Paulo Rocha: "Eu escolhi o meu pai"

Aos 34 anos, o actor ainda não pensa em casar e ter filhos, apesar de viver um romance com Raquel Henriques. Paulo Rocha fala da sua relação com o pai

08 de agosto de 2009 às 09:00
importa Foto: Bruno Colaço
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Aos 34 anos, o actor ainda não pensa em casar e ter filhos, apesar de viver um romance com Raquel Henriques. Paulo Rocha fala da sua relação com o pai adoptivo, o grande pilar da sua vida, e recorda a agressão a Gonzo, uma reacção a uma situação que considera de limite. 

- Quatro anos depois está de regresso aos palcos com a peça ‘Hedda Gabler’.?

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- Há muito tempo que eu não tinha esta vivência. O espectáculo é muito bonito, muito feliz por parte do Celso Cleto. As interpretações estão muito equilibradas mas a Sofia (Alves) faz um trabalho bastante exigente. Está 80 por cento do tempo em palco, é uma actriz de uma enorme entrega, generosidade. Já tínhamos trabalhado na novela ‘O Teu Olhar’ e ficámos amigos.

- Esta peça é itinerante, o que também é bom visto que abrange vários tipos de público.

- E tem sido óptimo, porque percebi que fora de Lisboa existem espaços maravilhosos, com condições espectaculares. É pena que estes espaços não sejam povoados com produções, locais ou não... É pena que Lisboa não tenha espaços como os que encontrei. Também me deparei com um público bastante efusivo.

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- Já falou da sua amizade com a Sofia, todavia também é amigo do Celso Cleto, que encena a peça.

- Tinha alguma curiosidade em trabalhar com ele. Já conheço o Celso há quase 15 anos, quando ele era subdirector do Teatro Nacional. O Carlos Avillez era meu professor e convidou-me para estagiar lá. O Celso é um encenador muito tranquilo e que nunca transmite ansiedade, julgo que ele a engole. Espero que continuemos a trabalhar juntos.

- Além da peça, está a gravar outra novela da SIC...

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- Sim, ‘Eterno Amor’, onde faço par romântico com a Luciana Abreu. Não nos conhecíamos, apenas nos tínhamos cruzado em estúdio.

- Tirou o curso de Representação e só depois começou a trabalhar, percurso que, presentemente, já não é tanto assim. Porque optou por fazer tudo direitinho?

- Aconteceu, se calhar, porque foi numa altura em que não havia o boom de actores, os castings... Hoje em dia atira-se os miúdos às feras sem eles sequer saberem ‘ler e escrever’. Comigo nem sequer foi opcional. Penso que tenho sorte de as coisas se terem processado assim. Mas sinto que só me adaptei à técnica de televisão com ‘O Teu Olhar’. ‘Vingança’ foi também uma novela em que aprendi muito. Veio numa altura importante, depois dos ‘Morangos’. Já andava a ‘chorar’ há alguns anos para fazer um vilão.

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- Mas esse vilão pesou-lhe fisicamente.

- Sim. As cenas eram todas muito intensas e muitas horas por dia. Tive uma luta gigantesca quando passei de ‘Vingança’ para ‘Resistirei’. Ao longo do meu trabalho tenho aprendido as técnicas mas se me pedirem que dê aulas não consigo, julgo que não tenho jeito.

- Há muitos actores a fazê-lo...

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- Penso que é uma grande responsabilidade. Fui aluno de pessoas que fazem as coisas de uma forma muito tradicional. Podemos dizer algo fora do contexto e magoar alguém, levar alguém a desistir e que poderia ter uma grande carreira. Não quero ter essa responsabilidade, podem dizer que sou cobarde por isso. Prefiro achar que sou sensato. Eu não era um aluno prodígio, a grande esperança da minha escola, mas ainda assim nunca me disseram que desistisse ou que não tinha jeito.

- É muito terra-a-terra?

