A relação do diagnóstico tardio e a diálise: dimensão real da doença renal crónica em Portugal é ainda desconhecida
Doença renal crónica verifica-se quando os nefrónios, uma espécie de 'tubinhos' nos rins, vão morrendo lentamente e a eliminação de substâncias desnecessárias do sangue fica comprometida.
Portugal é dos países da Europa com maior taxa de incidência de pessoas a começar diálise todos os anos. Este tratamento acontece em casos de insuficiência renal aguda ou crónica, quando os rins deixam de conseguir desempenhar a sua função. A doença renal crónica verifica-se quando os nefrónios, uma espécie de 'tubinhos' nos rins, vão morrendo lentamente e a eliminação de substâncias desnecessárias do sangue fica comprometida. O recurso à diálise, geralmente, manifesta-se numa fase avançada da doença e quando o diagnóstico é feito tardiamente. Atualmente, ainda não existem dados suficientes para conhecer a real dimensão deste problema de saúde no País, mas um novo estudo promete alterar esta evidência.
Ao Correio da Manhã, Edgar Almeida, Presidente da Sociedade Portuguesa de Nefrologia, adverte para o facto de a doença renal crónica afetar cerca de 10% da população adulta em Portugal. Isto significa que quase um milhão de pessoas no País sofre com esta doença, sendo que existirão, certamente, muitos mais que ainda não foram diagnosticados. O nefrologista alerta, por isso, para a importância do diagnóstico precoce de maneira a evitar ao máximo a diálise que deixa os doentes reféns de uma máquina e da transplantação. Esta prevalência estará associada à aliança entre o envelhecimento da população e o mau controlo dos fatores de risco da doença renal crónica. São eles a diabetes, a hipertensão, o excesso de peso, doenças hereditárias e, até, a administração de alguns medicamentos.
"Lenta, progressiva e silenciosa", é assim que o nefrologista Edgar Almeida descreve a doença renal crónica e adverte para o facto do "rim não doer". Cada rim tem cerca de um milhão de nefrónios que se vão destruindo um por um. "Enquanto a quantidade de nefrónios destruídos for relativamente pequena, os outros continuam a trabalhar e até trabalham mais para compensar", afirma o profissional. Por isto mesmo, os médicos devem ter especial atenção para o acompanhamento regular de valores pouco comuns nas análises dos doentes que podem dar a entender que os rins não estão a funcionar corretamente.
"O que nos preocupa muito é que o nosso País tenha uma incidência tão elevada de doença renal e de pessoas a fazer diálise. Precisamos de saber exatamente o porquê". O estudo desenvolvido pela Sociedade Portuguesa de Nefrologia, a Associação Portuguesa de Insuficientes Renais e a farmacêutica Boehringer Ingelheim promete dar algumas das respostas procuradas.
"O estudo que está em marcha tem como objetivo ter uma noção muito correta da prevalência da doença renal em Portugal. Vão ser candidatos a participar todas as pessoas que estejam inscritas no Sistema Nacional de Saúde. Vai haver uma amostragem aleatória (cerca de três mil pessoas em todo o País) que vão ser informadas que vai haver este rastreio e, se estiverem de acordo, iremos fazer com que participem".
Em conversa com o CM, Edgar Almeida explica que o diagnóstico é relativamente simples de se fazer. Através de uma análise ao sangue é possível detetar a creatinina que "mostrará como o rim está a funcionar". A urina também será analisada.
"Temos de fazer aqui uma campanha de sensibilização mesmo junto dos profissionais de saúde, para a importância de detetar e iniciar precocemente o tratamento das pessoas com doença renal crónica", assevera.
Reféns de diálise
Quem faz hemodiálise, geralmente, tem de se deslocar, três vezes por semana, a uma clínica para fazer o tratamento de quatro horas. Esta obrigatoriedade "impacta significativamente a qualidade de vida", refere o nefrologista. "As pessoas se quiserem manter uma atividade profissional têm que fazer modificações na sua vida. Há pessoas, por exemplo, que para manter a atividade profissional preferem fazer a hemodiálise durante o período da noite".
Edgar Almeida adverte para o facto dos doentes "estarem presos a uma máquina". "A pessoa quer ir a um sítio e tem que saber se nesse sítio há clínica e disponibilidade para fazer a diálise", acrescenta.
O médico explica ainda que alguns doentes fazem diálise peritoneal, o que permite que o tratamento seja feito em casa. Ainda assim, "independentemente da modalidade" existirá sempre impacto negativo na qualidade de vida.
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