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Porque ainda desvalorizamos a hipoglicemia?

As hipoglicemias são a segunda maior causa de ida às urgências hospitalares das pessoas com diabetes em Portugal. São cerca de um milhão de pessoas. A enfermeira Dulce do Ó explica a importância de vigiar estas alterações.
Por Vanda Marques 11 de Dezembro de 2019 às 16:49

Falamos de pouco açúcar no sangue. Só que as hipoglicemias - que resultam desta baixa concentração dos níveis de glicose no sangue - podem ter consequências graves nas pessoas que têm diabetes. O que acontece é que estes episódios podem surgir por erros na alimentação, na utilização de alguma medicação oral para a diabetes ou excesso de insulina, exercício físico não programado e sem suporte alimentar e/ou consumo excessivo de álcool.

Os casos mais preocupantes são as hipoglicemias noturas, que acontecem quando as pessoas com diabetes não se apercebem do que está a acontecer, podendo até correr risco de vida. Por isso é que a 
campanha "Hipoglicemia. Uma já pode ser demais", criada pela Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, Federação Portuguesa de Associações de Pessoas com Diabetes, Sociedade Portuguesa de Diabetologia e Sociedade Portuguesa de Endocrinologia Diabetes e Metabolismo, com o apoio da Novo Nordisk, quer alertar os cuidados e para a importância de procurar tratamento e ajuda correta. É que como revelam os dados da Associação, "mais de metade das pessoas que vivem com diabetes (55%) raramente ou nunca informam o seu médico acerca dos episódios de hipoglicemia e muitos, com medo, acabam por reduzir a sua dose de insulina sem consultar o médico, o que compromete o controlo glicémico."

A enfermeira coordenadora do Departamento de Estudos Projetos e Ensaios Clínicos na Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, Dulce do Ó, explica que é "fundamental identificar as causas" das hipoglicemias para desta forma prevenir novos eventos.

Quais os riscos das hipoglicemias?
A hipoglicemia, vulgarmente designada por descida de açúcar no sangue, caracteriza-se pela existência de um valor da glicemia inferior a 70 mg/dl. O grau de risco dos episódios de hipoglicemia depende da gravidade do episódio, do tipo de tratamento realizado e da duração do mesmo. No caso de hipoglicemias severas podem surgir convulsões ou o coma. Atualmente existe a evidência da associação entre a hipoglicemia e a ocorrência de eventos cardiovasculares, como por exemplo o enfarte do miocárdio e a insuficiência cardíaca.

Qual é a probabilidade de uma pessoa com diabetes ter episódios de hipoglicemia? Com que frequência têm hipoglicemias?
A hipoglicemia está amplamente relacionada com a administração de insulina ou de terapêutica oral que estimula a libertação da insulina. As causas mais frequentes são o atraso ou falha de uma refeição, fazer uma refeição pobre em Hidratos de Carbono, aumento da atividade física sem compensar com a alimentação que possa compensar o gasto, não existir o cuidado de reduzir a insulina ou medicação libertadora de insulina. O aumento da frequência das hipoglicemias está relacionado com a ausência de comportamentos preventivos relacionados com a alimentação, atividade física e terapêutica. Estes ajustes são previamente combinados com a equipa de saúde.

Que cuidados devem ter para as evitar?
Como referido anteriormente, para prevenir as hipoglicemias é importante que se relacionem os diferentes aspetos do regime terapêutico como a alimentação, a atividade física, a terapêutica e valores da glicemia. Realizar o autocontrolo diariamente, manter uma alimentação variada e equilibrada e com hidratos de carbono suficientes para as necessidades, controlar os efeitos do exercício físico através das glicemias, ajustar a insulina e a alimentação e, ter técnica adequada de administração de insulina. Simultaneamente, a análise dos fatores precipitantes das hipoglicemias, após a recuperação de um episódio de hipoglicemia, é fundamental para identificar as causas e prevenir novos eventos.

Quais são os sinais de alarme? 
Os sintomas das hipoglicemias variam consideravelmente entre as pessoas, em função da idade, tratamento e anos de diagnóstico de diabetes, podendo modificar-se ao longo do tempo. Os sintomas mais frequentes são os tremores, palpitações, sensação de fome, fraqueza, suores frios, palidez, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração, sonolência, dores de cabeça, alterações do comportamento, tonturas e confusão mental.
As hipoglicemias noturnas são mais difíceis de detetar e podem manifestar-se apenas através de suores noturnos, pesadelos e dores de cabeça matinais. 

Qual é o impacto negativo da hipoglicemia a curto e a longo prazo?
Os episódios de hipoglicemias podem representar uma barreira relevante para a compensação da diabetes e adesão terapêutica, uma vez que, por medo, ansiedade ou por se associarem a uma redução da perceção da qualidade de vida, aumento do absentismo e redução da produtividade podem desencadear comportamentos "defensivos".
A longo prazo a recorrência de episódios de hipoglicemias pode agravar a função cognitiva e, perante outras comorbilidades, como doença cardiovascular e cerebrovascular, tem um risco aumentado de alterações cognitivas e cardíacas mais severas.  

De que forma os familiares podem auxiliar?
A família usualmente representa um importante pilar na vida das pessoas com diabetes. Por esse motivo, se os elementos que a constituem estiverem informados sobre a prevenção, sintomas e tratamento das hipoglicemias conseguem apoiar as pessoas com diabetes. De notar que, no estudo português DAWN2 (Diabetes Attitudes, Wishes and Needs), desenvolvido pela APDP e com o apoio da Novo Nordisk, mais de 80% dos familiares e cuidadores gostariam de saber como melhor apoiar as pessoas que cuidam, bem como consideraram muito importante melhorar a informação geral sobre a diabetes. Para além disso, 64% dos familiares das pessoas com diabetes tipo 1 e 48% das pessoas com diabetes tipo 2 referiram preocupação com o risco de ocorrem hipoglicemias durante a noite.

Dizem que "Mais de metade das pessoas que vivem com diabetes (55%) raramente ou nunca informam o seu médico acerca dos episódios de hipoglicemia." Porquê?
A evidência diz-nos que cerca de 90% das pessoas com diabetes insulinotratadas já experienciaram episódios de hipoglicemias. Estes episódios, sendo de fácil tratamento e recuperação, são frequentemente desvalorizados. No entanto, se os episódios de hipoglicemias interferirem nas atividades diárias das pessoas ou se forem noturnos habitualmente são discutidos em consulta.
Tendo em consideração que as pessoas no seu dia a dia tomam decisões sozinhas sobre a autovigilância das glicemias, alimentação, atividade física e terapêutica, torna-se necessário que detenham a informação suficiente, para fazerem escolhas adequadas às suas necessidades, contribuindo para a prevenção das hipoglicemias e compensação da diabetes. O diálogo com a equipa de saúde sobre estes aspetos será facilitador da aquisição das competências necessárias para a prevenção e tratamento adequado das hipoglicemias.

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