- Penso que sim. Tenho a minha dose de sonho, de acreditar... No fundo, quando as coisas têm de acontecer acontecem. Ao longo deste tempo, as conversas com o meu pai têm-me ensinado a ser mais terra-a-terra e, sobretudo, muito cuidadoso com a marca que se deixa. Acima de tudo, sou crédulo e um bocadinho ingénuo em certas coisas.

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- Isso já lhe trouxe dissabores?

- Tantos!... Mas depois também não fico nem com raiva ou ódios. Fico um pouco triste, a sentir-me mais pobre, com pena de algumas pessoas, porque elas ficam sempre a perder mais do que ganham.

- Já falou do seu pai, José Manuel Costa Reis. Ele é o seu grande pilar?

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- À medida que vou ficando mais velho, tomo consciência do quão ele foi importante para mim. Não consigo imaginar o que seria hoje sem a influência dele, quer a nível do bom gosto – que é uma característica dele –, quer de relacionamentos sociais. Sou uma pessoa com imensas lacunas de relacionamento social. Efectivamente, ele é muito importante para mim, mas também outras pessoas. Apesar de tudo, tenho tido imensa sorte, porque tenho-me cruzado com pessoas muito boas, como, por exemplo, o Carlos Avillez e a Teresa Guilherme – que conheci recentemente mas com quem tenho uma relação muito próxima. Chego a dizer que fui mais privilegiado do que certas pessoas, que tiveram apoio dos familiares. Ao longo da minha vida, tenho visto pessoas com pai e mãe e vivências tão mais problemáticas! Às vezes é melhor a ausência do que a presença. Eu fui escolhendo as pessoas na minha vida. Fui eu que escolhi o meu pai – e isso é algo que quase ninguém pode fazer. Eu adoptei-o.

- Está numa altura de grande trabalho, mas onde ficam as férias?

- Aqui e ali... Entre os intervalos do trabalho. Não vou ter 15 dias ou três semanas seguidas mas vou aproveitando dois ou três dias de cada vez. Gosto de acreditar nisso, para não pensar que sou um desgraçado.

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- E neste momento tem o coração ocupado pela Raquel Henriques...

- Eu não falo sobre isso. Estou muito calmo e tranquilo, a trabalhar e a viver.

- Passa, neste momento, pela sua cabeça constituir família?

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- Já idealizei mais. Penso que é uma enorme responsabilidade ter filhos. As coisas não têm sido más para mim e tenho tentado suprimir algumas carências que tinha, perco algum tempo a mimar-me. Já pensei mais numa vida mais tradicional mas agora quero viver outras coisas. Ter um filho não está no topo das minhas prioridades.

- Como se define?

- Sou calmo e pacato. Detesto injustiças. Sou o mais respeitador e educado que possível, e por ser assim exijo o mesmo. Quando as pessoas não são correctas comigo tenho de mostrar a minha indignação. Não faço muito isso, só em situações de limite.

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- Foi uma situação de limite o que aconteceu consigo e com o DJ Gonzo [uma agressão numa discoteca em 2007]?

- Foi. Foi uma invasão de espaço pessoal três vezes seguidas, foi o culminar de uma série de situações. Não gosto de falar muito disso, porque fui maltratado pela Imprensa nessa altura, Imprensa essa que me devia ter defendido, tal como alguns colegas, mais que não seja por uma questão de cortesia, por sermos do mesmo canal. Estar a falar disto é desenterrar algo que não tem grande importância. Quando há um desmentido é sempre muito inferior à ‘publicidade enganosa’ que foi feita. O que é facto é que passado um ano e meio desse episódio eu dou por mim a ter a sensação de que todo o trabalho que fiz em televisão, ao longo de dez anos, foi suprimido por uma situação em que eu fui aviltado na minha individualidade e que reagi. Infelizmente, correu da maneira que correu. Como devem calcular, não sou um atrasado mental e não queria que as coisas corressem assim. Mas como, se calhar, as pessoas têm outras necessidades, deram uma proporção desmesurada ao episódio. A minha imagem saiu muito prejudicada com esta situação. Acredito que o tempo ajuda a lavar tudo e traz a verdade ao de cima. Mas enquanto não vem há estragos que são feitos, fica-se estigmatizado. Eu tive colegas que nunca tinham trabalhado comigo e que me disseram que tinham outra impressão minha. Mas o Mundo inteiro não vai conhecer-me como sou, porque considero-me uma pessoa fechada.

