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Parceiros em casa e rivais no trabalho

Evitam levar documentos para casa, mas chegam a pedir conselhos. Outros casais criaram a melhor regra contra a competição: não se fala de trabalho, nem ao jantar nem ao almoço
Por Carla Amaro 16 de Fevereiro de 2020 às 09:07
Entraram num avião para escrever sobre um restaurante que tinha acabado de abrir numa cidade em Itália e que prometia ser o melhor do mundo. Foram, comeram e escreveram. E antes de regressarem a Lisboa, combinaram publicar os textos exatamente no mesmo dia e à mesma hora, para que um não avançasse primeiro do que o outro.

Luís Salvador, 40 anos, e Rita Cunha, 41, são casados há cinco anos e trabalham em órgãos de comunicação online – ele é editor da secção de cultura e lifestyle de um jornal generalista e ela edita uma revista também de lifestyle, entretenimento e cultura. Os títulos não são concorrentes directos, mas Luís e Rita escrevem sobre os mesmos temas e tentam ser os primeiros a darem cada notícia. "No jornalismo, dar a notícia em primeira mão é um elemento que pode ser determinante para conquistar e fidelizar leitores", observa Luís. Admite que, dos dois, "talvez a Rita consiga lançar mais novidades."

Assumidamente muito competitiva, Rita diz que fica "mesmo irritada" quando o jornal de Luís ou outro publica um tema primeiro do que a sua revista. Chegava a ficar tão chateada que decidiram que o melhor era evitar falar de trabalho. Até agora, o acordo tem sido religiosamente respeitado. "Tornou-se um hábito. Simplesmente, não falamos disso, porque a concorrência entre nós não desaparece por sermos marido e mulher e de termos uma vida, uma casa e duas filhas em comum." Para a terapeuta de casais Catarina Mexia, isso não será difícil. "Nesta fase da vida dos casais, o que não falta é assunto de conversa: os filhos, os planos futuros, a casa, a logística, os amigos, as viagens, os programas de fim-de-semana… pelo que manter o trabalho fora do diálogo não é difícil e, em alguns casos, como quando os casais trabalham em empresas que competem pelo mesmo nicho, pode até ser aconselhável."

Documentos top secret
Se no caso de Luís e Rita não falar de trabalho para evitar conflitos é um acordo pessoal, no caso de Pedro Gomes, 46 anos, e de Sofia Gomes Borges, 43, são as empresas farmacêuticas onde trabalham que o impõem – é que os contratos laborais têm todos cláusulas de sigilo.

Pedro é diretor comercial numa grande farmacêutica e tem como clientes essencialmente as farmácias, para onde vende produtos de dermocosmética e dispositivos médicos; Sofia é costumer engagement management numa empresa farmacêutica concorrente de Pedro e tem a seu cargo a gestão de relação com os clientes, que no caso são os hospitais, onde tenta colocar produtos de dermatologia. Ou seja, embora tenham cargos diferentes, ambos tentam convencer os clientes do valor dos seus produtos. Para quem trabalha em empresas que operam nas mesmas áreas, podia ser complicado conciliar os interesses profissionais com os do casal, mas para Pedro e Sofia não é. Ele, que trocou a indústria alimentar pela farmacêutica, habituou-se cedo a deixar os assuntos de trabalho no escritório. A mulher também. Farmacêutica de formação, Sofia nunca exerceu outra profissão que não a obrigasse ao sigilo em "assuntos que exigem confidencialidade". O que não significa que trabalho seja assunto proibido em casa. "Surge nas nossas conversas, mas numa perspectiva de desenvolvimento pessoal, de gestão de pessoas. Por exemplo, se eu ou ele estamos a ter dificuldade em lidar com uma situação, pedimos conselhos ao outro. Coisas assim, nada em detalhe ou que explore especificamente questões das nossas empresas."

Por vezes acontece estarem em casa a trabalhar, com documentos da empresa em cima da mesa, "mas não são documentos que não podem ser vistos pelo outro". Esses, garantem, não os levam para casa. "Temos uma ética pessoal e profissional muito forte", acrescenta Sofia.

De resto, não é difícil esquecer o trabalho. "Com quatro filhos (três em comum com Sofia e uma, mais velha, de um casamento anterior) não nos sobra muito tempo para falar de outras questões."

Para os consultores de comunicação Catarina Lagoa, 39 anos, e Bruno Peneda, 35, também não é complicado gerir o casamento e o trabalho em empresas concorrentes. Com um filho de dois anos (e uma filha de Catarina, de uma relação anterior), dizem que a receita passa por "priorizar a família e saber dosear o que convém e o que não convém ser dito se o tema é trabalho".

O dosear parece ser a chave e ainda ter cuidado com os silêncios, alerta Catarina Mexia. É que quando um casal está junto há muitos anos, não é fácil lidar com a omissão do tema trabalho por parte de um dos elementos. "Há o risco de um poder sentir esse silêncio como uma rejeição, como se não fizesse parte da vida daquela pessoa, apesar de partilharem a mesma casa, de terem filhos em comum, de viverem uma vida inteira ao lado um do outro", diz a psicóloga.

Mas o silêncio, neste caso, faz parte do acordo. Embora tenham funções indiretamente concorrentes – ele trabalha a área de public affairs (comunicação institucional), defende os interesses dos clientes junto de accionistas, entre os quais entidades governamentais e municipais, e ela procura comunicar um produto ou uma marca através dos media. Resultado: batalham pelo mesmo mercado de comunicação. Em muitos casos, batem-se até pelos mesmos clientes. E é aqui, essencialmente, que a sabedoria os aconselha a evitar conversas sobre trabalho. "Simplesmente, não é tema entre nós. Assim, não há o risco de revelarmos estratégias de comunicação nem planos de acção que possam comprometer a aquisição de um novo cliente."
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