, casei-me e tive mais dois.
- Foi um casamento conturbado?
- Por acaso não foi. Foi um casamento normal. Depois, o amor acabou e separámo-nos. Obviamente, quando há um divórcio, cada um tem de tirar o máximo partido de quem tem. Eu não tinha nada para tirar, mas de mim podiam tirar. E aproveitaram.
- Fala das acusações de maus-tratos?
- Claro.
- O Ministério Público chegou a abrir um processo?
- Não. Foi tudo arquivado.
- A que é que atribui as acusações?
- Não faço ideia, mas uma coisa é clara: quem tinha dinheiro era eu e quem queria pensões não era eu. Vamos resumir: nunca fui condenado por agressões.
- Leu o livro da sua ex-mulher, ‘Ferida de Amor'?
- Não. Li o livro ‘As Primaveras São Felizes'.
- Mas não teve curiosidade de o ler?
- Não. Gosto de ler livros de pessoas que sabem escrever.
- E os seus filhos, como é que reagiram?
- Mal. Às vezes tomamos atitudes malucas, desesperadas, e sem pensar nas consequências, porque temos raiva. E não pensamos que o que se escreve fica para sempre. As consequências para os meus filhos foram francamente negativas. E ainda estão a viver com os resultados do que aconteceu.
- Procurou ajuda para eles junto de colegas seus?
- Sou médico e psicólogo. Tentei gerir tudo, mas o meu filho Eduardo teve acompanhamento durante um tempo. Os outros não precisaram, e penso que hoje conseguem distinguir a verdade da mentira.
- Eles vivem consigo ou com a Catarina?
- Estão 90% do tempo comigo. Temos um acordo tácito, eles podem ir para onde querem e quando querem. O Eduardo tem 18 anos, já não entra neste jogo, mora só comigo. Os outros estão lá, estão cá, mas eu vejo-os todos os dias.
- Tem cinco filhos...
- Tenho seis. Também tenho um cão.
- Um buldogue inglês?
- Claro, chama-se Gaspar e tem cinco anos, é o mais novo dos seis.
- Já disse noutras entrevistas que é amigo da sua primeira mulher e que, "com o tempo", também o será da Catarina.
- E é um facto. Sou muito amigo da minha primeira mulher. Hoje, a minha relação com a Catarina é simpática, cordial, de mútua ajuda.
- Conseguiu ultrapassar as acusações?
- Sou capaz de ter memória curta para aquilo que me interessa. Se calhar estou a ser directo demais. Tenho três filhos com a Catarina. Nada o vai mudar, e eu, pelos meus filhos, faço tudo, e já mostrei isso ao longo da minha vida.
- Até já disse que se não tivesse filhos já se tinha reformado.
- Não tenha dúvidas.
- E o que é que faria?
- Fazia alguns investimentos imobiliários em países emergentes e viajava. Mas quero dar o exemplo e transmitir aos meus filhos o que significa a palavra trabalho. Não há nada que se consiga sem trabalho. "O pai conseguiu o que conseguiu trabalhando. E vocês têm de fazer igual", digo-lhes. Se me reformasse agora, estava a dar uma fraca imagem do que lhes quero transmitir.
- Algum deles tem apetência para continuar o seu trabalho?
- Vários. A minha filha mais velha já se formou em Farmácia, uma área muito próxima da minha. O meu filho Pepe está a tirar Medicina na Hungria e o meu filho mais pequeno também quer Medicina. Mas uma coisa é clara: nenhum dos meus filhos vem trabalhar comigo quando terminar os estudos. Esta clínica é uma empresa e muita gente vive dela. Primeiro têm de aprender e trazer uma mais-valia às clínicas.
- Quantas pessoas é que trabalham consigo?
- Mais de 70, em sete clínicas.
- Recentemente, reatou o seu casamento com Sofia Ribeiro?
- Estivemos separados um ano. Eu não sei qual é o melhor caminho. Só depois de o fazer é que concluo. Agora estamos juntos, assim o decidimos. E se amanhã não estivermos juntos transmitimo-lo, porque não somos hipócritas. A ideia de vida privada é muito relativa. Eu não posso ter vida privada só para o que me interessa.
- Afastaram-se durante um tempo?
- Acho que tínhamos de crescer. E foi importante. Neste momento, a Sofia gostava de ser mãe, mas eu acho que não é o momento.
- Isso não é uma desculpa recorrente?
- Não. Quando decidirmos os dois, será. E o momento está próximo.
- Se calhar não sente necessidade porque já tem a casa cheia.
- Talvez. A Sofia é muito mãe e faz muito esse papel sem querer fazê-lo, porque respeita o papel das mães.
- Já nos disse que gosta imenso de carros, mas gosta mais de motas?
