"O corpo começa a atacar o próprio organismo": o impacto do stress e da ansiedade no sistema imunitário
Médica psiquiatra Maria Moreno explica que o organismo não distingue verdadeiramente sofrimento emocional de ameaça física.
O stress e a ansiedade são frequentemente desvalorizadas ou reduzidas a uma fragilidade psicológica, mas estas "coisas da cabeça" têm um impacto muito mais profundo. O CM falou com a médica psiquiatra Maria Moreno, que explica que o estado mental influencia diretamente o funcionamento do corpo, incluindo o sistema imunitário.
O organismo não distingue verdadeiramente sofrimento emocional de ameaça física. "As pessoas costumam imaginar a ansiedade como 'uma coisa da cabeça', mas o corpo não é capaz de fazer esta distinção como nós. Não somos um conjunto de gavetas", descreve a psiquiatra.
Quando o cérebro interpreta uma situação como ameaça, ativa mecanismos biológicos de sobrevivência. A adrenalina aumenta, o cortisol (a "hormona do stress") é libertado, o coração acelera e o corpo entra em estado de alerta máximo. "A prioridade passa a ser sobreviver à ameaça", afirma Maria Moreno. O problema surge quando esse estado deixa de ser temporário e passa a ser permanente.
Um organismo em "modo sobrevivência"
O stress agudo pode ser útil. Em situações de perigo imediato, ajuda o organismo a reagir rapidamente. Por exemplo, se tivermos de fugir de um leão, este instinto é bastante conveniente. Mas a médica explica que "hoje, o 'leão' pode ser uma relação tóxica, um ambiente profissional com objetivos desmedidos ou pais assoberbados que tentam equilibrar uma vida profissional exigente e três filhos sem qualquer apoio".
O corpo humano não foi desenhado para viver continuamente em hiperalerta. Com o tempo, o excesso prolongado de cortisol e adrenalina começa a desgastar o organismo. Maria Moreno compara o processo a um motor constantemente levado ao limite: "Meter a primeira mudança funciona super bem, mas nós não podemos fazer uma viagem até ao Algarve em primeira. O motor vai gripar. É isso que acontece ao organismo."
A exposição prolongada ao stress altera o sono, a memória, o metabolismo, a regulação emocional e também a imunidade. Ao mesmo tempo, surgem alterações neurobiológicas reais: maior ativação da amígdala cerebral, responsável pela deteção de ameaças; dificuldades de regulação emocional e aumento de mediadores inflamatórios.
Os sintomas acabam por aparecer, muitas vezes de forma difusa: cansaço persistente, dores musculares, problemas gastrointestinais, queda de cabelo, alterações de pele, enxaquecas ou dificuldades de memória.
A ansiedade enfraquece as defesas?
Pessoas sob stress constante tendem a relatar infeções frequentes, maior fadiga e agravamento de doenças inflamatórias e autoimunes. Na prática clínica, esta ligação é visível diariamente. "Há pessoas que chegam a dizer: 'estou sempre doente, apanho tudo'", conta a médica.
Doenças como psoríase, colite ulcerosa, artrite reumatoide, eczema ou alopecia podem agravar-se em períodos de maior desgaste emocional. "O corpo parece perder a capacidade de distinguir adequadamente uma ameaça externa de uma ameaça interna e começa a atacar o próprio organismo", explica.
Quando o corpo deixa de conseguir desligar o alarme
Outro dos efeitos do stress crónico é a hipervigilância corporal. O cérebro passa a interpretar sensações normais como sinais de perigo iminente. "Uma taquicardia no ginásio pode ser interpretada como uma arritmia. Um desconforto gastrointestinal transitório torna-se sinal de doença grave", descreve Maria Moreno.
Segundo a psiquiatra, o sistema nervoso fica "profundamente convencido" de que algo mau está prestes a acontecer, mesmo em momentos de descanso. Esse estado contínuo de alerta impede o organismo de recuperar plenamente e contribui para um desgaste físico silencioso, muitas vezes normalizado socialmente.
"Muitas vezes não é um problema das pessoas ‘fracas’. Pelo contrário. São frequentemente as mais funcionais, mais responsáveis e mais habituadas a aguentar tudo que mais problemas vão ter", sublinha a médica.
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