Acesso a terapêuticas biológicas ainda é "uma corrida de obstáculos" para doentes com asma grave

Existem já tratamentos biológicos com maior capacidade para controlar crise agudas de asma. Mas o acesso é restrito.

05 de maio de 2026 às 11:22
Milhares de portugueses são doentes asmáticos Foto: Getty Images
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À primeira vista, praticar exercício físico, usar detergentes com cheiros fortes para fazer limpezas, estar perto de alguém que fuma e em ambientes com ar-condicionado, subir escadas ou, simplesmente, dar uma gargalhada, são atividades comuns ao dia a dia. Mas para quem sofre de asma grave - doença inflamatória crónica dos brônquios – podem ser gatilhos para o despoletar de sintomas como fadiga, infeções respiratórias, tosse compulsiva, respiração alterada, pieira ou sensação de aperto no peito.

Estes são sinais que, no início, podem ser desvalorizados e facilmente associados ao stress e ansiedade.

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Cerca de 700 mil pessoas são asmáticas em Portugal, sendo que "menos de 5%" fazem parte do subgrupo dos doentes com asma grave, refere João Fonseca, médico imunoalergologista. Esta terça-feira, 5 de maio, assinala-se o Dia Mundial da Asma.

Ana Gonçalves, presidente da Associação Asma Grave, tem esta doença muito presente na sua vida. Com apenas seis meses, o filho recebeu este diagnóstico, e poucos anos depois foi a vez da irmã. Há cerca de seis anos foi Ana quem recebeu o mesmo diagnóstico. A certeza de que sofria de asma grave foi-lhe dada pela médica da especialidade que, no privado, já seguia o filho desde bebé. Em 2020, Ana fez algumas infeções respiratórias que lhe provocaram “tosse persistente, dificuldade em falar, andar e de fazer o que quer que seja”, conta ao Correio da Manhã.

A qualidade de vida de Ana passou a estar, diariamente, comprometida. O que faz ou quer fazer é pensado ao pormenor, evitando tudo o que lhe poderá vir a provocar uma crise de asma.

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Ao CM,  João Fonseca explica que quem sofre de asma grave tende, inclusivamente, a "dormir sentado" durante um momento de crise. "Estes episódios de agudização acontecem várias vezes por ano, às vezes mensalmente, e fora destas agudizações, a pessoa não tem uma vida normal", afirma o especialista.  

O impacto desta doença é tanto pessoal como profissional. As crises frequentes são sinónimo de mais idas ao hospital e, consequentemente, "mais faltas no trabalho, perdas nos salários e até algumas reformas antecipadas", conta João Fonseca, acrescentando que a produtividade também fica em risco com a qualidade do sono ou até mesmo com a incapacidade de desempenhar um trabalho onde a atividade física é uma exigência.

Para minimizar as crises de quem sofre com asma grave, são, geralmente, prescritos corticosteroides orais ou injetáveis como uma espécie de "medicamento da salvação", refere João Fonseca. Mas a sua administração a longo prazo não é aconselhada. A estes tratamentos estão associados efeitos secundários: problemas na saúde ocular, nos ossos, diabetes, hipertensão, entre outros.

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Terapêuticas biológicas

Para trazer bem-estar aos doentes asmáticos, existem já terapêuticas biológicas com maior capacidade para controlar crises agudas. O imunoalergologista João Fonseca explica que estas terapêuticas consistem em "moléculas grandes que atuam especificamente em sítios muito concretos da cascata imunológica". "São muitíssimo seguras e, portanto, é o melhor dos dois mundos, mas de facto, o acesso é muito mau, particularmente em Portugal. É uma corrida de obstáculos", acrescenta o profissional.

Para quem sofre de asma grave e necessita de usufruir de tratamentos biológicos o caminho a percorrer é longo e, essencialmente, demorado. A doença de asma grave não foi incluída na portaria 261, que entrou em vigor em 2024, e que visa que este tipo de medicamentos, também administrados a doentes com colite ulcerosa ou de doença de Crohn por exemplo, possam ser prescritos no setor privado e comparticipados pelo Estado. Isto significa que os doentes com asma grave e que precisem deste tipo de tratamentos têm, obrigatoriamente, que ser referenciados por um médico de família para ser admitidos no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Se fizerem parte dos milhares de portugueses sem médico de família, têm de esperar pela disponibilidade de um médico do Centro de Saúde para os referenciar.

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Conseguido o primeiro passo, é preciso esperar pela consulta, sendo que nos casos de imunoalergologia os tempos de espera vão muito além dos 120 dias recomendados. “Em março, o tempo de espera na ULS do Alentejo Central era de 582 dias”, refere Ana Gonçalves, explicando que, “depois da decisão do médico do SNS a favor da terapêutica biológica, existem outros obstáculos: os orçamentos e os critérios de cada comissão de farmácia, que nem sequer são uniformes ao longo de todo o País”.

Para ter acesso às terapêuticas biológicas, Ana Gonçalves passou a ser seguida no SNS. E desde 2023, que têm sido submetida a este tipo de tratamentos para tentar controlar a doença.

SNS sobrecarregado

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A presidente da Associação Asma Grave considera que seja “uma falácia” o “custo elevado que os aumentos destas terapêuticas comportam”, uma vez que “prolongar o tratamento dos corticosteroides, em suprimento de um tratamento biológico, acaba por prejudicar diretamente a vida das pessoas e causar um impacto enorme no SNS também".

O imunoalergologista João Fonseca defende o mesmo. Sem tratamentos biológicos, os doentes sobrecarregam o SNS. Muitos dos exames anteriormente feitos no privado voltam a ser repetidos no público e os doentes têm maior necessidade de ir às urgências e a consultas médicas. O médico frisa que, no que respeita ao financiamento, "cada um destes fármacos biológicos tem um contrato com o Infarmed, pelo que, se o teto máximo de despesa decretado pelo Governo for ultrapassado, cabe às empresas pagar". Além disto, não é a todos os doentes com asma grave que é aconselhada a administração deste tipo de terapêuticas.

A não inclusão da asma grave neste regime excecional levou a Associação Asma Grave, juntamente com a Plataforma Saúde em Diálogo, a Associação de Doentes com Lúpus e a Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas, a enviar, em 2025, uma carta aberta à ministra da Saúde, secretária de Estado da Saúde e deputados da Assembleia da República. Neste documento pediam o alargamento deste regime aos doentes com asma grave, que continuam dependentes do SNS. Embora, não tenha havido uma resposta formal, Ana Gonçalves explica ao Correio da Manhã que o “caminho está a ser percorrido no bom sentido” e que já houve “audiências com vários grupos parlamentares e com a Comissão Parlamentar de Saúde”.

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