Barra Cofina

Cancro da mama: "Estava grávida de 12 semanas quando soube que tinha cancro"

Cátia tinha 32 anos e estava grávida pela primeira vez quando foi diagnosticada com um cancro agressivo. Fez quimioterapia durante a gravidez e foi mãe de um bebé saudável.
Por Susana Lúcio 30 de Outubro de 2019 às 11:17

Cerca de 10% das mulheres diagnosticadas com cancro da mama têm menos de 40 anos e há casos em que estão grávidas. Cátia, gestora de produto de informática, não fazia ideia que isso podia acontecer, nem sabia que poderia manter a gravidez enquanto combatia um cancro agressivo. Falámos com a mãe de 33 anos e com a médica que a acompanhou no tratamento, Ida Negreiros, cirurgiã e coordenadora da Unidade da Mama da CUF Lisboa. O hospital lançou o programa #1500Razões para estamos próximos que inclui encontros com médicos e doentes para dar relevo à doença.


"Estava grávida de 12 semanas quando soube que tinha cancro da mama. Eu e o meu marido tínhamos dado a notícia aos nossos pais no dia de Natal de 2017, mas tínhamos pedido segredo porque ainda era cedo para anunciá-lo a toda a família.

No dia seguinte fui fazer uma ecografia mamária. Era um exame de rotina que fazia todos os anos porque tinha quistos sebáceos. Nesse ano, em maio, tinham detetado um nódulo benigno que requeria vigilância e a minha médica achou melhor repetir o exame em dezembro, porque no final da gravidez os resultados estariam alterados.

Pela cara da técnica percebi que algo não estava bem. Disse-me que o nódulo tinha adquirido características que podiam ser malignas e aconselhou-me a realizar uma biópsia nesse mesmo dia. Perguntei se era cancro, mas ela pediu tempo para avaliar os exames.

Estava sozinha porque era um exame de rotina, mas depois liguei ao meu marido e fiz a biópsia. É um exame doloroso que implica espetar uma agulha na mama. Eu tenho pânico de agulhas, mas perdi a conta das vezes que tive de ser picada a partir desse dia.

Os resultados da biópsia demoraram uma semana a chegar. Tinha alguma esperança, mas passei esses dias à noite a chorar. Depois veio a confirmação. Recebi um telefonema da minha obstetra a dizer que tinha consulta marcada com a Dra. Ida Negreiros no dia 2 de janeiro. Fiz uma pesquisa na Internet e vi que era a coordenadora da Unidade da Mama da CUF. Era cancro."

O número de mulheres jovens com cancro da mama está a crescer? Porquê?
Ida Negreiros: A percentagem de novos casos de cancro de mama antes dos 40 anos é de cerca de 10%, apesar de um discreto aumento neste grupo nos últimos anos. De referir ainda que estes dados são da população em geral (dados americanos e ingleses, principalmente). A razão deste aumento não está totalmente esclarecida. Dependerá de fatores como maior alerta para o diagnóstico, mas também de aspetos do estilo de vida ( gravidez tardia, exposição hormonal, tratamentos de fertilidade,  hábitos alimentares, vida sedentária ). Estes fatores  apesar de suspeitos, não têm uma relação causa efeito demonstrada e provavelmente concorrem em conjunto para potenciar o aparecimento de cancro  de mama em idades jovens.

É comum casos de mulheres que descobrem estar doentes durante a gravidez? 
São situações raras (menos de 1 % do total de casos diagnosticados). Os procedimentos de diagnóstico, estadiamento e tratamento são praticamente sobreponíveis aos da mulher não grávida com alguns ajustes das terapêuticas dependendo do trimestre de gravidez. 

Cerca de 85% das doentes diagnosticadas em estádios iniciais sobrevive à doença. Qual é a percentagem dos casos detetados precocemente?
A grande maioria dos novos casos de carcinoma da mama são detetados precocemente. Cerca de 75% dos casos são diagnosticados no estadio I e II, 15% no estadio III menos de 10% no estadio IV. 

Quais são os sintomas que as mulheres têm de estar atentas?
A mulher deve conhecer o seu corpo para poder atuar e consultar o seu médico ao reconhecer determinadas alterações no seu corpo, mais concretamente na mama, tais como: nódulo ou espessamento da mama ou na zona da axila, detetável ao toque; alterações no tamanho ou formato da mama; dor na mama; alterações na mama ou mamilo, visíveis ou ao toque; sensibilidade no mamilo; secreção ou perda de líquido do mamilo; retracção do mamilo; pele da mama, mamilo ou aréola gretada ou descamativa, vermelhidão ou inchaço.
Estes sintomas não são exclusivos do cancro da mama, podem aparecer por outras patologias mamárias, como por exemplo, os quistos benignos. Em todo o caso, se notar um ou mais sintomas, deve consultar o seu médico.

