Barra Cofina

Não é distração, é epilepsia de ausência

Se o seu filho parece desligar a atenção por uns segundos e voltar a si sem saber o que estava a fazer pode ter de tomar medicação
23 de Julho de 2020 às 12:42


É o tipo de epilepsia mais vulgar, mas talvez a mais desconhecida. "A epilepsia de ausências infantis é das epilepsias mais comuns. Tem uma incidência de cerca de 7 novos casos por ano por cada 100 mil habitantes e constitui 10% a 17% de todos os casos de epilepsia diagnosticados em crianças de idade escolar", explica à SÁBADO José Carlos Ferreira, Neuropediatra no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas.

Mónica Cardoso já conhecia a doença quando a identificou nos dois filhos.

"Foi à noite, quando me sentava com o meu filho Tomás para lermos uma história, que comecei a reparar nas suas ausências. Ele tinha quase sete anos. Começava a ler, parava por uns segundos, e quando retomava não sabia onde tinha terminado. Depois reparei que durante o dia estas paragens também aconteciam e que ele revirava ligeiramente os olhos.

Eu tinha quase a certeza de que se tratava de episódios de epilepsia de ausência. Conhecia a doença e os sintomas porque o meu irmão mais novo tinha sido diagnosticado quando era mais novo. Mas o meu marido teve mais dificuldade em aceitar. Achava que o rapaz era apenas distraído e não precisava de ir ao médico."

Como se manifesta a epilepsia de ausência?
José Carlos Ferreira: Os sintomas da epilepsia de ausências são pequenas crises epiléticas com uma duração habitualmente inferior a 15 segundos caracterizadas por perda da consciência sem grandes manifestações motoras, ou seja quase sem movimentos. Na crise de ausência, o doente não cai, não desmaia, não convulsiva, mas perde durante esse período a consciência do que se passa à sua volta e de si próprio. Não terá depois memória para o que se passou durante a crise. Por vezes, podem notar-se alguns automatismos de pestanejo ou um semicerrar das pálpebras ou ainda uma discreta queda da cabeça. Nos casos mais típicos de epilepsia de ausências infantis, as crises repetem-se múltiplas vezes por dia, até várias dezenas.

Quais os sinais a que os pais devem estar atentos?
Embora se possa superficialmente confundir com períodos de distração, as crises de ausências, distinguem-se por estas 3 diferenças:

1 - começam de forma abrupta e terminam por si, também de um momento para o outro, sendo relativamente fácil distinguir um estado do outro;
2 - não se prolongam como já disse, por mais do que alguns segundos;
3 - não se conseguem interromper pela estimulação.

É uma doença que afeta crianças em que faixas etárias?
A epilepsia de ausências infantis, de longe a forma mais frequente, afeta habitualmente crianças entre os 2 e os 12 anos, com um pico de incidência pelos 5 a 6 anos. Há outras formas mais tardias e mais raras, como a epilepsia de ausências juvenis, com início entre os 8 e os 20 anos em que as crises são também menos frequentes.

O que causa a doença?
A epilepsia de ausências não está associada a qualquer lesão cerebral, cicatriz, tumor, sequela de AVC ou doença degenerativa. A sua origem é geneticamente determinada, embora o modo de hereditariedade e os genes que aumentam a suscetibilidade ao aparecimento da doença, não estejam ainda totalmente identificados. Apesar da genética ter nesta situação um papel importante, a maioria das crianças afetadas não tem antecedentes de epilepsia na família.

É de difícil diagnóstico e confundida com défice de atenção? Porquê?
Superficialmente, a impressão que dá a quem presencia uma ausência, é de que a criança está distraída. Na realidade é verdade que a atenção, como a consciência são interrompidas durante a crise. Estando o tempo todo a ser desligadas, mesmo por pouco tempo, a atenção vai-se perdendo já que se perde frequentemente o sentido do que se estava a fazer.


"Levamos o Tomás ao neuropediatra e um encefalograma registou os episódios de ausência. Começou a tomar medicação, mas só o terceiro medicamento que experimentou é que deu resultado e eliminou as ausências. Durante este período falei com a professora dele para lhe explicar que as distrações do Tomás eram, na verdade, episódios epiléticos de ausência. Ela disse-me que já tinha notado: "Parece que não está cá", disse.

