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A vida depois da morte da mãe, dos filhos, da irmã

Ana diz que tinha duas hipóteses, deixar-se morrer ou virar uma leoa. Escolheu a última: toma conta do neto há seis anos.
Por Ana Taborda 11 de Outubro de 2019 às 15:54
Violência doméstica
Violência doméstica FOTO: Getty Images
"Uma vez quase passei com o carro por cima dele" - Ana, 70 anos, perdeu os dois filhos
"A tua avó vai ser a última a morrer." Disse muitas vezes isto ao meu neto. Queria que eu visse a família toda morrer primeiro, para sofrer mais. Também lhe dizia que ia matar a mãe e que ainda tinha de pensar no que faria com ele. A primeira vez que vi a minha filha com medo ela estava grávida. Tinha acabado de fazer a amniocentese quando me apareceu em casa a chorar. Nessa manhã encontrou uma faca debaixo da almofada dela, na cama. E decidiu confrontar o monstro. Se digo o nome dele? Não tenho problema em dizer, mas é o monstro. O monstro disse-lhe que tinha ido descascar uma peça de fruta, já não sei se uma maçã ou uma pera, e que se tinha esquecido da faca. Mas disse isso com um ódio gigante nos olhos e ela ficou com medo.

Quando o meu neto nasceu achei melhor dar-lhes algum espaço. Até que dois dias depois da cesariana a minha filha me telefonou a pedir para eu a ir ver ao hospital, porque já não aguentava mais. Quando chegámos o meu marido quase caiu para o lado: ele estava dentro do quarto, nu. Foi aí que soubemos que a tinha tentado violar. Nesse dia liguei para a mãe dele, que estava em Lisboa, e ela foi buscá-lo. O ódio dele por mim aumentou. "Tu vais-me pagar, isto vai-te sair caro."

Disse-lhe muitas vezes que era um psicopata, um psicopata muito inteligente, falava 10 línguas, tinha três cursos, mas não conseguia conviver com ninguém: antes de vir para Lisboa os pais montaram-lhe um escritório em casa, onde fazia traduções; quando comprou casa com a minha filha quis uma mesa de sala para 12 pessoas, onde coubesse a família dele e mais ninguém. "Se eu não tenho amigos, tu também não tens de ter", dizia-lhe.

Tudo piorou com o nascimento do meu neto. O pós-parto da minha filha foi horrível. Ela queria ir para minha casa, mas o monstro mandou vir a mãe. Eu quase não ia lá. De vez em quando também batia na mãe, era o irmão dele que a ia socorrer e nós levávamos o menino. Disse muitas vezes à minha filha que ele ia ser um péssimo pai. Quando ela engravidou reagi muito mal.

O primeiro episódio de violência a que assistimos foi em julho de 2010, o menino tinha 1 ano e meio e os meus outros netos, filhos do meu filho, 4 e 7 anos. Entrou na minha casa aos gritos: "Vou-vos matar a todos e vai ser hoje." Só tive tempo de fechar os três meninos no quarto, de trancar a cozinha para ele não ir buscar facas e de gritar por socorro. Veio muita gente, a senhora da lavandaria e a da imobiliária e os funcionários do trabalho do meu marido, que era mesmo ali em baixo.

Entretanto chegou a minha filha e ele ainda lhe deu uns murros. A mim também me empurrou e bateu com muita força. A polícia não se chegou a cruzar com o monstro – subiram pelo elevador e ele fugiu pelas escadas – e ninguém ouviu as testemunhas. O meu neto mais velho, que hoje tem 17 anos, lembra-se de tudo. Foi a primeira vez que ela fez queixa por violência doméstica. Depois, contra a nossa vontade, ainda lhe deu uma oportunidade.

Na altura a minha filha tinha uma empresa de comunicação, fazia assessoria e um dia ele apareceu numa reunião importante de calções, todo sujo e com uma barba falsa – usava muitas vezes disfarces para a vigiar – e sentou-se ao lado dela. Quando o segurança o mandou sair disse que a mulher estava amantizada com aquela gente toda.

