Tonicha: "Felizmente venci a luta contra o cancro"
A cantora está afastada dos palcos há cerca de um ano e meio mas diz que nunca se sentiu esquecida e que ainda a reconhecem na rua
Tonicha, uma das mais populares cantoras portuguesas, está afastada dos palcos há cerca de um ano e meio e tem vivido momentos difíceis devido a problemas de saúde. Diz que nunca se sentiu esquecida e que ainda a reconhecem na rua.
Correio da Manhã - A Tonicha voltou a ser notícia no final do ano passado por causa da sua estreia no teatro, aos 64 anos, mas há muito tempo que não se ouvia falar de si. Porquê?
Tonicha - É verdade que estive algum tempo afastada mas também não foi tanto assim. Até há ano e meio, por exemplo, andei na estrada com um grupo do Alentejo que se chamava Venham mais Cinco, o problema é que não teve visibilidade.
- Disse "até há ano e meio". O que é que aconteceu nessa altura?
- O meu marido piorou da doença e tive de vir para Lisboa com ele. Entretanto, fui atropelada e fiquei muito mal, fracturei coluna, perónio, bacia e andei numa cadeira de rodas. E tive de andar com um aparelho.
- E já está recuperada?
- Faço fisioterapia quase todos os dias, mas as mazelas estão cá.
- Foi nessa altura que descobriu que tinha cancro?
- Sim. Após o acidente soube que tinha cancro da mama, mas essa foi, felizmente, uma luta que ganhei. Agora faço apenas medicação.
- Nestes últimos anos em que teve menos visibilidade, sentiu-se esquecida?
- Não. Isso nunca me aconteceu.
- As pessoas ainda a reconhecem na rua?
- Claro que sim. Dirigem-me sempre muitas palavras simpáticas. Dizem que têm saudades minhas, que gostam muito de mim.
- Sente saudades do sucesso e da visibilidade?
- Não. Eu sempre gostei muito de cantar e nunca procurei a fama. Sou muito pacata.
- Alguma vez a fama a assustou?
- Sim. É agradável, mas também tem as suas desvantagens. Era complicado ir à praia e ter as pessoas a pedirem-me autógrafos. Todos nós gostamos de ir a um restaurante e poder almoçar tranquilos.
- Toda a gente a conhece pelo ‘Zumba na Caneca'. Nunca se cansou dessa canção?
- Sim. Houve alturas em que já a cantava com alguma dificuldade.
- Faz ideia de quantos espectáculos deu em Portugal?
- Ui, não sei! Foram tantos! Nunca fiz essa contabilidade.
- E quantas voltas deu ao País?
- Sei lá (risos). O que sei é que houve períodos em que apenas tinha tempo de ir a casa para fazer nova mala de roupa e voltar à estrada.
- Ficam muitas histórias para contar?
- Sim. Fiz muito trabalho de estrada. Sou do tempo em que se levava muito tempo para chegar ao Porto. A minha distracção era contar buracos.
- E afinal o seu nome é Tonicha ou Tonicher?
- Parte da minha família é Tonicha e outra é Tonicher. Eu fiquei Tonicha.
- Não é nome artístico, portanto.
- Não, fui registada assim. Mas um dos meus irmãos já foi registado Tonicher.
- Não é de origem portuguesa esse nome?
- Não sei. E também nunca me preocupei em saber sobre isso. Para quê? O que sei é que sou muito alentejana de pai e de mãe.
- Arrepende-se de alguma coisa?
- Não. Acho que fiz tudo o que podia fazer neste país.
"A VELHICE NÃO TRAZ NADA DE FANTÁSTICO"
- A Tonicha está quase a festejar o 65 aniversário. Sempre lidou bem com o passar dos anos e com a idade?
- Tenho lidado bem, mas não consigo dizer que a idade é uma maravilha. Ainda não cheguei a esse ponto. Não me considero velha, mas sei que estou a caminhar para a velhice.
- Isso assusta-a?
- A velhice não é boa. Não sou daquelas pessoas que dizem que a velhice traz coisas fantásticas. Eu acho que não traz nada de fantástico.
- Nunca foi uma mulher preocupada com o aparecimento de rugas, por exemplo?
- Não. A velhice só me preocupa por causa da saúde. Por enquanto ainda não tive nada que tenha a ver com doenças da idade. Tive o meu acidente e um cancro, mas não têm nada a ver com a idade.
- E pondera fazer alguma plástica?
- Não. Eu acho que fazer umas ‘puxadas' agora só fará que a coisa volte pior daqui a uns anos.
- Quais são os seus planos para o futuro?
- Não tenho planos e nunca os fiz. Se me aparecer alguma coisa que me agrade, logo se vê.
PRETO NO BRANCO
Como é que foi a sua infância em Beja, no Alentejo?
Eu tive uma infância muito feliz com os meus quatros irmãos. E tenho mesmo muitas saudades das reuniões familiares.
É verdade que algumas das suas canções foram censuradas antes do 25 de Abril?
Sim. Mas foi uma coisa normal. Uma pessoa que cantava ‘Labuta, meu bem labuta é em Maio que rebenta a luta/trabalha meu bem trabalha que é em Maio que a gente te malha" o que é que se podia esperar? Mas isso nunca me importou, porque havia sempre quem passasse essas canções.
Colaram-na ao partido comunista depois do 25 de Abril. E isso foi algo que a desagradou muito. Teve problemas por causa disso?
Essa foi uma partida que me pregaram. Eu nunca tive qualquer filiação partidária.
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