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Sofre de enxaquecas constantes? Tudo o que precisa de saber para se sentir melhor

Isabel Pavão Martins dirige há mais de 20 anos a consulta da especialidade no Hospital de Santa Maria, em Lisboa
Por Sónia Bento 11 de Outubro de 2019 às 14:56
A neurologista Isabel Pavão Martins foi uma das fundadoras da Sociedade Portuguesa de Cefaleias que presidiu entre 1993 e 1995. Licenciou-se em Medicina em 1980 e especializou-se em Neurologia 10 anos depois. Interessou-se pela investigação das dores de cabeça e esteve um ano em Londres no City London Migraine Clinic. Professora na Faculdade de Medicina de Lisboa, esta médica, de 63 anos, divide-se entre as aulas e as consultas de cefaleias no Hospital de Santa Maria e no seu consultório. Explica como uma das patologias mais incapacitantes nas pessoas em idade ativa, sobretudo nas mulheres.

O que é que se avançou sobre a enxaqueca nos últimos 10 anos?
Houve muitos avanços. O mais importante talvez seja o reconhecimento pela OMS do impacto da enxaqueca. Há um estudo do Global Burden of Disease, que faz o levantamento epidemiológico de todas as doenças, que mostra que as cefaleias, sobretudo as de tensão, e a enxaqueca, estão em segundo e terceiro lugar como as doenças mais frequentes na população adulta, logo a seguir à cárie dentária.

Em Portugal, quem sofre de crises de enxaqueca tem direito a baixa médica?
Se a pessoa estiver em crise, metida em casa a vomitar, completamente prostrada e incapaz, não pode mesmo ir trabalhar e tem direito a baixa, mas não existe nenhum estatuto especial. É como ter gripe ou uma gastroenterite.

Há quem tenha crises com muita frequência?
Há pessoas que têm uma a duas vezes por semana. Pode ser uma doença muito incapacitante. Afeta sobretudo a população ativa e é por isso outra medida de impacto porque se sabe agora que tem um efeito enorme em termos económicos, não tanto pelos custos de saúde, mas pelo absenteísmo e pelo presenteísmo, ou seja a pessoa vai trabalhar mas não está a produzir absolutamente nada.

Quais os últimos progressos em relação à enxaqueca?
Um dos maiores progressos foi o facto de se conhecer os números relacionados com a enxaqueca. Outro foi perceber que a enxaqueca pode cronificar. Significa que há pessoas que têm muitas crises que acabam por mergulhar umas nas outras e ficar com enxaqueca crónica, em que mais de metade do mês está com dor.

Como é que se consegue viver assim?
Vive-se mal. Muitos dos últimos medicamentos desenvolvidos foram a pensar nesta população cronificada, que consome muitos fármacos e depois o excesso de analgésicos, por sua vez, provoca dor de cabeça, e piora. A dada altura é uma dependência absoluta.

O desespero de uma pessoa com enxaqueca crónica pode chegar a que ponto?
Leva ao aparecimento de patologias associadas, como a depressão. As pessoas começam a tomar antidepressivos e ansiolíticos, têm insónias, chegando a um ponto de grande incapacidade.

Em 2017, uma equipa do Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do Centro Hospitalar São João, do Porto, anunciou ter realizado "com sucesso" um tratamento cirúrgico minimamente invasivo (endoscópio) de enxaqueca, "inédito em Portugal". Este tratamento tem resultados?
Isso causou alguma polémica porque é um tratamento experimental, sem evidência científica que mostre ser eficaz. Essa cirurgia, de que não conheço detalhes, vem um pouco na sequência do uso da toxina botulínica nas dores de cabeça. Só que os estudos com esta toxina são muito robustos, feitos com grandes populações, e que mostram que a toxina é eficaz na enxaqueca crónica. Fazemos regularmente a toxina botulínica a estes doentes, que têm mais de 15 dias por mês de dor. São injeções na cabeça em 30 ou mais pontos, com pequenas doses de toxina, que fica localizada nos pontos onde é injectada. É feita de três em três meses e inibe as terminações nervosas que transmitem a dor. 

