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Como eles e elas lidam com a infertilidade

Ao longo de séculos a mulher foi responsabilizada, mas a doença afecta igualmente os dois sexos.
Por Maria Espírito Santo 13 de Outubro de 2019 às 20:56
Casal
Casal
Durante meses, não contaram a ninguém: familiares, amigos ou colegas de trabalho. "Não senti a necessidade de partilhar com outros homens", diz Gabriel. "Nunca fui próximo do meu pai e sempre fiz tudo sozinho: paguei a minha universidade, mestrado e doutoramento."

Vanessa manteve o segredo, mas participava em fóruns, queria perceber como os outros ultrapassavam as mesmas dificuldades. Na maior parte das vezes, também são elas quem mais procura ajuda psicológica. "Querem saber se é normal a irritabilidade, invejarem outras mulheres grávidas, estarem zangadas com o corpo", explica Ana Pereira.

Além de colaborar com a Associação Portuguesa de Fertilidade (APF), a psicóloga trabalha com a AVA Clinic, clínica de fertilidade que tem uma linha de apoio – mediante marcação, a especialista fala por telefone ou Skype. É rara a vez em que lhe calha uma voz masculina do outro lado – elas têm mais tendência a exteriorizar as emoções, eles sentem-se mais culpados. Gabriel admite: "Pensei afastar-me. Estava a causar um sofrimento que ela não merecia. Passou pelos tratamentos e pelas tentativas falhadas, todos aqueles testes negativos… é um processo longo e penoso." Nos piores momentos, chegou a dizer à mulher que ela estaria melhor sem ele, mas acabaram por enfrentar juntos o diagnóstico de infertilidade masculina.

Começaram a namorar em 2011. Pouco tempo depois, notaram o aumento de um dos testículos dele: foi diagnosticado com um seminoma, um tipo de cancro que obrigou à remoção cirúrgica do testículo. Três anos depois, quando tentaram engravidar, o insucesso levou-os ao consultório: o espermograma (teste que analisa a qualidade do esperma) apontou uma azoospermia ou ausência de espermatozóides no líquido ejaculado. "Desconfiava que podia haver um problema e pensei logo que era meu, sou muito pessimista", explica Gabriel.

No caso deles, é comum sentirem que são responsáveis, continua Cláudia Vieira: "Sabem que a infertilidade não tem nada a ver com a performance sexual mas têm vergonha." A engenheira electrotécnica, 41 anos, é também presidente da APF, que ajudou a criar em 2006. Desde então que o objectivo da associação é combater estigmas e alertar especialistas e leigos para a importância de olhar tanto para a mulher como para o homem quando se levanta a questão: porque é que não conseguimos ter um bebé? Nos números a diferença de género não existe. Em Portugal, há cerca de 300 mil casais inférteis. E as causas distribuem-se de forma equilibrada entre os sexos, aponta a Organização Mundial de Saúde: em 40% dos casos há um problema de infertilidade do lado dele, noutros 40% do lado dela. Restam 10% em que a infertilidade se verifica nos dois e outros 10% em que não se encontra uma explicação para o problema.

Durante meses, Gabriel e Vanessa, ambos da área de Ciências Naturais, leram dezenas de artigos científicos. No consultório chegavam a ter mais informação que o próprio médico. A pesquisa levou-os a encontrar algumas alternativas, como os suplementos vitamínicos, na tentativa de melhorar a qualidade do esperma. Eventualmente, já numa clínica de fertilidade, conseguiriam uma colheita de 12 espermatozóides para o primeiro ciclo de ICSI (microinjecção intracitoplasmática de espermatozóide) e de cinco para o segundo, sem resultados positivos. Mas, entretanto, chegaria outra má notícia: tinha um tumor no outro testículo que também teve de ser retirado e não foi possível recolher sémen para congelação. Passaram para a doação de esperma. "Decidir foi fácil. Nunca tive preconceitos e, além disso, a adopção também era uma possibilidade", diz Gabriel.

Conseguiram engravidar enquanto estava a ser preparada esta reportagem. Vanessa já fez a ecografia das 16 semanas, vão ter um rapaz. Agora pensam em receber o bebé, decorar o quarto, comprar uma cama. Até então não alimentavam esperanças. "Estamos sempre desconfiados." Ao todo gastaram cerca de 15 mil euros, custo que suportaram sozinhos. O aperto financeiro, a ansiedade e as dores dos tratamentos deram-lhes maior cumplicidade, afirmam.

Ela não se arrepende de ter guardado segredo: "Assim ninguém olha para nós com pena." No meio onde trabalham, as pessoas "são formadas, intelectuais mas, ainda assim, preconceituosas".
O preconceito pontua séculos de história. Possuídas por Nirrti, deusa da tormenta e da amargura, era o que se pensava, na Índia antiga, das mulheres que não conseguiam engravidar. Na China eram pragmaticamente substituídas por concubinas que conseguissem gerar um bebé. No império romano, a infertilidade feminina dava direito a divórcio e na Idade Média pensava-se que a doença era consequência de pecados como a blasfémia. Tempos e lugares diferentes e uma coisa em comum: toda a atenção estava virada para elas. Só a partir do Renascimento, com a evolução científica, o panorama começou a mudar.

