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Os pais podem publicar fotografias dos filhos nas redes sociais?

Tal como não querem os pais à porta da escola, os miúdos também não gostam de ver a sua cara nas contas de Instagram ou de Facebook deles.
Por Juliana Nogueira Santos 10 de Março de 2020 às 19:07

Maria e Matilde não queriam acreditar quando viram a fotografia que o pai tinha publicado no Instagram. Nem o facto de ser Dia do Pai as conseguiu acalmar. Os amigos não terem acesso à conta também não serviu de muito. E não, não estavam a fazer figuras tristes. Mas temos de fazer um alerta: ser adolescente na era das redes sociais é complexo e cada fotografia tem de ser perfeita. As adolescentes explicam: "Estava horrível, tinha o sol a bater-me na cara", diz Matilde Campos, de 14 anos. A irmã também não gostou de se ver e pediram ao pai que apagasse a imagem. Resposta: nem pensar. "Disse que gostava da fotografia e que nós não tínhamos nada que dizer que não gostávamos", conta Maria, acrescentando que o episódio não foi inédito. Além do pai, também a mãe e outros membros da família partilham e comentam os seus posts. As irmãs não gostam. E não são caso único.

Segundo o EU Kids Online, um estudo publicado este ano que relata o dia a dia das crianças e adolescentes portugueses no digital, 28% dos miúdos entre os 9 e os 17 anos afirmam que os seus pais já publicaram textos, vídeos ou imagens sobre eles nas redes sociais sem lhes perguntarem se estavam de acordo. Metade pediram para retirar estes conteúdos.

"Cada vez mais as crianças são obrigadas a fazer uma gestão da sua imagem digital, pela quantidade de redes sociais que existem, mas agora têm mais este peso com pessoas das suas relações próximas a partilhar conteúdo contra a sua vontade", aponta Cristina Ponte, uma das investigadoras responsáveis pelo estudo. "Esta prática, a que chamamos sharenting, configura muitas vezes uma violação da sua privacidade."

Também com 14 anos, Joana Duarte não gosta que a família partilhe determinadas fotografias. "Se for uma em que não estou bem, que esteja com roupa de que não goste ou mais antiga nem pensar. É constrangedor e envergonha-me", confessa. Os comentários "menos apropriados", como lhe chama, também são filtrados. "Os meus avós não me seguem porque podiam escrever coisas como ‘coisa mais linda da avó’, ou assim", continua a adolescente. "Confesso que já apaguei alguns comentários destes." A mãe, Alexandra Duarte, confirma: "Deixei de publicar fotos porque discutíamos sempre."

Para Magda Gomes Dias, coach de parentalidade, nestas idades a repulsa do sharenting é tão normal quanto as crianças pedirem aos pais para não as levarem à porta da escola. "Os adolescentes já têm uma noção construída de si e da sua imagem e, a partir do momento em que as partilhas começam a ser excessivas, começam a querer para si o controlo dessa imagem", aponta.

Por outro lado, os pais começam desde cedo a partilhar a sua experiência nas redes sociais, com fotografias e vídeos dos filhos, o que cria uma "pegada digital" muito extensa, ou seja, um largo registo de um indivíduo na Internet, que é muito difícil de gerir. "É importante ter em conta que a partir do momento em que partilhamos uma fotografia em alguma rede social, esta poderá ser utilizada por outra pessoa. E aqui o equilíbrio é essencial: não é necessário haver paranoia e esconder as crianças, mas é importante respeitar a privacidade dos miúdos e ter cautela", explica a psicóloga Bárbara Ramos Dias.

A conta para os pais e a outra
Alexandra Duarte, mãe de Joana, é adepta do Instagram e publica "quando lhe apetece". Por isso mesmo ia partilhando no seu perfil privado fotografias da filha, o que sempre gerou problemas. "Dizia-me que tinha as pernas gordas ou que estava com um sorriso estranho. E pedia­-me para tirar", aponta a mãe. "É tudo uma questão de autoestima."

Os adolescentes famosos não fogem à tendência. Apple Martin, filha da atriz Gwyneth Paltrow e do cantor Chris Martin, deixou um aviso à mãe depois de esta ter partilhado uma selfie das duas na neve. "Mãe, já discutimos isto. Não podes publicar nada sem o meu consentimento", comentou a adolescente de 14 anos. "Mas nem sequer se vê a tua cara!", respondeu a mãe.

"Na verdade, os pais, ao partilharem uma foto dos filhos, estão a partilhar a imagem de outra pessoa. É importante que os filhos se sintam confortáveis", continua Bárbara. Magda Gomes Dias defende ainda que se devem estabelecer regras entre pais e filhos, para que fique claro o que os primeiros podem publicar e comentar.