- Sente que esse episódio influenciou negativamente as pessoas?

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- Claro que sim... Mas ainda bem que eu vou estando por cá e as pessoas vão gostando do trabalho que eu faço.

- Profissionalmente, prejudicou-o?

- Não terá prejudicado, porque as pessoas que trabalham comigo já me conhecem há uma data de tempo. Sabem que eu não sou uma besta quadrada, um brutamontes. Eu julgo que até sou muito criança em algumas coisas.

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- O Paulo era amigo do Gonzo?

- Cruzei-me com ele duas ou três vezes, se calhar mais, mas penso que sempre o tratei bem, e vice-versa. Mas não quero falar mais, sobretudo porque as pessoas envolvidas já viveram ano e meio às custas do que aconteceu e às custas do meu nome. Pode parecer cruel o que eu estou a dizer: já retiraram todos os dividendos, e eu também já tirei os meus, para aprender. Sou muito feliz da maneira que sou, que julgo que é a mais correcta.

- Como é que uma criança criada na Casa do Gaiato se torna actor?

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- Até aos meus 16 anos tinha o grave problema de não saber o que queria fazer. Achava que era um desajustado. Na Casa do Gaiato do concelho de Setúbal, todos os anos se organizava festas, que incluíam um espectáculo de dança, teatro... Eu participava porque tinha de participar, não era opcional. E nem sequer era brilhante. O que acontecia é que durante os ensaios não tínhamos de ir trabalhar para o campo. Então, eu achava que ser actor era não fazer nada... Além disso, não precisava de me levantar cedo, o que era óptimo. Até que o meu professor de Teatro apareceu com um folheto da Escola de Teatro de Cascais. Fiz os testes e fiquei. Passados três meses, percebi que se tinha de trabalhar – e muito...

- E não está arrependido da opção?

- Gosto imenso da minha profissão e não me vejo a fazer outra coisa. Mas há outras coisas que quero fazer na minha vida: quero divertir-me, ter tempo para mim. Não vivo nem respiro o palco, como dizem alguns colegas meus, não vivo 24 horas o teatro e a televisão. Não tenho muito jeito para ser politicamente correcto – e considero que temos tão pouco tempo livre na nossa vida para isso! Vim à Terra para viver e não ser escravo do trabalho. l

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REFLEXO

- O que vê quando se olha ao espelho?

- Alguém que é extremamente responsável ou que, pelo menos, tenta ser.

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- Gosta do que vê?

- Tenho dias...

- Alguma vez lhe apeteceu partir o espelho?

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- Não, de facto, tenho medo de me cortar.

- Quem gostaria de ver reflectido no espelho?

- Eu próprio. Fico tão contente quando me vejo ao espelho!

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- Pessoa de referência?

- O meu pai, José Manuel Costa Reis, pelo corte transversal que fez na minha vida.

- Momento marcante?

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- Sei lá, tenho vários. Recordo o primeiro ensaio que fiz, no Teatro Nacional, com uma peça do Carlos Avillez. Já conhecia, como espectador, a Sala Garrett. Nesse dia, fui o primeiro a chegar e, de repente, entrei no palco e fiquei a olhar... Senti uma energia muito especial por estar num palco onde passaram e passam grandes actores.

- Qualidade e defeito?

- Nas qualidades, destaco o sentido de justiça. Nos defeitos, sou uma pessoa dada a rompantes, rosno mas depois passa. Às vezes sou um bocadinho impulsivo, porém tenho alterado isso ao longo do tempo.

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