Pequenos soldados
"(…) Maridos receosos de serem considerados menos viris por suas mulheres evitam apresentar-se para exame físico e até se furtam a sujeitar o seu esperma a observação laboratorial." Alípio Freire da Rocha escrevia sobre A responsabilidade do ginecologista na investigação do factor masculino em infertilidade humana na separata do Jornal do Médico, em 1968. A infertilidade era tema -tabu, em Portugal. "Nos anos 80, 90 e até ao início do século XXI ou, de vez em quando, nos dias de hoje, ainda se observa: a mulher é submetida a exames e até a terapêuticas dos ovários sem se ter feito análise de esperma ao marido", explica Alberto Barros, fundador e director do Centro de Genética da Reprodução, no Porto, e pioneiro no País de técnicas inovadoras como a inseminação artificial intra-uterina, com preparação in vitro dos espermatozóides (1985) e a fertilização in vitro com microinjecção intracitoplasmática (1994).

O tema da infertilidade é cada vez mais falado, lembra, e isso significa "uma relativa desdramatização do problema". Se por um lado há cada vez mais gente que partilha o seu caso, também há, de facto, cada vez mais casais inférteis. Os hábitos (beber álcool, fumar) prejudicam a fertilidade, mas adiar a constituição de família é o grande problema: "A mulher tem duas idades: a cronológica e a reprodutiva. Até aos 30 anos é nova nas duas, mas a partir daí existe um desfasamento." É a partir dos 38 anos que aumenta a probabilidade de aborto espontâneo ou de ter um bebé com trissomia 21 ou mongolismo (problemas hoje facilmente detectáveis). "Não digo isto para que se assumam decisões precipitadas mas para que se tenha noção do tempo."

Foi nos seus 30 que Luís e a mulher começaram a tentar engravidar: mas os óvulos dela não tinham a qualidade desejada. Hoje com 56 anos, o funcionário público lembra a angústia que viveu ainda na década de 80. A família dela não estava de acordo com tratamentos (se não acontecia era porque Deus não queria) mas juntos fizeram cinco fertilizações in vitro sem resultados e logo passaram para a doação de óvulos – fora do País, que em Portugal ainda não era permitido. Com a Ava Clinic, foram à Finlândia buscar os dois filhos, gémeos, hoje com 13 anos. No quarto, os rapazes têm uma bandeira do país onde nasceram, que um dia irão visitar.

Luís sempre quis ser pai. O desejo paternal não é falado mas também existe. Que o diga Glenn Barden: "Quero que me chamem papá. (…) Quero passar os meus sábados de manhã a ver a Porquinha Peppa. Claro que guardo estes pensamentos para mim. Não é suposto os homens desejarem ter filhos. Não é cool dizeres que queres ser pai." A confissão faz parte de My Little Soldiers (os meus pequenos soldados), de 2014, um retrato sincero e bem -humorado, na primeira pessoa, da infertilidade masculina. Barden inspirou-se no seu percurso e da mulher até conseguirem ter uma filha, através de fertilização in vitro (FIV). "Interessava-me trazer alguma clareza ao mundo escondido da infertilidade masculina", diz à Sábado. "Mostrar que os homens desejam ter bebés e que, às vezes, se debatem para o conseguir."

O dia do telefonema
Francisco, 40 anos, trabalha num call center, Júlia, 38, é empresária. Estão a tentar engravidar desde 2011. Ele acusa alterações de mobilidade nos espermogramas, ela tem o diagnóstico de endometriose profunda – doença congénita em que o tecido que reveste a cavidade uterina se acumula em outras zonas do corpo. Foi diagnosticada aos 25 anos: indicaram-lhe que tinha de fazer exames regulares, não lhe disseram que poderia ter dificuldades a engravidar nem que a doença podia estar associada a tantas complicações – inclusive a tumores que teve de retirar recentemente, entre os tratamentos. "Deram um nome para as dores excruciantes mas não me explicaram mais nada acerca da doença."
Primeiro tentaram uma inseminação artificial no privado, depois, por falta de possibilidades financeiras, optaram pelo público. Júlia vai já na quinta sessão de ICSI e passou por vários tratamentos e exames dolorosos, como uma ecografia dentro do útero, cerca de meia hora a sentir choques. De todos os tratamentos, apenas em dois chegaram à fase final – o teste de gravidez. Entre cada tratamento e teste passam 10 a 12 dias. Da primeira vez, Júlia chegou a sentir o peito dorido. "Não sei se é a cabeça que quer tanto e provoca os sintomas ou se é da medicação."

A pior parte: quando fazem o telefonema para o hospital (antes de irem trabalhar, pelas 11h) e ouvem um "não" do outro lado. "A reacção da Júlia é sempre chorar, não aceita. Depois acabamos por conversar. Eu não mostro muito as minhas emoções. Sinto que tenho de ser o pilar… mas interiormente sofro. É mentalizar e seguir em frente, para a próxima tentativa."