Maria da Costa tem 26 anos, mas nem por isso deixa de sentir alguma vergonha quando os pais fazem sharenting. "Houve uma altura em que o meu pai tinha uma fotografia minha e dos meus irmãos como imagem de perfil no Facebook", aponta a jovem. Mas ao contrário do que acontece com os mais novos, Maria, Felícia e Guilherme não tiveram coragem de pedir aos pais que a tirassem. "Não lhes queríamos partir o coração."

Felícia, por sua vez, já teve de dizer algumas vezes à mãe para deixar de falar com os amigos dela no Facebook. "Todos os dias dava os bons dias ao meu melhor amigo porque queria ser simpática, mas tive de lhe explicar que nas redes sociais não é assim", conta a jovem de 22 anos. "Há uma grande diferença entre o que eles acham aceitável e o modo como se fazem as coisas na Internet."

Tanto Maria da Costa como Joana têm algumas publicações com definições de privacidade alteradas, para que os pais não as possam ver. "Bloqueei o meu pai nas stories do Instagram porque uma vez pus uma foto a agarrar uma cerveja e ele fez um escândalo", diz a jovem. Felícia não aceita os pedidos das tias mais velhas: "Vejo o que elas comentam nas fotografias do meu pai e não quero isso na minha vida."

A maioria dos jovens tem duas contas diferentes no Instagram: uma para os pais, outra para os amigos. "Não é que tenha nada a esconder, mas há coisas que são só para os meus amigos", argumenta Maria, referindo-se a vídeos em que dizem "asneiras" ou fazem "imitações".

Joana também tem duas contas. É uma prática recorrente entre os adolescentes da sua idade, mas nem todos as utilizam para fins legais, admite. Há quem publique vídeos a beber álcool, a fumar, a cometer pequenos delitos como roubos em centros comerciais ou até pedidos de identificações falsas para entrar em discotecas. "Sigo pessoas que vão à Claire’s e roubam coisas pequenas para depois fazerem vídeos a dizerem que conseguiram."

Partilhar ou não partilhar?
Antes de clicar no botão, Magda Gomes Dias propõe aos pais que cumpram um processo de três passos que responda rapidamente à pergunta: partilhar ou não partilhar? "Primeiro, devo perceber porque é que o estou a fazer, o que é que eu quero comunicar. Se é algo que só serve para me alimentar o ego não o devo fazer. Depois pôr-se no lugar do seu filho. Será que partilharia a mesma coisa se se tratasse de outro membro da família, ou mesmo de si? Como é que se iria sentir ao ver aquilo online? Por fim, pergunte à criança se pode ou não publicar e cumpra essa vontade."

Mesmo que o conteúdo já esteja online, nunca é tarde para o retirar se o seu filho lho pedir. "Deixar a foto ou ir contra as vontades da criança nesta situação só irá criar uma rutura na relação e a sensação de que os pais não são pessoas de confiança, por estarem a expor a criança sem o seu consentimento", acrescenta Bárbara Ramos Dias.

No entanto, há certos alertas que, segundo Magda Gomes Dias, não se podem descartar. "Se eu fosse adolescente também ia querer esconder algumas coisas dos meus pais, mas situações sistemáticas, como segundas contas ou bloqueios sucessivos, são sinais de que há alguma coisa que eles querem esconder e isso levanta muitas questões."

Já Cristina Ponte afirma que "é importante que os pais saibam que o mundo atual é muito diferente daquele em que eles cresceram", pelo que há muitos riscos mais recentes que não podem ser negados. "Há muitos truques para que os pais continuem a partilhar fotos dos seus filhos sem violar a sua privacidade, basta ter alguma criatividade: fotografar a criança de costas, adicionar um emoji na cara ou mesmo utilizar disfarces."

Os novos famosos
Bloggers partilham o dia-a-dia dos filhos nas redes
Com o aumento de popularidade dos blogues os pais partilham o dia-a-dia dos seus filhos mesmo antes de nascerem, como forma de recordar momentos. A lista é longa: Cocó na Fralda, António Raminhos, A Pipoca Mais Doce. Nestes casos, Bárbara Ramos Dias alerta que "há crianças que gostam de ser a filha ou filho de, outros não".

Pedofilia na rede
Investigadores reiteram os perigos de partilhar demais
Cristina Ponte, responsável pelo EU Kids Online Portugal afirma que, muitas vezes, "pensamos que conhecemos a nossa audiência, e que esta é restrita, mas há várias ligações que não se imaginam". A investigadora continua: "Muitas redes de pedofilia alimentam-se de fotografias partilhadas nas redes sociais."

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