"Sou gestora de projeto de informática, um trabalho desgastante, e fiquei de baixa por gravidez de risco. Não teria conseguido lidar com as crises de ansiedade que sofri durante a gravidez se estivesse a trabalhar.

Chorei muito. Ainda hoje não consigo falar do assunto sem me emocionar. Na altura, fiquei revoltada. Não queria fazer quimioterapia, queria experimentar terapias alternativas. Sentia-me bem, não tinha quaisquer sintomas e de repente estava a passar por aquilo.

Não sabia nada sobre a doença. Li muito, descobri que havia várias variantes e que em alguns casos não era necessário realizar quimioterapia. Mas não sabia qual era o impacto no bebé. Também li o livro, Os Filhos da Quimio, sobre histórias de mulheres grávidas com cancro e percebi que havia muitos casos em que não voltavam a adoecer. Isso deu-me alento.

Na consulta, eu e o meu marido, ficámos a saber que o cancro era hormonal. Era um tipo de tumor agressivo que não tem cura e em que a probabilidade de recidiva é elevada. Colocava-se a hipótese de fazer um aborto para que o tratamento fosse também agressivo.

Eu pensei nisso. Nunca tive o apelo de ser mãe, ter um filho era o sonho do meu marido. Os médicos garantiram que iam apoiar a minha decisão, mas a Dr. Ida Negreiros estava muito confiante em que era possível manter a gravidez e ter uma criança saudável. Por isso, decidimos não a interromper.  

Nesse mesmo dia fiz um conjunto de exames de diagnóstico para ver se tinha metástases. Não pude fazer tudo, por estar grávida. No dia seguinte, tive a consulta com o anestesista. Dois dias depois chamaram-me para fazer uma ressonância magnética, um exame que não devia fazer, mas o risco de ter metástases justificava-o."

Há forma de prevenir a doença?
Ida Negreiros: Existem vários estudos que apontam os estilos de vida menos saudáveis como potenciadores de desenvolvimento de cancro da mama e de outros tipos de cancro. Todos os dias sofremos alterações nas nossas células que podem vir a desenvolver um tumor e este tornar-se maligno, quanto mais protegermos o nosso corpo e nutrirmos o nosso sistema imunitário estamos a aumentar a nossa capacidade de melhor combatermos essas alterações celulares.
No entanto, no caso do cancro da mama, podemos dizer que uma das melhores formas de prevenir a doença é realizar o diagnóstico precoce. É fundamental na medida em que, caso seja detetado cancro da mama, o diagnóstico precoce aumenta a probabilidade do tratamento ser mais eficaz e, em consequência, possibilita um melhor prognóstico da doença. Para além de diminuir a mortalidade, o diagnóstico precoce poderá nalguns casos evitar cirurgias mutilantes como a mastectomia radical e o uso de quimioterapia.
Para além do diagnóstico precoce é fundamental conseguirmos controlar aquilo que são os fatores de risco modificáveis (estilos de vida), como a obesidade, a terapêutica hormonal de substituição, o consumo de tabaco e aumentar a prática de exercício físico aliado a uma dieta variada e nutricionalmente equilibrada.

Quais são os fatores de risco?
Ainda não foi possível encontrar as causas fundamentais do cancro da mama, mas alguns factores de risco são conhecidos. A idade continua a ser o principal fator de risco: uma mulher de 60 anos tem oito vezes maior risco de o desenvolver nos 5 anos seguintes, do que uma de 30 e 25% das neoplasias ocorrem em mulheres com menos de 50 anos. Existe evidência de agregação familiar de cancro da mama em cerca de 10% dos casos. Em metade destes, ou seja 5%, há alterações em genes herdados que podem ser caracterizados numa análise de DNA. Na maioria dos casos trata-se de mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2. No entanto, nos restantes casos, observa-se agregação familiar mas não se encontram mutações herdadas. Suspeita-se de transmissão genética em famílias com mais de três mulheres jovens com cancro da mama, ou nas situações em que exista antecedentes familiares de cancro do ovário. O risco familiar é tanto maior quanto o número de familiares atingidas. 
Depois há os fatores hormonais como a primeira menstruação em idade precoce; idade tardia na primeira gravidez com termo; menopausa tardia; não ter tido filhos; o uso de anticoncepcionais aumenta ligeiramente o risco, mas nem todos os estudos são consensuais; o uso de terapia hormonal de substituição (THS) durante mais de 2 anos em mulheres pós-menopausicas aumenta o risco de cancro da mama.
O consumo elevado de gordura, principalmente na infância e adolescência e o excesso de peso também contribuem para um aumento do risco.