Uma viagem a dois, a Londres ou Paris, bilhetes para o concerto dos The Cure – acabam sempre por adiar os planos. Vivem na ansiedade da próxima consulta, do tratamento seguinte. "Uma pessoa fica dorida física e psicologicamente. Acabamos por nos isolar enquanto casal", diz Júlia. Também há menos tempo para o romance, os horários das injecções atrapalham tudo, tal como a obrigação de anotar de cada vez que têm relações sexuais. A última tentativa de ICSI está marcada para 2017. Se não resultar, já decidiram que vão partir para a adopção. "É um bocadinho como o Euromilhões", diz ela. "Podemos jogar muito e nunca sair."

Culpa da endometriose, Júlia tem muitas vezes uma barriga maior do que o normal, por isso acontece ser abordada por estranhos que lhe perguntam com um sorriso: "Está grávida?" Foi aprendendo a reagir com naturalidade: "Respondo que não e brinco, digo que gosto muito de comer." O trabalho é, para ela, uma forma de escape. "Foco-me naquilo que me dá prazer e que posso controlar. Se acontecer [engravidar] é muito bom, se não acontecer, não estou tão ligada."

Trabalhar mais horas ou dedicar-se a uma actividade desportiva são comportamentos comuns entre os homens, explica a psicóloga Ana Pereira: "Investem noutras dimensões da vida, áreas em que têm sucesso." É uma tentativa de recuperar a auto -estima, diz: "É que enquanto na mulher a infertilidade está associada à maternidade, no homem está mais associada à sexualidade." Mas fertilidade e potência sexual não são sinónimos: "Um indivíduo pode ser impotente, ter uma disfunção eréctil e ter os melhores espermatozóides do mundo. Ou ser um Don Juan e ter azoospermia", acrescenta o professor Alberto Barros.

Processo fechado
"Será que fiz algo errado? Ou pura e simplesmente é genético e nasci com isto? Estas dúvidas assolam- -me." Rui foi diagnosticado com azoospermia em 2012 e as perguntas de então mantêm-se até hoje. Há cerca de seis anos que ele e a mulher tentam engravidar. "Achei que ia dar continuidade aos meus genes e deixar memórias. Que quem se iria lembrar mais de mim seriam os meus filhos."
Foi em 2012 que, de visita ao médico, aproveitou para falar de algo que o preocupava. Tentava engravidar desde 2010, sem resultados, e a mulher até já estava a ser acompanhada – Rui decidiu perguntar se o problema podia ser dele, fez o espermograma. "Foi um choque." Lembra-se que lhe perguntaram se tinha tido papeira quando era criança e a conversa aconteceu por telefone, estava no trabalho e continuou o dia normalmente. "Acho que sou pragmático. Se tenho esta condição, aceito. É como ser careca ou míope – sou."

Ainda repetiu o teste noutro laboratório, que acusou o mesmo resultado – mais tarde faria duas biópsias testiculares, já no sistema público, para tentar encontrar espermatozóides. Em nenhuma o resultado foi o desejado. A história resume-se em poucas linhas mas durou anos, com longas e tortuosas esperas pelo meio. Entretanto, o diagnóstico ajudou na vida do casal – agora que se descobrira uma causa havia menos pressão. "Deixámos de fazer sexo de propósito nos períodos férteis dela."

Para a última intervenção, uma biópsia em aberto (em que ele e a mulher foram ambos para o bloco operatório, para tirar os espermatozóides dele e os óvulos dela) esperaram cerca de um ano. Nesses 12 meses, decidiu fazer um mestrado. "Fiz para não pensar tanto na espera mas também pela minha carreira, para no futuro lhes poder dar uma vida melhor [aos filhos]."

Nada resultou. No Hospital de Santa Maria explicaram-lhes que iam fechar o processo e que a alternativa seria um banco de esperma – como o do Porto. Ela estava mais céptica em relação à alternativa, por isso fizeram uma pausa. Em 2017 devem voltar a tentar. Rui já tentou alertar para o problema duas pessoas próximas: "Eles estão a começar projectos de vida. Disse-lhes que sabendo o que sei hoje, tinha feito mais cedo os exames [espermograma]. Acho que não seguiram o meu conselho, na lógica do ‘eu não tenho nada disso’."

A Rui continuam a surgir perguntas – será que as horas a andar de bicicleta tiveram alguma influência? E Francisco ainda é atormentado pelas notícias de crianças abandonadas. A Júlia é o tempo que escapa: "Sei que esta doença que tenho se agrava todos os meses e sinto que o meu corpo está a envelhecer." Quanto a Gabriel e Vanessa, esperam ansiosamente pela chegada do seu bebé, acumulam os nervos para a próxima ecografia. E já só pensam nos próximos. Têm 10 embriões congelados – ou a sua equipa de futebol, como lhes preferem chamar.

(Gabriel, Vanessa, Luís, Francisco, Júlia e Rui são nomes fictícios) 
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