Num País onde existe um grande défice de mulheres a compor, escrever e cantar em português, Márcia é um caso raro
Num País onde existe um grande défice de mulheres a compor, escrever e cantar em português, Márcia é um caso raro. O seu disco de estreia, ‘Dá', é uma pedrada no charco de uma mulher que insiste em vingar num mundo de homens.
- Canta, escreve e compõe desde os 13 anos, mas só agora, aos 28, lança o seu primeiro disco. O que é que a fez levar tanto tempo a editar? Falta de coragem ou insegurança?
- Nem uma coisa nem outra. Eu nunca tive a intenção de guardar as minhas canções só para mim, mas também nunca tive aquela vontade de andar a correr atrás das editoras e de me sujeitar àquilo que algumas me chegaram a propor.
- Como por exemplo?
- Como quererem que eu cantasse em português numa altura em que eu ainda compunha e cantava em inglês. Queriam sempre uma coisa que estivesse de acordo com o mercado. Por isso, estive grande parte do tempo à espera que as editoras deixassem de propor essas coisas absurdas (risos). Sempre pensei para mim mesma: ainda há-de chegar o dia em que eu hei-de poder fazer o que me apetece.
- E nunca desanimou?
- Não, porque também nunca tive grandes ilusões. Nunca sonhei em vir a ser uma grande estrela da música. Há pessoas que se motivam com isso, mas eu não.
- Quer dizer que este disco resume estes anos todos de espera?
- Na verdade, todas estas composições foram feitas nos últimos três ou quatro anos da minha vida, porque foi também nesse período que comecei a compor quase exclusivamente em português. Foi nestes últimos anos que ganhei o gosto pela língua portuguesa.
- E como é que se deu essa mudança do inglês para o português?
- Foi numa altura em que fui estudar para França. Estive lá seis meses que me pareceram uma eternidade. Foi um período muito difícil para mim, durante o qual me senti muito isolada. Como tinha uma necessidade enorme de comunicar, fazia muitas traduções de português para francês. E acho que foi nessa altura, em que desconstruí a nossa língua, que me apercebi das expressões únicas que nós temos e da riqueza com que comunicamos. Foi aí que se deu o clique.
- Muitos referem-se a si como ‘cantora revelação'. Como é que lida com isso?
- Eu não sinto que esteja no centro das atenções. Só tenho mil e tal amigos no Facebook (risos). Esta coisa da ‘cantora revelação' para mim é apenas uma expressão como qualquer outra.
- Há, em Portugal, um défice muito grande de mulheres cantautoras, a escrever e a cantar em português. A Márcia é quase uma raridade. Porque será que isto acontece?
- Já pensei muito nisso, mas não consigo chegar a nenhuma conclusão. A verdade é que este tem sido um mundo dos homens.
- Porquê?
- Talvez porque eles estejam mais à vontade com esta coisa de ligar e desligar cabos (risos). Eles sabem sempre como é que as coisas funcionam. E depois eu acho que os homens sabem apoiar-se uns aos outros. Eles andam em matilha. Eu, por exemplo, andava para ali sozinha no meu quarto a compor.
- Será que tem havido falta de atrevimento das mulheres?
- Não sei. Eu tenho a certeza de que há muitas mulheres a compor. O que acontece é que elas andam escondidas por aí (risos). Eu acho que é preciso encontrar as pessoas e as companhias certas. Foi o que aconteceu comigo. Um dia a minha música foi parar às mãos do João Paulo Feliciano e foi assim que as coisas aconteceram.
- Há alguma sugestão que se possa fazer às tais mulheres que compõem e andam para aí escondidas?
- Acho que devem mostrar aquilo que andam a fazer através do Myspace, por exemplo. É uma excelente ferramenta nos dias de hoje.
- A Márcia escreve sobre si? É um objecto apetecível para si própria?
- Sou. Às vezes os músicos têm complexos de escrever sobre si mesmos ou de dizer que o fazem. Eu não tenho esses problemas. As canções tocam às pessoas se elas se identificarem com o que é dito. É por isso que há muitas pessoas a escreverem-me a dizer que as minhas músicas as fizeram sentir muito bem. Mas este processo de composição ainda é para mim muito difícil de explicar. Ainda não descobri como é que as coisas acontecem e o que é que me leva a escrever.
- A Márcia faz parte do Real Combo Lisbonense, que é algo totalmente diferente daquilo que está a fazer a solo. Como é essa experiência?
- O Real Combo é um grande grupo de amigos que gosta de tocar junto e que se diverte imenso. É um projecto que me preenche muito.
- Como é que a música apareceu na sua vida?
- Lembro-me de ter seis anos e de tocar muito num órgão que havia lá em casa. O meu irmão, que é onze anos mais velho do que eu, tocava em casa e eu andava sempre a tentar imitá-lo. Depois descobri a guitarra. Lembro-me que um dia ouvi uma cassete da Tracy Chapman que era do meu irmão e que não descansei enquanto não tirei as músicas todas para a guitarra. Ainda hoje as sei tocar. Foi assim que aprendi os acordes.
- E porquê a guitarra?
- Não sei, se calhar porque era mais fácil. Os meus pais nunca fomentaram muito o gosto pela música. O meu pai, por exemplo, como era pintor, incutiu-me mais o gosto pelas Belas Artes, curso que acabei por tirar. Só que houve ali uma fase da adolescência em que eu e os meus amigos íamos para a rua tocar e o mais fácil de levar era a guitarra. Não era muito prático levar o órgão atrás (risos).
- Como é que o seu pai vê hoje a filha cantora?
- Ele guarda todos os recortes! Sempre foi um pai muito babado e muito ternurento comigo. Mas a minha mãe também guarda tudo o que vê sobre mim.
- Eles vão aos seus espectáculos?
- Ao início iam mais. O meu pai ia ver-me muito ao Real Combo, que é uma coisa mais para dançar. Mas como ele já tem oitenta anos já está mais recatado.
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