No dia 21 de outubro de 2010, quando já estavam separados, foi buscar o menino à escola e a minha filha à estação de comboios. Arrastou-a pelos cabelos até ao carro, sem que ninguém fizesse nada, partiu-lhe o telemóvel e levou-os para o Alentejo. Soubemos de tudo porque ele ligou à psicóloga da nossa filha. Lembro-me de estar na esquadra a bater na mesa a pedir ajuda. Liguei-lhe muitas vezes, mas ele nunca atendeu. Só atendeu a polícia para dizer que estava a passear com a mulher e que ia até ao Algarve. A PSP disse que não podia fazer nada.

Voltaram depois das 4h da manhã, a minha filha arranhada e cheia de sangue, o menino todo sujo, a ele tiveram de o amarrar. Já na esquadra o irmão dele assinou um pedido de internamento. Como não tinha antecedentes criminais, foi condenado a um ano e meio de pena suspensa e a pagar uma multa de 700 euros à APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). Sabe o que disse a juíza? "Ele passou-se, coitado, fez isto por amor, gosta muito de si." O irmão dele dizia muitas vezes: "Ele já nos ameaçou de morte a todos, mas nunca nos matou, não sei porque é que vocês têm medo."

Depois disso a minha filha e o meu neto vieram para nossa casa. O monstro chegava a telefonar 500 vezes por dia para todos os números – o dela, o meu, o do meu marido, o do meu filho e o da minha nora, o fixo – enviava centenas de mensagens. Tive de mudar os números todos. Entretanto começou a furar os pneus e a partir os vidros dos carros. A minha filha só ia para o trabalho acompanhada. Até que um dia vendi a nossa casa ao desbarato, por menos 50 mil euros, e mudámo-nos para um pequeno condomínio fechado.

Durante os primeiros tempos da separação era eu que ia levar o menino a casa dele, sempre com duas testemunhas. O tribunal decretou que ele devia vê-lo todos os dias, entre as 14h e as 20h, e depois conseguiu mesmo a guarda partilhada. Chamava-me nomes horríveis, dizia ao menino que eu era tão puta como a mãe. Uma vez quase passei com o carro por cima do monstro, só não o fiz porque estava com o meu neto.

Nos dias dele, para não falar, o meu neto ia drogado para a escola, passava os dias a dormir, nem comia. Encontraram sete frascos de Atarax na casa dele. Hoje tem 10 anos e já me disse: "Vó, eu andava sonâmbulo." Continuou sempre a perseguir a minha filha. Tinha um spray que a fazia desmaiar e deve ter sido assim que instalou um software no telemóvel dela, para a vigiar. Dizia ao filho: "Sabes onde está a tua mãe? Está aí com esses homens, as mulheres são todas umas putas, têm de ser todas mortas."

No último fim de semana lá em casa, a minha filha pediu ao irmão que a ajudasse e ele disse que ia falar com o monstro. A 13 de dezembro de 2013 o meu filho desapareceu. Ele era o único suspeito, mas gozava com a minha filha, dizia-lhe que o irmão tinha sido visto em Lisboa, na Margem Sul ou em Quiaios, ao pé de Aveiro, e ela largava tudo e ia procurar o irmão. Até que o menino disse: "O tio nunca mais vai aparecer, desapareceu para sempre." Mais tarde confessou informalmente o homicídio do meu filho, mas nunca assinou a confissão e recusou sempre dizer onde estava o corpo. Ainda hoje não sabemos. A 3 de março de 2014 matou a minha filha, deu-lhe uma facada e pô-la na banheira com água a ferver. No carro dele encontraram 70 itens de material macabro, algemas, correntes, luvas, entre muitas outras coisas. Disse ao tribunal que os tinha porque ainda não sabia como a ia matar.

Já tive muita raiva, muito ódio. A primeira vez que fui à Segurança Social disseram-me que a minha filha tinha morrido porque quis, podia ter ido para uma casa abrigo. Saí de lá e fiquei duas horas debaixo de uma árvore a chorar, com as pernas a tremer, tinha o carro estacionado mas não conseguia conduzir. Nunca tinha ido a um tribunal e no Tribunal de Família a procuradora mandou-me falar menos e mais baixo.

