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Podem as festas de Covid-19 ser mesmo uma solução?

Imunologista diz que festas para contrair Covid-19 podem tornar-se comuns. Outros especialistas avisam que ainda é cedo para ter certezas.
Por Diogo Barreto / SÁBADO 23 de Outubro de 2020 às 19:18
Paul Lehner, professor de medicina e imunologia da Universidade de Cambridge, avisou esta semana, numa conferência de imprensa, que acredita que o novo coronavírus se vai tornar endémico e que as crianças podem até vir a fazer "festas" para contraírem a doença.

O especialista avisou que o vírus veio para ficar e que as festas podem até tornar-se norma para os mais novos, enquanto o risco de ficarem gravemente doentes é baixo. "Vou ser um optimista quanto a isto e dizer que não acho que este vírus seja tão diferente dos outros que nos vá exterminar a todos, ou obrigar-nos a viver para sempre desta forma peculiar que estamos a viver agora", disse, acrescentando: "Acho que se vai tornar semelhante aos outros quatro coronavírus endémicos que circulam por aí [e que provocam as constipações e gripes]. Ou vamos ser vacinados ou apanhá-los quando somos crianças - e as crianças raramente ficam doentes com o vírus".

Crente na imunidade a longo prazo, Lehner explicou: "Vamos apanhá-la quando somos jovens e não ficamos doentes. As pessoas vão ser convidadas para festas - como as festas da varicela - para não a apanharem [Covid-19] quando forem mais velhas", disse, mas acrescentando que pode não ser assim. "Vamos ter de esperar para ver."

Mesmo relativamente aos casos de reinfeção, o médico mostrou-se confiante. "Mais de 40 milhões de pessoas foram infetadas no mundo inteiro e, da última vez que olhei, houve apenas quatro casos de reinfeções severas. Por isso acho que devemos estar atentos, temos de nos preocupar com isso, mas temos de ser optimistas", explicou.

David Heymann, professor de doenças infecciosas, mostrou-se mais reservado quanto a estas festas: "Temos de nos lembrar que ainda não sabemos os efeitos a longo prazo da infeção, mesmo entre os mais jovens e assintomáticos", lembrando ainda que há poucas informações sobre a imunidade a longo prazo.

A reinfeção

Constipações comuns provocadas por outros coronavírus costumam causar reinfeções no prazo de um ano, mas os especialistas esperavam que este novo coronavírus pudesse ser mais parecido com o SARS ou o MERS - com uma imunidade que durava anos em vez de meses.

No entanto, apesar de ter menos de um ano, o novo coronavírus já infetou a mesma pessoa mais do que uma vez em pelo menos quatro casos. Por isso muitos cientistas reforçam a importância de desenvolver tratamentos eficazes, em vez de se pensar apenas numa vacina, já que a vacina pode não dar uma imunidade total e duradoura.

Nos Países Baixos, a virologista Marion Koopmans, assessora da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Governo holandês, confirmou que o caso identificado naquele país se trata de um cidadão holandês, um idoso com um sistema imunológico "deteriorado", que contraiu pela segunda vez o novo coronavírus desde o início da crise pandémica em março passado.

"Todas as infeções por SARS-CoV-2 [o novo coronavírus responsável pela doença covid-19] têm uma impressão digital diferente, um código genético. As pessoas podem possuir vestígios do vírus durante muito tempo após o contágio e ocasionalmente expelir algum material genético [ácido ribonucleico, RNA – Ribonucleic Acid, no nome inglês] do vírus", afirmou Marion Koopmans, em declarações à televisão holandesa NOS.

"O facto de serem possíveis reinfeções pode significar que uma vacina não seria completamente protetora. Mas como o número de casos é minúsculo, isso não nos deve dissuadir de desenvolvê-las", refere um professor na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, Brendan Wren, citado pela organização britânica Science Media Centre (SMC).
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