   

"Contar à minha mãe e irmã foi muito difícil. Tinha acabado de lhes contar que estava grávida e agora ia dizer que tinha cancro. Só contámos à família mais próxima. Na verdade, eu não queria falar do assunto. A minha avó só soube meses depois de o bebé nascer.

Fui operada no dia 12 de janeiro. O cancro era do tipo invasivo ductal de grau III. A cirurgia foi conservadora, retiraram o tumor e foi feita a reconstrução na mesma altura. Um mês depois, com quatro meses de gravidez, comecei a fazer quimioterapia.

Decidi aceitar o tratamento com um espírito de missão: vamos trazer ao mundo o meu filho. Mas não fiz tudo o que me foi indicado. Eu tenho pânico de agulhas e tinha de injetar-me na barriga todos os dias com um anticoagulante porque a quimioterapia aumentava o risco de coágulos. Recusei e só o fiz dia sim, dia não.

Durante a gravidez fiz quatro ciclos de quimioterapia de três em três semanas, seguidos de mais seis ciclos semanais. Estes últimos continham uma dose grande de cortisona, o que potenciou o desenvolvimento do bebé e envelhecimento da placenta. O tratamento não afeta o bebé porque a placenta age como filtro e impede a entrada de substâncias tóxicas.

A quimioterapia fazia-me adormecer. Ficava enjoada, mas nunca vomitei. No entanto, perdi o cabelo, fiquei inchada e com a pele muito esbranquiçada. Também perdi o paladar, tudo tinha um sabor metálico."

Quais são os tratamentos disponíveis?
Ida Negreiros: O tratamento do cancro da mama implica um trabalho conjunto de vários especialistas que determinam a melhor estratégia para cada doente. Em traços gerais pode ser dito que a maior parte das doentes com cancro da mama é tratada com cirurgia, radioterapia e tratamento médico (quimioterapia e outras modalidades). São fatores determinantes para a seleção do tratamento a idade e o estado pré ou pós menopáusico, o estadio da doença e os subtipos de doença (de acordo com a presença de recetor de estrogénio, de HER2 ou a ausência de qualquer deles).
O tratamento inicia-se, habitualmente, pela cirurgia e pode ser de duas naturezas: cirurgia conservadora – é removido o cancro e parte da mama, mantendo-se a mama restante afetada, geralmente o cirurgião remove igualmente os gânglios linfáticos da axila; e a mastectomia – é removida a mama na sua totalidade e geralmente o cirurgião remove igualmente os gânglios linfáticos da axila. Caso seja a vontade da mulher, e o seu caso clínico o permitir, no mesmo procedimento cirúrgico da mastectomia, pode ser feita de imediato a reconstrução da mama por um cirurgião plástico.
A radioterapia é feita habitualmente após a cirurgia. Se a cirurgia foi conservadora deve ser feita a irradiação da mama restante; em caso de mastectomia a radioterapia só em parte dos casos será indicada pela equipa médica que conduz o tratamento.
O tratamento médico é atualmente indicado para a maioria das doentes e pode incluir tratamento hormonal anti-estrogénio, quimioterapia citostática e tratamento dirigido à proteína HER2.

"Durante a gravidez realizei as três ecografias do protocolo, mas todos os meses fazia uma na consulta de obstetrícia. O bebé cresceu sempre nos parâmetros normais. Apesar de tudo, correu bem: só senti azia e tive algum sangramento do nariz.

O meu filho nasceu em junho de 2018. Rebentaram às águas, mas fui sujeita a uma cesariana porque o bebé estava a apresentar sinais de stress. Deram-me a epidural e os médicos começaram a cortar. Mas dois a três minutos depois, comecei a sentir tudo e gritei. Reforçaram a dose e adormeci. Explicaram-me depois que devido aos medicamentos que estava a tomar ganhei resistência à anestesia. 