Tinha duas hipóteses: ou me deixava morrer, ou virava uma leoa. Escolhi a última. Tinha de lutar para recuperar esta criança. Deixei de trabalhar, pedi assistência à família e passei muitas noites em claro. Nos primeiros meses ele não saía da cama, passava os dias com a cabeça coberta, não dormia, não comia, vomitava muito. Entrou no primeiro ano com quase 8 anos, voltou a sorrir ao fim de quase três. Hoje é acompanhado por um psicólogo e por um pedopsiquiatra e está estável. Já vai aos aniversários dos colegas, anda aqui em baixo a correr e a jogar à bola e eu vejo-o da janela. Mas ainda evito passar por certos sítios com ele, para não se lembrar das coisas.

Passaram cinco anos e ainda tenho a guarda provisória do meu neto, espero conseguir a definitiva agora. O que eu queria mesmo? Só gostava de fazer um funeral digno ao meu filho porque o meu neto mais velho, que tem agora 17 anos, sofre muito com tudo isto. Mas o monstro nunca vai dizer onde escondeu o corpo. Quer que eu sofra o resto da minha vida."

"Atirei-lhe mesas, cinzeiros, tudo. Levei uma facada e nem senti" - Cláudia, 28 anos, viu a mãe morrer
Durante muito tempo senti-me culpada, mas culpada a sério, perguntei-me muitas vezes: "Será que se eu tivesse feito mais alguma coisa isto não tinha acabado assim?" E eu atirei-lhe mesas, cinzeiros, tudo o que apanhei à frente, levei uma facada na perna e nem senti. Tenho esta imagem na cabeça: a minha mãe morta no chão e ele encostado à porta da frente, com várias pessoas dispersas por ali. Ninguém fez nada.

A minha mãe morreu quando eu tinha acabado de fazer 12 anos, em abril de 2004. Foi morta pelo meu padrasto, à minha frente. Tinham casado há três meses e estavam juntos há um ano e pouco. Se havia violência doméstica estava bem escondida, nunca vi nada.

No dia anterior à morte dela eu tinha ido jantar a casa de uma amiga e ia dormir lá, como acontecia com alguma frequência. Mas nessa noite a minha mãe apareceu em casa dela a chorar, disse que estava a fazer as contas da churrasqueira quando o meu padrasto apareceu a acusá-la de dar demasiada confiança aos clientes. Tinha passado o dia escondido numa arrecadação elevada do restaurante, onde a minha mãe guardava as bebidas, a vigiá-la. Os empregados dele – o meu padrasto era empreiteiro – já o tinham ido procurar.

Nessa noite a minha mãe dormiu connosco. Saímos de manhã, diretamente para o restaurante. Ele chegou pouco depois, por volta das 10h e pediu-lhe que se sentasse. Havia duas mesas pequenas, e ela sentou-se numa delas, em frente a ele, eu estava na outra. Até que o meu padrasto lhe pediu para passar para o lado dele. E foi quando ela fez isso que tirou duas facas. Foram 11 facadas. Não parou até ter a certeza de que ela estava morta. A mim só me dizia: "Sai da frente miúda, que não tens nada a ver com isto."

Fui eu que dei a notícia à minha irmã, havia um telefone mesmo ali e liguei-lhe. Depois fui para o hospital do Fundão fazer um curativo na perna. E como lá não havia psicólogo fui para a Covilhã. Isto parece ridículo, mas lembro-me de estar no hospital e de ter pensado: e agora como é que eu vou estudar? A minha mãe dizia muitas vezes que eu tinha que ser independente, que não devia depender de um homem, mas eu era muito traquina. "Agora vens connosco para casa, não te preocupes com isso", disse-me o sogro da minha irmã.

