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Quer viver bem? Cuide dos seus intestinos

Doenças como a osteoporose ou o cancro estão relacionadas com desequilíbrios digestivos. Ou seja, se cuidar do intestino aumenta as defesas e regenera o seu corpo
Por Lucília Galha 15 de Outubro de 2019 às 12:42
Conversar sobre intestinos não é, à partida, particularmente atraente. E se aprofundarmos o tema e falarmos sobre os sons, o cheiro, ou sobre desarranjos intestinais, a coisa piora. Calma, não desista já. Porque também lhe podemos dizer que o intestino tem neurónios e um certo nível de memória. E que é possível combater a depressão com uma boa digestão. Ou mesmo que há crianças autistas que melhoram depois de uma revisão ao seu sistema digestivo. Já conseguimos a sua atenção?

"Há muitos anos que tratamos o intestino como um órgão pouco atraente e sem uma função importante", diz a médica espanhola Irina Matveikova. Mas, recentemente, isso mudou. "Descobriu-se que dentro dos intestinos existem dois quilos de bactérias e que estas bactérias regulam o nosso sistema imunitário", explica a especialista em Endocrinologia e Nutrição. O que significa que temos recursos para combater uma série de doenças degenerativas, como a osteoporose. No livro O Intestino Feliz, editado em Portugal pela Esfera dos Livros, Irina Matveikova revela porque é que o futuro da Medicina passa pelo sistema digestivo.

O intestino é o segundo cérebro
Há cerca de 15 ou 16 anos, a ciência demonstrou que o intestino delgado é percorrido por uma rede extensa de neurónios, idênticos aos neurónios cerebrais. Esta rede, denominada sistema nervoso entérico ou "segundo cérebro", tem a capacidade de libertar as mesmas substâncias químicas que o cérebro, como a dopamina e a serotonina (a chamada hormona da felicidade) – que influenciam não só o metabolismo e a digestão, como os estados de ânimo. "Sabe-se que 90% da serotonina é produzida e armazenada nos intestinos", diz Irina Matveikova. Daí que, quando comemos bem e fazemos uma boa digestão, tenhamos uma sensação de bem-estar. Em última análise, isto significa que é possível combater a depressão através do sistema digestivo. "Se os antidepressivos funcionam bem ao nível do cérebro superior, onde processamos somente 10% de serotonina, o que fará à que temos no intestino?", interroga a especialista.

O cérebro digestivo é mais intuitivo
Qual dos dois cérebros será então mais inteligente? "Não podemos comparar porque têm funções diferentes", considera a médica espanhola. Contudo, admite que o cérebro digestivo tem uma inteligência mais autêntica e intuitiva. "Por isso, achamos que nos trai em alturas críticas. Por exemplo, quando temos uma reunião e ficamos com cólicas ou mal da barriga, pensamos: ‘Como é que o meu corpo me pôde fazer isto?’ Na verdade, é a forma de nos avisar como está o nosso interior", explica. Daí que seja importante ter os dois cérebros em sintonia, ou seja, estar igualmente atento aos sinais digestivos, como estamos a uma dor de cabeça.

Os intestinos têm memória?
Ainda não há uma resposta linear, diz a especialista. Mas sabe-se que há situações que os intestinos recordam de alguma forma. "Por exemplo, se uma pessoa tem, desde a infância, a memória inconsciente sobre uma certa briga ou situação traumática, e enfrenta uma situação parecida, o primeiro sinal dá-se cá dentro, nos intestinos. Sentimos uma vertigem, uma dor de barriga ou ficamos com diarreia. Isso é a memória de um medo, são os intestinos a falarem connosco", diz Irina Matveikova. Nesse sentido, a reacção intestinal é até mais rápida do que a cerebral, ou seja, primeiro os intestinos dão sinal e só depois é que processamos com lógica o que se está a passar.

A relação entre o autismo e o sistema digestivo
Pode dizer-se que os transtornos de comportamento, como o autismo e o défice de atenção, são também manifestações de problemas fisiológicos do corpo. Há estudos que demonstram que as crianças com este tipo de transtornos têm sistemas imunitários pouco maduros e permeabilidade intestinal. "Através de mucosas intestinais pouco protegidas, entram substâncias tóxicas que afectam o cérebro. Por isso, é benéfico para estas crianças fazerem uma revisão aos seus sistemas digestivos", explica a médica espanhola. Irina Matveikova segue alguns destes casos: "Tenho um rapaz de 8 anos, de San Sebastian, com um nível de autismo tal que quando veio à consulta não olhava para mim, nem falava; agora, quando entra, olha-me nos olhos e cumprimenta- -me. Até então, os pais só tinham consultado psicólogos, eu fiz- -lhe uma análise mais profunda e percebi que lhe faltava vitamina D, que tinha muitas bactérias más no intestino e um nível de hipotiroidismo. Corrigimos estes problemas metabólicos e ele melhorou."

O envelhecimento é reversível
Que a intoxicação do intestino promove processos degenerativos não é uma novidade – já no início do século XX um Nobel da Medicina, Ilya Mechnikov, tinha comprovado esta relação. Contudo, é possível olhar para a questão ao contrário e admitir que é possível viver uma vida mais longa se nos alimentarmos adequadamente e cuidarmos do nosso sistema digestivo. "É um ciclo vicioso: quando há desordens digestivas, os sistemas metabólico, hormonal, etc. são afectados, e isso acelera o envelhecimento", explica a médica. "Temos 300 metros quadrados de mucosas digestivas, e se nessa área há algo muito agressivo, o nosso corpo começa a responder."
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