Disco homónimo reflete as dores de crescimento de um grupo que entrou na idade adulta.
Linda Martini nasceram em 2003, num subúrbio em redor de lisboa. Dois anos mais tarde gravam o primeiro EP, para, em 2006, se agigantarem com o disco ‘Olhos de Mongol’. Seguiram-se 'Casa Ocupada' (2010), 'Turbo Lento' (2013) e 'Sirumba' (2016). A banda fala agora do novo trabalho homónimo.
Este é o regresso dos Linda Martini aos originais após quase dois anos na estrada a promover ‘Sirumba’. Como foi a gravação do novo álbum, ‘Linda Martini’?
Pedro Geraldes – É uma nuvem que esteve muito presente na nossa vida desde 2016. Começámos logo a delinear o que seria o álbum após o lançamento de ‘Sirumba’.
E fizeram dois retiros espirituais para estarem absolutamente concentrados no trabalho...
P.G. – Achámos que era uma boa solução fazermos duas residências artísticas para compor o novo álbum. A primeira foi em Amares, em outubro de 2016, e a segunda na Arrábida, em junho de 2017.
Sentiram que era mesmo necessário afastarem-se do Mundo que vos rodeia para gravarem este disco?
Cláudia Guerreiro – Foi mais do nosso mundo, das nossas vidas, das coisas que nos limitam o tempo. A partir do momento em que estás longe de tudo, as coisas vão fluindo. Foi uma liberdade muito grande afastarmo-nos das nossas preocupações do dia a dia.
O que norteou a construção deste trabalho? É um novo ponto de partida para o grupo?
Hélio Morais – É o ponto de chegada, diria eu. Aquilo que acabou por acontecer foi quase uma reação ao último disco. Em ‘Sirumba’ amansámos um pouco de forma deliberada. Tirámos um pouco de distorção e quisemos dar mais espaço aos instrumentos. Em ‘Linda Martini’, sentimos vontade de ir para outro ciclo musical.
Foi fácil o trabalho em estúdio, com ideias pensadas ou tiveram sessões de brainstorming para delinear o álbum?
C.G. – Não tínhamos algumas ideias; tínhamos as canções já feitas, com muito pouca coisa por fechar. Havia algumas indecisões e pequenos acertos a fazer sobre a forma como alguns temas deveriam terminar.
H.M. – Uma coisa é termos as notas, os acordes e os ritmos definidos. Outra é a produção dos temas: que sons queremos que tenham, que pedais de guitarra queremos usar em determinadas partes das canções... Inclusivamente, o nosso produtor Santi Garcia quis assistir a um ensaio para saber com o que iria contar da nossa parte, quando chegássemos à Catalunha para gravar o disco.
Foi importante trazer alguém de fora do mundo Linda Martini para produzir este disco?
André Henriques – Foi essencial. Foi uma forma de consagrarmos o que foram as residências artísticas numa experiência semelhante. E foi importante termos alguém que nos ajudasse a fazer com que o som das canções estivesse mais próximo daquilo que somos ao vivo.
Fizeram a gravação em estúdio ‘ao vivo’ ou cada um gravou a sua parte isolado dos outros?
H.M. – As gravações não foram em ‘take’ direto. Apenas aconteceu quando gravámos primeiro a bateria. Tocámos todos ao mesmo tempo para tirarmos o metrónomo e verificar se as canções fluíam no seu tempo de forma correta.
P.G. – Foi muito positivo estarmos todos em estúdio para ver se as canções, no seu todo, funcionavam bem, e se cada um de nós se sentia confortável a tocá-las. É muito essa reação de cada um de nós trazer as suas ideias e tentar trabalhá-las juntos. Aquilo que cada um dá acaba por definir a soma final, mas nada é definido por ninguém à partida.
‘Quero tudo ao mesmo tempo’, diz o refrão do segundo single ‘Boca de Sal’. Continua a haver uma urgência dos Linda Martini na vivência intensa de pequenos momentos…
A.H. – É uma descrição possível. Querer tudo ao mesmo tempo, tanto pode ser um slogan juvenil de quem está preso nas ambivalências da adolescência, como pode ser alguém de 50 anos que está enervado com a vida que levou.
E sentem que continuam presos a essa adolescência?