No mesmo dia fui entregue à minha irmã mais velha, na altura com 25 anos. Assim que cheguei à casa dela percebi que também era vítima de violência doméstica. No dia em que a minha mãe morreu, soube depois, o marido tinha-lhe dito: "Vê lá se não queres acabar da mesma maneira." Ouvi-o repetir isto muitas vezes. Como é que não entrou aqui um mecanismo de proteção de menores? Se foram a casa da minha irmã não me recordo e de qualquer forma não fizeram grande trabalho, bastava falar com um vizinho para perceber o que se passava. Ele chegou a andar atrás dela com facas e uma caçadeira.

Pedi muitas vezes ajuda. Aos professores da escola, à diretora de turma, a amigos e pais de amigos. Tinha muito medo que acontecesse à minha irmã o mesmo que já tinha acontecido à minha mãe. Toda a gente tentou desvalorizar, ninguém se queria meter na situação. Senti-me completamente desacompanhada. Até que um dia vi um cartaz da APAV na junta de freguesia, com uma imagem muito chocante e decidi ligar. Acabaria por ser esta associação a substituir-se ao papel do Estado. Até aí só tinha voltado à psicóloga na escola, uma coisa esporádica, com uma pessoa que não era especializada e tinha muita gente a cargo.

Depois as coisas foram relativamente rápidas. Pedi ajuda entre fevereiro e março e saímos de casa em junho. Quando disse à minha irmã que tinham ligado da APAV e que havia quatro vagas numa casa-abrigo – para nós e para as duas filhas dela – encostou-se a uma arca, na cozinha, e não parou de chorar. Era controlada em permanência. Além de viver num meio pequeno, trabalhava no café dos sogros e nem salário recebia; o sogro era presidente da junta, os polícias iam lá a casa – se ela pedisse ajuda toda a gente saberia.

A nossa fuga podia ser o cenário de um filme. A APAV telefonou numa quinta-feira e saímos na terça seguinte, com a roupa do corpo e pouco mais. Eu tinha 14, 15 anos. Foi o irmão do meu namorado que nos levou até Castelo Branco de carro, a grande velocidade – se apanhássemos o autocarro ali seria muito fácil identificarem-nos. Tinham-nos dito para deitar fora os cartões SIM do telemóvel, para não nos seguirem, e para colocar um novo, que eu já tinha. Quando chegámos à estação liguei à senhora da APAV e perguntei para onde é que devíamos comprar o bilhete. Até aí não sabíamos que vínhamos para Lisboa – fazia parte das regras de segurança. Vim o caminho todo colada ao vidro, em pânico, para ver se alguém nos tinha seguido. Quando chegámos à estação sabíamos que tínhamos de procurar uma senhora de calças verdes e camisola branca. Depois o meu cabelo, que era muito comprido, foi cortado à rapaz, para não ser facilmente identificada, e tive que aprender caminhos alternativos para ir para a escola. Mesmo assim ele percebeu rapidamente onde estávamos e a minha irmã, que entretanto arranjou trabalho num hotel, passou a ir para o emprego acompanhada pela polícia.

A vida numa casa-abrigo é muito penosa. Queres estar sozinha e estás com as histórias de toda a gente à volta. Há histórias muito boas e muito más e tu estás a pensar no que te vai acontecer a ti. Ficámos lá um ano e meio. Quando saí, aos 16 anos, fui viver sozinha. Aluguei uma antiga casa da porteira, com terraço, na Basílica da Estrela. Pagava 300 e tal euros de renda. Estudava e trabalhava. A maior parte do tempo trabalhei numa loja de roupa, em Santa Apolónia, e fiz um acordo com o senhorio – tratava das limpezas do prédio e ele fazia-me um desconto na renda.

Nunca chumbei. Licenciei-me em Relações Internacionais, fiz um mestrado em Ciências da Comunicação e hoje trabalho numa escola de inglês. Namoro há cinco anos e entretanto vamos casar, mas durante muito tempo isto não me passava pela cabeça. Suspeitava de toda a gente que se aproximasse de mim, fosse por que motivo fosse, nem era uma coisa especificamente com os homens.