O analgésico deve tomar-se quando?
Por regra, quanto mais cedo melhor. Não é tanto o que se toma mas quando se toma, para não chegar ao ponto de vomitar. Na crise de enxaqueca o estômago pára, há um atraso muito grande no funcionamento gástrico. A pessoa pode tomar medicamentos e eles não serem absorvidos. Quando as crises são previsíveis, por exemplo as provocadas por questões hormonais, a pessoa consegue fazer uma medicação antes de a crise começar de modo a que não chegue a desenvolver.

O problema é maior quando as crises não têm um padrão?
Sim. Ai as pessoas têm uma noção de perda de controlo da sua vida. Têm dificuldade em marcar um compromisso, uma viagem ou um trabalho porque nunca sabem se naquele dia vão estar bem ou mal. Essa insegurança cria-lhes ansiedade e prejudica-as imenso. Tenho pacientes com profissões diferenciadas a quem foram feitas propostas de empregos melhores e que eles acabaram por recusar por medo de não conseguir responder por causa das crises de enxaqueca.

Dormir alivia a enxaqueca?
Nem sempre. Há pessoas que não conseguem dormir. Tenho uma doente que diz que em plena crise não consegue dormir e nem deitar a cabeça baixo, tem de ficar quase sentada por baixar a cabeça agrava a dor. 

Quais os medicamentos mais rápidos e eficazes?
São os triptanos que têm um efeito mais rápido e específico. Existem na forma oral, sublingual, spray nasal e auto-injectável. São fármacos indicados para a enxaqueca e para a Cluster Headache, que é uma dor de cabeça bastante mais rara. Há também os anti-inflamatórios, o paracetamol, e a Aspirina, que pertence ao tipo de medicamentos com cafeína associada e que pode ser eficaz na enxaqueca.

Também há quem recorra às receitas caseiras?
Há uma receita bem portuguesa que é o café com limão. Tenho doentes que me contam que no café onde costumam ir, o empregado pergunta logo se é o café com limão porque se vê logo pela cara da pessoa quando está em crise.

Como é que podemos prevenir a enxaqueca?
Aí há muitas novidades. Há um conjunto grande de fármacos para evitar as crises. Fizemos um estudo para detetar pródromos nas pessoas com enxaqueca, feito com um pequeno aparelho que permite captar a atividade eléctrica cerebral. Os doentes que participaram fizeram 15 dias de registo diário e verificámos que na véspera da crise há uma alteração da atividade. Este pode ser um caminho para ajudar as pessoas porque se elas souberem que vão ter uma crise podem preveni-la, fazendo terapêutica mais cedo. Depois há novos fármacos que são inibidores do CGRP (um composto químico cerebral libertado pelo nervo trigémeo, estrutura que se estende por quase toda a cabeça). Este é um medicamento completamente novo, que já foi aprovado pela Agência Europeia do Medicamento e deverá chegar a Portugal em breve.

Como é que o medicamento actua?
Descobriu-se que durante a crise de enxaqueca é libertada uma substância no sangue que se chama CGRP e este fármaco vai inibi-la. Está indicado para pessoas com mais de 4 dias de enxaqueca por mês. A toma é uma injeção por mês e é bastante seguro. A informação que temos até agora é que as pessoas toleram bem – é um avanço enorme.

A enxaqueca é genética?
Muito mesmo. Uma pessoa que tenha familiares que sofram de enxaqueca tem o risco aumentado entre 2 a 3 vezes de sofrer também. Se tiver enxaqueca com aura tem 4 a 5 vezes de risco. Há uma componente genética muito clara.  

O que é a aura?
É uma variante da enxaqueca, em que ocorrem alguns fenómenos neurológicos antes de aparecer a dor. Afeta sobretudo o campo visual, em que a pessoa vê uns flashes de luz ou deixa de ver para um dos lados ou pode ver tudo em miniatura. Há também quem sofra alterações na linguagem. Esse fenómeno pode durar cerca de meia-hora e quando desaparece vem a dor de cabeça. Quando isso acontece pela primeira vez, as pessoas apanham um susto, vão para as urgências porque pensam que estão a ter um AVC. Tenho uma doente que é pintora e que desenha as suas próprias auras. Esta senhora tem umas auras muito engraçadas e até me ofereceu um quadro.