A.H. – A canção reflete mais as dores de crescimento de quem já não é assim tão jovem. São problemas reais da vida adulta, em que uma pessoa vai crescendo, a família vai alargando e vai tendo outras experiências. Isso influencia-nos na composição das canções e das letras porque as nossas vivências são outras e são elas que nos inspiram.
‘Linda Martini’ coincide com os 15 anos de vida do grupo. Que balanço fazem do vosso percurso?
H.M. – É positivo. Nunca imaginámos chegar onde estamos agora, a tocar para tanto público. E é uma coisa que tem vindo a acontecer gradualmente. Queremos sentir, com o novo álbum, que os nossos fãs continuam connosco.
C.G. - Estranhamente, começámos com um público que foi sempre crescendo. Nunca sentimos, até agora, que tenhamos tido uma fase menos boa nesse ponto. E esse é o melhor balanço que podemos fazer nestes 15 anos de vida.
E como veem a militância dos vossos fãs nas redes sociais?
H.M. - Uma das razões para essa militância deve-se, em parte, aos Pearl Jam. A dada altura, uma série de pessoas que faziam parte do fórum português da banda de Eddie Vedder decidiu criar o fórum Linda Martini. Era um grupo muito dinâmico, que nos ajudou a construir uma base de apoio.
O que disponibilizavam eles nesse fórum?
H.M. - Tinham gravações em mp3 de concertos nossos que tinham passado na rádio, fotografias… tudo e mais alguma coisa. Esse fórum chegou a ter mais de 2000 utilizadores. Quando surgiu o Facebook, entre outras redes, acabámos por transpor para lá essa forma de interagir com o nosso público.
Há ideia de lançar uma compilação ou mesmo um álbum ao vivo, mais para o final de 2018, para celebrar os 15 anos do grupo?
A.H. – Ainda não estamos tentados a fazer uma coisa nesse sentido. Neste momento, queremos tocar as nossas canções novas e, eventualmente, começar a pensar em compor novos temas.
Entretanto, os concertos de apresentação no Lux, que aconteceram na quinta e sexta-feira, esgotaram em três tempos. Surpreende-vos esta verdadeira peregrinação aos vossos concertos?
A.H. – Honestamente, após o concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com The Legendary Tigerman, no final de dezembro, nunca pensámos que dois meses mais tarde conseguíssemos esgotar mais de mil bilhetes para os nossos dois espetáculos no Lux.
Hoje tocam em Arcos de Valdevez, no festival Sons de Vez, e segue-se uma digressão nacional de mais cinco datas, até 10 de março, para apresentar ‘Linda Martini’. Estão pensadas atuações no estrangeiro?
C.G. – Se tocarmos no estrangeiro, a primeira data tem de ser em Barcelona, onde gravámos o disco...
H.M. – E a segunda tem de ser em São Paulo, no Brasil!
A.H. – As atuações no estrangeiro fazem sentido se tiverem uma continuidade. E seria mais pela experiência e não tanto com o objetivo de ter uma carreira internacional.
Projetos futuros, seja em termos de colaborações ou a solo, de cada um de vós?
P.G. – É tocar o disco ao vivo. Temos muita vontade de mostrá-lo às pessoas. E, no final do ano, fazemos o balanço. Temos já várias datas agendadas, e algumas participações em festivais que ainda não podem ser divulgadas. E também estão projetadas algumas colaborações em canções de outros nomes do meio musical português, mas também não podemos ainda revelar com quem.
O SEGREDO DOS LINDA MARTINI
É um "segredo" há muito tempo mal guardado o nome em que se inspirou em 2003 e que é agora a capa do álbum homónimo do grupo lisboeta. Linda Martini não é mais do que uma rapariga italiana que escolheu estudar em Lisboa, no programa Erasmus, há mais de uma década. "Ficou surpreendida quando lhe pedimos o nome emprestado", explica André Henrique. "E, depois de nos ver tocar ao vivo, não ficou particularmente entusiasmada com a ideia."
Entretanto, Linda Martini regressou a Itália e o contacto perdeu-se. Anos mais tarde, Pedro Geraldes volta a cruzar-se em Lisboa com Linda Martini e tirou-lhe uma fotografia. "Quando começámos a pensar em títulos e capas para o disco", acrescenta Hélio Morais, "lembrámo-nos logo dessa imagem". A partir do momento em que autorizou que a fotografia (replicada numa pintura a óleo) fosse usada na capa, "só fazia sentido que o disco fosse homónimo!".
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