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“O Prince diz que eu apareci numa altura importante da vida dele”

‘Leva-me aos Fados’ é o quarto disco de estúdio de Ana Moura. Apresentação ao vivo acontece terça-feira na Casa da Música, no Porto.

18 de outubro de 2009 às 10:31

‘Leva-me aos Fados’ é o quarto disco de estúdio de Ana Moura. Apresentação ao vivo acontece terça-feira na Casa da Música, no Porto. E quarta no Teatro Tivoli, em Lisboa.

- Havia um fado que dizia: "Ser fadista foi a sina que Deus me deu." O que é que é, para si, ser fadista?

- Ser fadista tem a ver com o que vai na alma. É isso que nos personaliza. Ser fadista passa pelo que se sente e não tanto por técnicas vocais ou estéticas. O fado é um canto interior, e eu acho que só consegue transmitir a mensagem quem sentir aquilo que canta. É por isso que quando um fadista escolhe uma letra tem de fazê-lo consante aquilo que sente. Há fados, por exemplo, que eu adoro ouvir a Amália a cantar e que eu nunca cantaria.

- Como, por exemplo?...

- O ‘Grito’. Esse fado tem uma letra que me toca muito quando cantado pela Amália, mas eu não seria capaz de o cantar porque acho que ainda não vivi o suficiente. É um fado que diz "Vem morte que tanto tardas" e, portanto, para mim não faria sentido cantá-lo. Faz, sim, todo o sentido ouvi-lo na voz da Amália.

- É fundamental que um fadista já tenha experimentado a perda, a saudade e a dor para interpretar um fado?

- Bom, o fado não está sempre ligado à dor. A Amália cantava ‘A Casa da Mariquinhas’ e dava-me logo vontade de dançar. Era muito alegre. O fado é, acima de tudo, cantar experiências de vida.

- Quando a Amália morreu, a Ana tinha 20 anos. Chegou a conhecê-la?

- Não. Essa é uma tristeza que me há-de acompanhar. É aquela peça do ‘puzzle’ que eu nunca vou poder completar. Quando ouvi na televisão a notícia de que ela tinha morrido só conseguia pensar no facto de nunca a ter conhecido.

- Numa altura em que passam dez anos sobre a sua morte, até que ponto a Amália foi inspiradora para si?

- A Amália é a minha grande referência. Para além da profundidade, tinha ainda um timbre com uma cor linda e era o símbolo do bom gosto na interpretação.

- Este seu novo disco conta com participações de José Mário Branco, Amélia Muge, entre outros, e o inevitável Jorge Fernando. É ele o seu grande braço-direito?

- Sim. Ele tem sido o produtor desde o meu primeiro disco e penso que temos feito um trabalho de parceria muito construtivo. É ele que tem sido o meu grande apoio, por exemplo em estúdio, que para mim continua a ser um bicho estranho e frio.

- Este disco tem, pela primeira vez, um fado assinado por si. Quando é que vai começar a escrever as suas próprias canções?

- Quem me dera! (risos) Esse sempre foi um desejo meu, mas eu sinto que preciso de dedicação e de um espaço que a minha carreira não me tem permitido. Esta canção, por exemplo, eu fi-la quando estava de férias e mais disponível para escrever. Tudo começou num dia em que eu acordei a cantarolar (risos).

- Pensa ser difícil escrever para fado?

- Eu julgo que não tenho essa arte, não nasci com ela. É verdade que a Amália também começou a escrever tarde, portanto, quem sabe?... (risos)

- Depois da agradável surpresa de ter sido convidada para cantar e trabalhar com os Rolling Stones, como vai essa vossa amizade?

- Vai bem (risos). Ainda há alguns meses estive com eles em Nova Iorque, no lançamento do Stones Project.

- Como é que tudo começou?

- Foi o produtor deles que um dia ouviu um disco meu no Japão. Como eles já andavam à procura de uma fadista para o Stones Project, entraram depois em contacto com os meus agentes holandeses. Mais tarde vim a saber que eles são grandes fãs da Amália Rodrigues.

- A sua amizade com Prince também tem sido muito noticiada. E essa, como é que começou?

- Parece que ele, um dia, recebeu um disco meu (nem ele me sabe dizer como) e a história que ele me conta é que a determinada altura comprou uma casa nova e um dia estava a admirá-la e decidiu pegar um disco novo para ouvir. E pronto, por sorte escolheu o meu disco. O que ele diz é que eu apareci numa altura importante da vida dele.

- Portanto, tem estado sempre no sítio certo na hora certa!

- Pois, julgo que tem sido uma questão de sorte. Depois disso ele foi ver-me cantar a Paris e já veio cá a Portugal. Foi engraçado, porque acabei por ter uma experiência musical com ele ao piano. Mas não posso dizer mais.

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