Hoje costumo dizer que tenho as minhas gavetinhas arrumadas, mas às minhas custas. Sabes o que é teres de te levantar em tribunal para fazer um desenho do sítio onde estavas na churrasqueira quando o teu padrasto matou a tua mãe? E, pior, quando virei costas sabia que atrás de mim estava ele e uma sala cheia, porque as sessões à porta aberta eram o entretém da aldeia. Fui ouvida vezes sem conta, formal e informalmente. Senti muitas vezes: a minha mãe morreu e eu tenho que justificar que este homem que está aqui ao lado deve ser preso. Como é que se explica isto a uma criança de 12 anos?

"Peço muito a Deus que ele morra antes dos meus pais, para eles morrerem descansados" - Henrique, 34 anos, ficou sem a irmã
Tive de ser muito forte para eles não perceberem. Aconteceu tudo às 23h30. Eu estava a beber café com uns amigos quando a minha tia me telefonou a pedir para ir para casa porque tinha acontecido uma tragédia. Lembro-me que estava uma noite muito fria, a nevar, e que fui sempre a correr. Quando cheguei o meu tio disse-me que tínhamos de ir até casa da minha irmã, porque o marido lhe tinha batido muito e ela estava em coma. Foi aí que o meu primo me seguiu até ao quarto e contou o resto: "Henrique, vais ter de ter muita calma, ele matou-a." Durante toda a viagem – eles viviam a mais de duas horas de distância – só eu sabia a verdade. O meu pai percebeu assim que viu a polícia em casa, a minha mãe só na esquadra. Desmaiou logo.

O assassino foi o primeiro e único namorado dela. Casaram quando ela tinha 18 anos. Na altura ela queria ir para a faculdade e mudaram-se para uma cidade longe dali. O meu pai não gostou muito da ideia, mas lá aprovou e sempre disse que estavam ali para tudo. Só passados três ou quatro anos começámos a saber algumas coisas. No dia em que tirei a carta – tinha acabado de fazer 18 anos – peguei no carro e fui fazer-lhes uma visita. Lembro-me de ir com a minha irmã a uma loja de chineses comprar uma carteira, uma coisa insignificante, custava uns 5 ou 10 euros, e de ele não a deixar comprar. Quando voltei para casa contei ao meu pai e ele ligou ao assassino, que se justificou. "Sabe como é, as mulheres só gostam de gastar dinheiro." Na altura o meu pai não ligou muito, mas depois começámos a estranhar outras coisas. Um dia ela queixou-se que não podia comprar um Bollycao às filhas, só ele é que podia dar-lhes guloseimas, para ficar bem visto.

Até que a 12 de novembro [de 2008], dia do aniversário dela, nos convidou a todos para almoçar. Fomos ao shopping que ficava mesmo em frente à casa da minha irmã e contou-nos tudo: era alvo de torturas psicológicas, ele batia-lhe e nunca tinha dito nada porque era ameaçada. Se ela falasse fechava-a num quarto e vinha matar-nos a todos.

Nesse dia já tinha decidido divorciar-se e estava a tratar do advogado. O meu pai queria trazê-la logo connosco, a ela e às minhas sobrinhas, mas a minha irmã tinha medo de que, se fugisse, ele a acusasse de raptar as filhas. E para não perder as meninas, deixou-se ficar. Foi o nosso grande erro, tê-la deixado lá esses 15 dias.

Um dia antes de morrer ligou-me: "Se amanhã precisar que me venhas cá buscar, vens?" E eu respondi: "Sim, claro, se quiseres pego no carro e vou agora." Ela disse que não era preciso, mas perguntou-me: "Se me acontecer alguma coisa tomas conta das minhas filhas?" Acho que sabia que não ia durar muito tempo. Não sei é porque é que foi para casa, porque não foi dormir em casa de uma amiga?

No dia 28 de novembro à noite matou-a. Durante essa tarde tinha comprado bilhetes para fugir para a Madeira com as duas meninas. A ideia era seguir depois para outro continente. Matou-a porque apanhou os papéis do divórcio. Foram 17 facadas. As meninas já estavam na cama e a mais velha, que tinha na altura 6 anos, quando ouviu os gritos foi para a cozinha e assistiu à mãe a morrer no chão. Depois de a matar cortou-se nas mãos para tentar incriminar a minha irmã, mas no hospital viram que era impossível ter sido ela, pela forma como estavam feito os cortes.