- Em Portugal, isso é politicamente incorrecto. Em Espanha, num sinal vermelho há um carro e 20 motas, em Portugal há 20 carros e uma mota. Aqui a mota é vista com algum preconceito, como alguém que não tem dinheiro para comprar um carro, quando a mota é a forma mais prática para ir aos sítios. Eu na cidade só ando de mota.
- Mas é coleccionador?
- Tenho algumas relíquias. Tenho uma colecção de Ducati, mais de 30 e todas representativas das diferentes épocas do princípio dos anos 50 aos 60.
- E carros?
- Tenho um Rolls Royce, um Corniche Cabrio, de 87. Não é excessivamente caro e é a máxima representação do bom gosto.
- Gosta de carros, motas, de comer e...
- Não posso dizer. Mas sou apaixonado pela minha família. Falo todos os dias com o meu pai, com o meu irmão. Falo três vezes por semana com os meus sobrinhos. Faço muitos programas em família e viajo.
- E é verdade que adora chocolate?
- Só chocolate preto. É fantástico. Depois gosto de comida de faca e garfo, uma feijoada, um cozido, ovos estrelados com batatas fritas e um pouco de molho de tomate por cima... Eu gosto muito de comer. Se fosse ortopedista, pesava 140 quilos porque não teria a obrigação moral de me apresentar assim.
- Já tomou as suas cápsulas?
- Centenas de vezes. Sou um bom garfo e entendo que a vida deve ser vivida e desfrutada com intensidade. Eu faço mais asneiras do que a maioria dos meus pacientes.
- Não é só no Natal?
- Não. Normalmente é no Natal, no Verão, na Semana Santa e de cada vez que vou ao Brasil. Quando faço asneiras, engordo, por isso, ou faço um sacrifício brutal e fico deprimido, ou faço 50% do sacrifício. Quem pensa que se toma as cápsulas para não fazer sacrifício nenhum está enganado.
- O que é fazer 50% do sacrifício?
- É comer metade. Se temos 50% da fome, conseguimos fazer a dieta. Eu não aconselho ninguém a comer alface, fica cheio de fome. Quer batatas, quer arroz... Então, depois do Natal, da Semana Santa e do Verão, tomo as cápsulas um mês. Não preciso de mais porque só engordo quatro quilos.
- Mas o que é que as cápsulas lhe fazem?
- As cápsulas são adequadas a cada pessoa, mas, em todos os casos, reduzem o apetite, a ansiedade própria de uma dieta e, nalguns casos, a absorção. Uma dieta só funciona com a mudança dos hábitos de vida. As cápsulas são apenas o empurrão, a mudança tem que partir de cada um.
- São um empurrão porque diminuem o apetite?
- Exactamente. Porque podemos estar cheios de boas intenções, mas se estivermos cheios de fome não conseguimos.
INTIMIDADES
- Quem gostaria de convidar para um jantar a dois?
- O Pinto da Costa. É das pessoas mais inteligentes que conheci até hoje. É um profissional, e não vejo no futebol da Europa ninguém mais profissional do que ele.
- Não consigo resistir a...
- chocolate preto.
- Se pudesse, o que mudava em si, no corpo e no feitio?
- Mudava a tendência que tenho para engordar. No feitio, não mudava nada porque sou aquilo que sou.
- Sinto-me melhor...
- sempre. Eu sou a pessoa mais optimista do mundo. Consigo sempre ver a parte positiva das coisas.
- O que não suporta no sexo oposto?
- Serem tão perfeitas e darem dez a um a qualquer homem.
- Qual é o seu pequeno crime diário?
- Não posso dizer... O chocolate.
- O que seria capaz de fazer por amor?
- Tudo. Já apanhei um avião só para ir jantar com a Sofia à Suíça e regressei às 6h00. Para mim, foi um esforço brutal, porque odeio andar de avião. Mas nunca deixei de ir aos sítios. Quando o avião descola, penso que não devia ter embarcado; quando o avião aterra, penso que sou o gajo mais valente do Mundo.
- Complete. A minha vida é...
- uma felicidade complicada.
PERFIL
José Maria Tallon nasceu em Granada, Espanha, a 13 de Setembro de 1958. Licenciado em Medicina e Cirurgia, fez pós-graduações em Nutrição, Medicina Estética e Cirurgia Estética
Em Portugal, abriu a primeira clínica em 1986, em Lisboa. Divorciado da espanhola Carmen Comino e da portuguesa Catarina Fortunato de Almeida, é pai de cinco filhos - Carminha (de 25 anos), Pepe (de 24), Eduardo (de 18), Beatriz (de 13) e Rafael (de 11) - e está casado com Sofia Ribeiro
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