Cantora fala do novo disco, 'Abundância', gravado entre Lisboa e Maputo, e recorda o percurso na música.
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'Abundância', título do seu novo disco, é uma palavra que assenta que nem uma luva à Maria João, afinal música foi coisa que nunca lhe faltou e que nunca deixou faltar!
É isso mesmo. Isso vem da minha insaciável vontade e amor pela música. Qualquer coisa que tenha aventura ou que me desafiem eu vou. A alternativa é ficar em casa a ver os outros fazer. Acho que sim que este disco reflete abundância, tudo aquilo que me aconteceu a nível pessoal e tudo aquilo que eu sou, com esta coisa de ter uma mãe moçambicana e um pai português, e toda esta mistura cultural que reside em mim.
Até que ponto Moçambique, a terra da sua mãe está em si?
Acho que metade de mim pertence a Moçambique e a outra metade pertence a Portugal. Talvez um bocadinho mais a Portugal porque vivo cá, mas Moçambique, apesar de visitar apenas de férias, tem uma presença e uma força imensa na minha vida. Ainda no ano passado estive lá para gravar este disco. Vou lá com muita frequência.
Mas tendo nascido em Portugal como é que começou a sua relação com Moçambique?
A minha mãe só me começou a levar para Moçambique aos onze anos. Ela tinha medo que eu apanhasse malária e antes dos onze achava que levar-me para África era um risco imenso. Mas tenho excelentes recordações de lá. Aliás, sinto alguma mágoa por não ter vivido lá e por não ter ido lá à escola. Gostava muito de ter tido essa experiência, mas pelos vistos a minha base era mesmo em Portugal.
E essa metade moçambicana está agora bem esplanada neste disco! Como é que ele foi feito?
Este disco foi feito entre Lisboa e Maputo. A base começou com a eletrónica, os teclados do João [Farinha] e as melodias que eu fui criando em Lisboa nos estúdios Aurora, assim chamados por causa de uma das minhas cadelas (risos). Depois fomos gravar o Maputo, em Moçambique, com o resto da família e os amigos do coração.
O João Farinha e André Nascimento, que participam neste disco, são os seus grandes cúmplices artísticos dos últimos dez anos?
Sim. Juntos, com o projeto Ogre já gravámos quatro discos. Quando eu os conheci eu estava muito apaixonada por eletrónica, queria muito fazer esse novo caminho do qual percebia tão pouco. E então o João e o André foram fundamentais.
Já anda nesta vida da música há mais de 40 anos. Que perceção tem sobre esta linha temporal?
O primeiro disco 'Quinteto Maria João' de 1983 foi muito importante. Eu era uma miúda que não sabia ler nem escrever a quem um dia perguntaram se queria gravar um disco. Este novo trabalho, 'Abundância' é o 31º disco. Têm sido anos muito preenchidos, anos incríveis em que andei por todo o lado, fiz música com pessoas importantíssimas, participei em projetos incríveis, mas tudo passou num sopro.
Sabendo que a música surgiu quase por acaso na sua vida, qual é a memória mais viva que tem do início deste percurso?
A primeira coisa que me lembro foi de reparar que tinha uma voz. Isso aconteceu quando eu tirei o curso de nadador salvador. Éramos três mulheres e fomos as primeiras senhoras a tirar o curso em Portugal. Ainda tenho o diploma pendurado em casa num curso tirado na piscina do Hotel de Oeiras a 23 de setembro de 1977.
Mas chegou a exercer?
Não. Porque na altura não davam estes empregos a mulheres. Permitiam que tirássemos o curso, mas depois os concessionários não nos empregavam. Deviam achar que os homens tinham mais força e que eram mais competentes. Na altura fiquei muito chateada como isso.
Mas como é por causa de um curso de nadador salvador descobriu a sua voz?
Porque uma das minhas colegas era cantora no coro do S.Carlos. Ela estava sempre a cantar, inclusive nos balneários. A determinada altura comecei a cantarolar com ela, a abrir a voz e um dia reparei que berrava mais alto do que a Cândida (risos).
E depois quando é que percebe que o seu caminho ia mesmo seguir pela música?
Foi pouco depois, quando comecei a frequentar a escola do Hot Club onde estive seis meses. Um dia, o Zé Eduardo, o contrabaixista que era o diretor da escola, teve um concerto e convidou-me para o acompanhar. Estava muito nervosa, mas lembro-me que nesse dia levantei-me cedo e fui com o meu pai a uma loja comprar umas botas cor de vinho e umas calças e uma blusa azul. Decorei seis músicas, todas direitinho, a primeira correu bem, mas na segunda tive uma branca tão grande, que tive de começar a improvisar. Tive mesmo que me desenrascar. A hipótese era inventar ou então ficar ali a fazer uma figura muito triste. No entanto, quando acabou, eu tive a certeza que era isto que ia fazer até morrer. Aquela experiência foi avassaladora para mim.
Já disse em várias entrevistas que foi uma adolescente rebelde. Como é que acha que essa menina olharia hoje para esta Maria João?
Eu acho que ela ia estar orgulhosa de mim e iria dizer-me: "Olha não mudaste nada!" (risos). Acho que temos que aprender a nos orgulharmos daquilo que fazemos.
E ainda existe essa rebeldia?
Claro, o tempo todo. Nasce-se e fica-se assim para sempre.
Mas até que ponto era rebelde?
Ao ponto da minha mãe me ter posto em cinco colégios de onde eu era sempre expulsa, não porque eu fosse má menina, mas simplesmente porque não queria estar ali. Há histórias que não posso contar (risos). No Nun'Álvares, em Tomar, que era uma espécie de reformatório e um colégio muito duro, aprontei de tudo. Eu que detesto fumo e detesto fumar, fumava só porque era proibido (risos).
E as experiências que foi fazendo na música ao longo dos anos, está ligada a essa rebeldia?
Eu acho que sim. Não é possível fugir ao nosso ADN. O espírito de rebeldia está sempre cá. Depois se correr mal, logo se vê.
E acha que está hoje onde merecia estar?
Sim. Eu fiz escolhas. Lembro-me, por exemplo, que quando tive o meu filho João, surgiu um convite para ir para os EUA fazer uma temporada. E eu optei por não ir. Por isso tudo o que me aconteceu foi o resultado de escolhas que fui fazendo.
E o que é que acha que o público pensa de si?
Eu acho que as pessoas gostam de mim. Todas as pessoas são incríveis comigo. Andam comigo ao colo.
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