Foi condenado a 17 anos de prisão mas passados sete ou oito começou a sair em precárias. Quando isso acontece as minhas sobrinhas não querem sair à rua e nem sequer deixam a minha mãe ir sozinha comprar pão. Também não querem ver ninguém da família dele. Ele tem uma irmã que vive fora de Portugal, a mulher não tem culpa nenhuma, às vezes liga, mas elas não querem falar com ela. No primeiro Natal até mandou uns casacos de ganga, mas as meninas nunca os quiseram vestir.

A minha sobrinha mais nova tinha 3 anos e não se lembra de nada, a mais velha falou pela primeira vez o ano passado, com a psicóloga, e esteve mais de uma hora a chorar. Nunca a tínhamos visto chorar, nunca tinha chamado pela mãe à noite. São permanentemente acompanhadas, mas no verão passado ela emagreceu quatro quilos e nós assustámo-nos. Depois percebemos que andava a reviver muito o que se tinha passado. Hoje tem média de 19, quer ser médica. Eu digo-lhe para ir beber um café com os amigos e ela só quer estudar.

Os Dias do Pai na escola
Quando isto aconteceu ainda vivia com os meus pais. Só este Verão me mudei com a minha namorada para um apartamento a 100 metros, mas vou todos os dias a casa deles jantar. É a única coisa que me pedem: "Para ir jantar logo." Os Dias do Pai e da Mãe eram difíceis para elas. Preparavam as surpresas para os meus pais, mas preferiam que fosse eu ao jantar do dia dos pais, por ser mais novo. Se não fosse isto tinha saído de casa mais cedo? Sim. E tinha aceitado ofertas de emprego fora. Sou engenheiro florestal e aqui no Norte não há assim tanto trabalho. Deixei de concorrer a outras vagas, tenho de ficar aqui.

Todos os dias penso naquilo, todos os dias depois de jantar, quando as minhas sobrinhas vão para o quarto, falamos nisso. É como se estivéssemos a viver a morte da minha irmã todos os dias. Só queria que os tribunais nos facilitassem a vida, que fechassem o processo para começarmos a pôr isto para trás das costas.

Andamos há 11 anos a pagar o IMI e o condomínio do apartamento da minha irmã e só este ano conseguimos que a casa ficasse em nome das minhas sobrinhas. Está alugada há quatro ou cinco meses, mas o dinheiro do apartamento foi o que gastámos com advogados. Também já devemos ter pago três vezes a carrinha da minha irmã, que valerá uns 700 ou 800 euros, com o que gastámos em selos. O juiz condenou o assassino a pagar uma indemnização de 206 mil euros, mas não recebemos nada. Tudo o que o assassino tinha direito a herdar do pai, que já morreu, passou para o nome da irmã. Sentimo-nos abandonados e injustiçados. Sofri a morte da minha irmã e há 11 anos que não vejo os meus pais rir. É muito complicado.

E quando o assassino sair da prisão ninguém o impede de ir a um café e de se sentar ao nosso lado. Os psicólogos dizem que está a pagar pelos crimes dele e tem direito a uma segunda oportunidade. Então e a minha irmã? E os meus pais? O próprio juiz, no dia da sentença, disse ao assassino: "Tenha paciência, mas são 19 anos." Um juiz pode falar assim? À frente dos meus pais? Se ele tem o direito de tirar a vida da minha irmã, porque é que não podemos decidir que a vida dele não é mais cá fora?

A minha irmã fez quatro ou cinco vezes queixa na polícia, diziam-lhe para ir para casa, para ter calma e resolver as coisas a bem. Soubemos de muita coisa porque encontrámos um diário dela. A maior alegria que eu podia ter era receber uma notícia a dizer que ele tinha morrido. Ou que ia ser obrigado a viver longe. Só não o quero aqui. E uma coisa peço muito a Deus, que ele morra antes dos meus pais. Quero que eles morram descansados. 

Os nomes de Ana e de Henrique são fictícios, para proteger os menores envolvidos na história. Só Cláudia dá o seu nome verdadeiro.
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