Tempo Comum: Transmutações
Numa das suas últimas entrevistas, Pinto Ribeiro, ministro da Cultura, afirmou estar orgulhoso pelo trabalho que realizou no seu mandato. A frase que me veio à cabeça, depois de ler atentamente a respectiva entrevista, foi a de um spot publicitário antigo: 'Se eu não gostar de mim, quem é que gosta?'
Não invejo os que têm carreiras políticas. Muito menos o trabalho de ministro, pelas dores de cabeça que deve dar, mas, como em qualquer outro trabalho, há que reconhecer os erros cometidos como um marco temporal do que se pode melhorar daí para a frente. Sócrates assumiu há pouco tempo o erro de ter investido pouco na Cultura. Um reconhecimento inevitável porque, de facto, quase nada foi feito nesta área, agravando o estado de desertificação a que a Cultura foi votada desde o período da Expo’98. Uma década depois, a decepção pública é mais que natural.
Por isso, não compreendo as duas afirmações do ministro. A primeira refere-se ao trabalho feito, o qual foi o de 'qualificar as pessoas, dar--lhes condições para serem livres', a segunda sobre a intenção de 'fazer mais com menos'.
Quanto à primeira afirmação, é de perguntar o que pensa o ministro das pessoas que já são qualificadas e livres há muito tempo e cujo problema é somente o de verem, ano após ano, os seus projectos inviabilizados, estando muitas delas já a viver situações dramáticas de subsistência pessoal. Quanto à segunda afirmação, se um dos problemas para a viabilidade dos projectos tem origem na sobejamente conhecida 'falta de verba', como é que o Ministério da Cultura irá concretizar o milagre da multiplicação dos pães?
A dada altura, Pinto Ribeiro apela à mobilização da população. Na minha estante tenho dois ou três livros sobre alquimia… Quem sabe se ajudam às transmutações vindouras.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt