Mafalda Arnauth: “Sei que não sou uma fadista consensual”
A cantora acaba de editar ‘Fadas’, um disco que revela canções e paixões antigas
A cantora acaba de editar ‘Fadas', um disco que revela canções e paixões antigas.
- Ao final de onze anos de carreira, lança agora um disco de homenagem às fadistas que a inspiraram. Sentia-se em dívida para com elas?
- Gravei este disco por uma questão pessoal. Tinha muitas saudades de cantar algumas destas canções e, como passei os últimos anos ocupada com as minhas composições e com o meu próprio repertório, fui adiando. Este disco é, no fundo, contar a minha história. É ir à raiz de como tudo começou.
- E como é que tudo começou?
- O meu ponto de partida foi a Amália, que, para mim, ainda é hoje o símbolo da quase perfeição. Foi ela quem depois me levou também a descobrir todo um universo de outras mulheres que cantavam fado.
- Recorda-se da primeira vez que ouviu Amália?
- Curiosamente, só a ouvi com atenção já aos 18 anos, quando entrei para a faculdade. Foi só nessa altura que a Amália me prendeu. Poucos meses depois, fui à minha primeira ‘Grande Noite do Fado', que, por ironia, foi a última dela.
- Chegou a conhecê-la pessoalmente?
- Nós encontrámo-nos duas vezes. A primeira foi no Campo Pequeno, no lançamento de um disco do Carlos Zel. Lembro-me de que tinha quase vergonha de a conhecer, porque foi numa altura em que toda a gente já andava à procura de uma nova Amália. Parece que já estavam a querer substituí-la em vida. Era uma coisa terrível e muito deselegante.
- No entanto, alguma vez se sentiu a nova Amália?
- Não. No dia em que ela morreu eu estava na Holanda e houve um jornalista que me ligou para me perguntar o que é que havia em comum e o que é que me afastava da Amália. E eu respondi apenas: "Separa-nos uma vida inteira!" Qualquer comparação é um absurdo.
- Mas chegou a privar com ela!
- Eu conheci a Amália numa altura em que ela já andava um bocadinho cansada de conhecer gente nova (risos). Por isso, nunca tive essa oportunidade de conviver. Já com a irmã, Celeste Rodrigues, tive o privilégio de aprender muito. Ela é um poço de sabedoria que vive com aquele estigma de irmã de uma grande artista. Mas é das mulheres que mais admiro. É, talvez, a minha ‘fada' predilecta.
- Mas, apesar de se chamar ‘Fadas', este não é só um disco dedicado a mulheres!
- Pois não! Ao fazer este disco, fui reparando que, ao homenagear estas mulheres, também não podia deixar de falar dos homens que estão por detrás delas e que escreveram a maior parte das canções. Por isso digo que este não é só um disco de fadas mas também de almas. Foram estes seres todos que trouxeram magia à minha vida.
- Já reconheceu que o que canta não é fado puro mas é o seu fado. Durante muito tempo, os puristas do fado eram quase como ‘bichos papões'. Alguma vez se sentiu atacada?
- A mim esse ‘bicho' nunca me mordeu. Mas eu também nunca fui ostensivamente provocatória e sempre tive muito respeito por toda a gente. E eu acho que isso é o mais importante, porque eu também já vi muita gente a começar esta conversa pelo lado errado. Eu sei que não posso agradar ao mundo inteiro e que não sou uma fadista consensual, mas quando somos postos em causa também crescemos muito.
- Quando é que descobriu que não é uma fadista consensual?
- Assim que gravei o meu primeiro disco. Quando me viram aparecer como compositora e ‘cantautora', algumas pessoas ficaram muito agradadas mas outras ficaram muito desiludidas porque, se calhar, estavam a contar que eu aparecesse a cantar um repertório amaliano. Hoje, eu tenho a noção de que cada disco meu é uma entrada num território diferente que vai, obviamente, seduzir novas pessoas e, se calhar, desapontar outras. Mas não me faz falta ser uma fadista consensual. O que sinto é que tenho um lugar de respeito muito especial. E depois, diga-se, a bem da verdade, nunca me senti ostracizada.
- Diz que só ouviu Amália com atenção na faculdade. O fado apareceu assim tão tarde na sua vida?
- O fado foi-me imposto. Eu entrei na faculdade a cantar o ‘Cheira Bem, Cheira a Lisboa' e mais uma música dos Madredeus, que era ‘Estrada do Monte'. Os ‘veteranos' nem acreditavam que eu não cantasse mais fados (risos). Um dia, disseram-me que eu tinha um dia para aprender um fado. Fui então comprar uma cassete da Amália, e foi aí que tive o primeiro grande contacto com ela.
- Até essa altura, que música ouvia?
- Um pouco de tudo. Queen, Chico Buarque, Elis Regina, Maria Bethânia, Red Hot Chilli Peppers... Sei lá, tanta coisa diferente! Lembro-me de ter para aí uns três anos, mal sabia falar, e cantar uma música da Mara Abrantes (risos).
- Já havia cantores na família?
- Não. A minha família sempre foi muito musical, e o meu irmão até é muito mais músico do que eu, porque aprendeu piano, mas ninguém seguiu uma carreira profissional. É engraçado, porque ela foi ao meu primeiro concerto, e até subir ao palco ninguém acreditava que eu ia cantar.
- Terminou o curso de Veterinária?
- Não. Houve uma altura em que tive de optar, por uma questão de saúde mental.
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