Depois aconteceu à minha filha mais nova, Leonor. Com ela, foi mais fácil acertar no medicamento. Agora estão os dois bem. O Tomás tem 16 anos, e deixou de tomar a medicação aos 12 anos. A Leonor tem 11 anos e desde o ano passado que não tem sido registado um episódio no exame. Deve deixar a medicação no final deste ano."


Quais são as consequências no normal desenvolvimento da criança?
Esta forma de epilepsia não se associa à partida a perturbação do desenvolvimento nem défices cognitivos. No entanto, deixadas sem tratamento as ausências muito frequentes e repetidas acabam por provocar dificuldades na aprendizagem. Por isso mesmo, independentemente da pandemia, as crianças devem manter a sua terapêutica e consultas com neuropediatra, para garantir que a doença continua controlada. O mesmo se aplica aos pais que identifiquem possíveis sintomas: não devem adiar a procura de ajuda clínica por receio de contágio pois as unidades de saúde aplicam procedimentos e circuitos para garantir a segurança dos pacientes.

Que dificuldades de aprendizagem estão associadas?
A todo o momento a criança está a ser "desligada" do que está a fazer, seja no meio de uma tarefa escolar, de uma explicação do professor ou de outra atividade pedagógica ou brincadeira. Embora quando a ausência termina, a criança volte imediatamente às suas capacidades normais, pode perder o fio da narrativa ou a sequência do que se passou, já que a sua memória não regista o período da crise. É como se voltasse à realidade vários segundos mais à frente. Um dos conselhos a dar aos educadores de crianças com ausências é serem redundantes e repetitivos nas explicações, para que os conteúdos que tenham escapado durante uma ausência possam ser revisitados noutro momento.

Qual é o tratamento e qual a taxa de êxito?
A epilepsia de ausências infantis é autolimitada no tempo. Ao fim de 3 a 5 anos, a maior probabilidade é de que a criança esteja completamente curada, independentemente do tratamento que tenha feito. Um número restrito mantém crises epiléticas, quer sob a forma de ausências, quer de crises de outros tipos. A necessidade de tratamento diário com fármacos antiepiléticos não tem a ver com alcançar a cura mais cedo, mas sim com impedir as crises (e as suas consequências na vida diária e na aprendizagem) enquanto o tempo se encarrega de fazer desaparecer a doença. Os medicamentos têm uma taxa de eficácia muito alta. Mais de 70% ficam completamente livres de crises durante o tratamento e a maioria dos restantes têm uma redução significativa do número de ausências.

Pode deixar sequelas se não for tratada a tempo?
Não existem sequelas diretas, no sentido clássico, das crises de ausências sobre o cérebro e pode dizer-se que após cada crise, o funcionamento do cérebro fica completamente bem e igual ao de antes da crise. As sequelas são sobretudo os efeitos negativos que as interrupções pluridiárias, ao longo de muitos meses ou anos têm sobre a aprendizagem, a vida quotidiana e social da criança. Estes podem ser definitivos e irrecuperáveis.

 

"Não noto que as ausências tenham prejudicado as notas dos meus filhos. Eles têm personalidades diferentes: ele não gosta de estudar, ela gosta.

 O meu irmão não teve tanta sorte porque na altura a doença não era tão conhecida. E penso que a maioria das pessoas ainda hoje não sabem o que é e tem dificuldade em perceber que não é distração. Lembro-me que andámos anos em médicos para tentar perceber o que se passava com ele, foi diagnosticado muito tarde e só aos 22 anos é que deixou de tomar medicação."  

Notícias Recomendadas
Família

"A traição pode mudar um casamento para melhor"

Esqueça a velha história de que só os mal-casados são infiéis. Há gente feliz que trai para escapar à monotonia ou devido a uma crise de identidade. Por vezes, até une casais. No seu livro, a terapeuta Esther Perel explica tudo.

Bem Estar e Nutrição

Há quanto tempo não troca a sua almofada?

Não lavar a almofada de cama que usa para dormir está na lista dos piores erros de hábitos de beleza que se cometem sem querer. Eis o que descobrimos.

Bem Estar e Nutrição

Quando os livros nos salvam

Rabugice, tristeza, insónias ou desencanto, há livros para todos – ou quase todos – os males. E há também quem os prescreva, como se de médicos se tratasse. A esta arte de juntar as pessoas aos livros que as fazem sentir melhor chama-se biblioterapia.