Quando o meu filho nasceu senti uma grande sensação de alívio. Ele estava bem, só teve alguma dificuldade em aceitar o biberão, porque eu não pude amamentar. Nos primeiros dias foi o meu marido que cuidou do menino, eu estava muito debilitada da cesariana."

Quais os efeitos secundários dos tratamentos?
Ida Negreiros: O tratamento do cancro da mama deixa algumas sequelas físicas e tem impacto na vida diária da mulher. No caso da cirurgia, podemos apontar como os principais efeitos a ter em atenção o aumento de sensibilidade e dormência na zona operada e o edema linfático do braço do lado afetado. Este último, deve ser prevenido evitando o transporte de grandes cargas, feridas ou queimaduras. A fisioterapia é muito útil para prevenir e tratar o edema linfático na mulher mastectomizada.
No caso da quimioterapia os principais efeitos secundários são a fadiga, o aparecimento de hematomas, a queda de cabelo temporária a falta de apetite, náuseas, vómitos, diarreia, feridas na boca e/ou lábios. No caso da opção de tratamento hormonal ser a cirurgia, nomeadamente a remoção cirúrgica dos ovários, a menopausa é imediata bem como os sintomas associados à mesma.Outros efeitos associados a esta terapêutica poderão ser afrontamentos, corrimento ou prurido vaginal, fadiga, dores de cabeça, náuseas ou vómitos. A terapêutica dirigida AntiHER2 poderá provocar algumas reações alérgicas e também problemas cardíacos que deverão ser avaliados junto do médico assistente.

De que forma a vida conjugal e a qualidade de vidas das mulheres tratadas podem ficar afetadas?
O conjunto de momentos associados à doença e os tratamentos realizados para combater o cancro podem fragilizar emocionalmente a mulher e abalar a sua vida familiar e conjugal. O cansaço, as náuseas, e outros efeitos dos tratamentos podem fazer com que a mulher não sinta qualquer desejo de intimidade, podendo afetar a sua saúde sexual. Por vezes é difícil para os próprios companheiros compreenderem o seu papel e sentem dificuldade em acompanhar todo este duro processo. Existem relatos de casais que acabam por romper a relação, mas também e, felizmente, existem os que encontram estratégias em conjunto para ultrapassar este momento difícil. Os especialistas salientam a importância da comunicação aberta entre o casal e até, se necessário, um acompanhamento profissional para ajudar a encontrar formas de manter a qualidade de vida conjugal.

 

    "A minha mãe ficou fascinada com o primeiro neto. Foi com ela que ele ficou quando voltei a fazer quimioterapia. Fiz mais seis ciclos, desta vez com doses mais agressivas. Já não aguentei tão bem e tive muitas infeções como herpes, infeções nos olhos e aftas na boca.

    Terminei os ciclos em agosto de 2018, tinha o meu filho um mês e meio. Depois estive dois meses a fazer radioterapia. Agora tenho de tomar um medicamento durante dez anos que diminui o estrogénio, a hormona feminina, em circulação no sangue e reduz a hipótese do cancro voltar.

    Sinto-me bem, mas tenho um conjunto de sintomas provocados pelo medicamento. Sinto falta de energia e bastante cansaço. Não consigo gerir as emoções e tenho alterações de humor. Não é fácil.

    Há muita investigação nos tratamentos, mas não há evolução nos medicamentos que se toma depois do cancro. Penso que não se zela o suficiente pela qualidade da vida da mulher com cancro.  

    Voltei a trabalhar em janeiro de 2019 e estou a fazer um horário reduzido porque o bebé ainda não fez um ano de idade.

    O meu marido foi incansável. Foi comigo a todos os tratamentos e a todas as consultas antes e depois de o bebé nascer. O meu filho é o meu raio de sol, foi a única coisa boa nisto tudo."

    1500 portuguesas morrem por ano com a doença. São mulheres que foram diagnosticadas em estadios avançados? O número está a crescer ou a diminuir?
    Ida Negreiros: O número é estável desde há cerca de 10-15 anos. Tem picos de incidência em períodos de crise económica-social relacionado com os atrasos no acesso aos cuidados de saúde, mas epidémico e sem aparente repercussão nestas décadas.

    Qual é a taxa de sobrevivência à doença?
    Depende do estadio de diagnóstico da doença e do perfil biológico do tumor. Os estadios I e II têm sobrevivências aos 5 anos superiores a 90%.

    Artigo originalmente publicado na SÁBADO a 25 de maio de 2019.

    Notícias Recomendadas