O número de pessoas que sofrem de enxaqueca tem vindo a aumentar na última década?
Não podemos dizer que é uma doença que tenha aumentado de frequência. O que existe é mais consciência da doença e o estilo de vida atual leva a que ocorram mais crises. Tudo o que faz mal à enxaqueca é estar muito tempo sem comer, alteração das horas de sono, exposição à luz solar intensa, e a exposição aos ecrãs também pode ajudar. Acho que num futuro muito próximo, com todas as tecnologias que vão aparecendo, será possível termos uma app no telemóvel ou um aparelho no pulso, que nos vai anunciar as crises de enxaqueca.

Porque é que afeta mais as mulheres?
Acho que tem a ver com o estilo de vida atual das mulheres. Elas trabalham, tratam dos filhos, tomam conta da casa. São super-mulheres. 

As variações climáticas também podem desencadear uma crise?
Sim e é muito interessante que há um site norte-americano sobre o clima que tem o risco de enxaqueca por regiões porque se sabe que as variações da pressão atmosférica são um fator de risco.

Quantos tipos de cefaleias existem?
Segundo a classificação internacional de cefaleias, que foi atualizado em 2018, existem centenas delas. A da tosse, a do esforço, a de tensão, que é a mais banal, a nevralgia de trigémeo e por aí fora.

A enxaqueca é o tipo de cefaleia mais comum?
A cefaleia de tensão é a mais frequente. É aquela dor que todos temos quando estamos sob tensão ou com a cabeça numa posição não ergonómica, mas essa pode aparecer uma vez e não voltar. A enxaqueca é crónica, recorrente e é, de facto, mais incapacitante.

A alimentação é importante para evitar as cefaleias?
É importante, mas há alguns mitos sobre isso. Há pessoas que relacionam a enxaqueca com o sumo de laranja e o chocolate. Deve evitar-se sobretudo estar muitas horas sem comer, evitar bebidas alcoólicas e alimentos muito pesados porque demoram mais a digerir. Apanhar muito calor e a abstinência de água, estar desidratado, também podem desencadear uma crise.

A auto-medicação é um dos maiores problemas para quem sofre de dores de cabeça?
Aí há muito trabalho a fazer em termos de educação. As pessoas muitas vezes fazem o seu próprio diagnóstico. Vejo muitos doentes que dizem que não têm enxaqueca, que o problema e a sinusite ou a falta de vista. Ainda há dificuldade em saber o que é uma enxaqueca.

Também há quem recorra a medicinas alternativas para aliviar a enxaqueca?
Há muita gente que toma medidas não farmacológicas porque não gostam de tomar nada. Ainda há pessoas que sofreram com crises de enxaquecas toda a vida sem tomar nada, porque ficam à espera que passe. Às vezes por opção outras vezes porque desistem.  

Há 10 anos estavam a investigar se a enxaqueca afeta ou não as capacidades cognitivas. A que conclusão chegaram?
Fizemos uma série de estudos nessa linha e aparentemente a resposta é não. Durante a crise a pessoa fica mais lenta de raciocínio, com dificuldade de conduzir as coisas mais simples. Há doentes que receiam que a ocorrência de tantas crises lhes afete a capacidade cognitiva ou que tenham mais risco de demência. Isso não parece ser verdade. Fizemos um estudo com pessoas, a partir dos 50 anos, com crises de enxaqueca e ao fim de seis anos fomos ver como é que essas pessoas estavam e verificámos que não há nenhum risco cognitivo. Aliás, há um estudo americano que mostra que a enxaqueca até tem um efeito protector. Ou seja, quem tem crises de enxaqueca acaba por ter mais cuidado com a saúde – ter uma vida mais regular, evitar o álcool, deitar-se cedo, etc.

Por que é que a enxaqueca não é uma patologia de idosos?
Não e isso é muito interessante. É relativamente pouco frequente na infância e novamente pouco frequente a partir dos 60 e tal anos. O pico é nos 40 e atinge 20% das mulheres provavelmente pelas questões hormonais.

Dos seus doentes, da consulta de cefaleias no Hospital de Santa Maria, quais são os casos mais marcantes?
Tenho uma senhora dos seus 70 anos que sofreu de enxaquecas toda a vida e que na infância tinha tantas crises que fez a instrução primária em casa. A irmã ia para a escola e ela ficava em casa. Só na fase mais tardia da vida é que melhorou.

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