Barra Cofina

Sabia que dar 10 mil passos por dia reduz o risco de mortalidade? Saiba porquê

Uma empresa de pedómetros precisava de um nome e o famoso número propagou-se – sem validade científica.
Por Sónia Bento 19 de Novembro de 2019 às 18:27

Quando não cumpre a meta dos 12 mil passos diários, Susana Morgado confessa que nem dorme bem. Há cerca de dois anos, numa tentativa de ser menos sedentária, começou a dar mais atenção à app Saúde, do iPhone, que conta os passos e os quilómetros percorridos. Entusiasmou-se e importou outras apps, como a Steps­App ou RunKeeper, que têm mais funcionalidades, entre as quais a velocidade e o número de calorias queimadas. A secretária de administração, de 47 anos, impôs a si própria a meta dos 12 mil passos, cerca de 9,5 quilómetros diários, e se ao fim do dia ainda lhe faltarem 3 ou 4 mil, não se deita enquanto não der as voltas necessárias ao quarteirão. "Se não faço a minha média, fico logo com a sensação de que estou mais inchada e pesada", diz.

A recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) para fugir ao sedentarismo é dar pelo menos 10 mil passos por dia, o equivalente a 8 quilómetros, e há milhões de pessoas em todo o mundo que seguem a regra à risca. Agora, um novo estudo concluiu que não é preciso tanto para reduzir os riscos de mortalidade, associada a doenças cardíacas, obesidade e diabetes. I-Min Lee, professora de Epidemiologia na Universidade de Harvard e investigadora de atividade física, quis por à prova o padrão dos 10 mil passos, observando a movimentação de 16 mil mulheres norte-americanas com uma idade média de 72 anos – que entre 2011 e 2015 utilizaram um sofisticado medidor de atividade.

Começou com o "Manpo-kei"
A conclusão foi que com 4.400 passos por dia essas mulheres tiveram taxas de mortalidade significativamente menores: 41% abaixo das menos ativas, que deram aproximadamente 2.700 passos. Apesar de os 4.400 já representarem um excelente resultado, o estudo concluiu também que as taxas de mortalidade diminuíram à medida que os passos diários aumentaram, até aos 7.500 – a partir desse número, a vantagem já não era clara. "Ficámos surpreendidos ao verificar que um número relativamente baixo de passos estava associado a uma enorme redução na mortalidade", revela Lee, autora principal do estudo publicado no Journal of American Medical Association.

Mas, afinal, quem impôs o padrão dos 10 mil passos? Segundo explica I-Min Lee no relatório, o conceito foi criado por um fabricante de relógios japonês que, em 1965, lançou um dispositivo chamado Manpo-kei, ou "medidor de 10.000 passos". O número foi usado não como medida de saúde ideal, mas como ferramenta de marketing, sem qualquer evidência científica. Porquê? Porque a empresa japonesa que vendia pedómetros precisava de um nome e o caráter japonês para 10 mil assemelhava-se a um homem a andar.

O médico Martino Gliozzi, um dos coordenadores da Walk with a Doc – uma iniciativa internacional a que a Unidade de Saúde Familiar da Baixa, em Lisboa, se associou, e que todos os meses promove uma caminhada – diz que os 10 mil passos são um "número aleatório": "Recomendo aos meus pacientes, que não tenham limitações físicas ou outros problemas de saúde, que caminhem pelo menos 30 minutos por dia, sem ser em passo de ir às compras."

Vergonha e ansiedade
Os dispositivos de fitness também têm um lado negro 
Contar os passos e controlar as calorias pode provocar ansiedade e vergonha. Num estudo publicado no Journal of American Medical Association, pessoas com excesso de peso que usaram dispositivos de fitness todos os dias perderam menos peso do que as que não usaram. Outras não estavam mais saudáveis do que um ano antes de os começarem a usar.

Notícias Recomendadas