Autor de best-sellers fala ao Correio da Manhã sobre o sucesso que mudou a sua vida.
Ouvi dizer que na Feira do Livro de Lisboa, teve uma fila imensa de gente a pedir-lhe o autógrafo…
Fiquei muito surpreendido. Vi uma grande fila à frente do meu stand e pensei: será que não se engaram? Mas não. Traziam os meus livros na mão! É que nestas sessões é sempre uma incógnita: às vezes não aparece ninguém; outras aparecem imensas pessoas…
Já lhe aconteceu não aparecer ninguém?
Ah, uma vez, numa feira em Lyon, fiquei ao lado de um escritor francês, creio que de comédias, muito popular, e ele tinha montões de gente à espera e eu… não. Ele apresentou-se, julgando, naturalmente, que eu o conhecia, mas para dizer a verdade nunca tinha ouvido falar dele. Foi embaraçoso. Em Lisboa, a fila era grande e só de mulheres.
Só mulheres? Acha que é porque a sua protagonista, a detetive Helen Grace, é uma mulher?
Talvez. De qualquer forma são as mulheres quem mais lê ficção. Em Inglaterra, pelo menos, é assim. Os homens não lêem romances, preferem os livros de não ficção: livros de história, ensaios, livros sobre desporto… As mulheres gostam de histórias, de se imaginarem em mundos diferentes... Acho que deve ser assim em todo o lado, que é uma tendência global. O que é óptimo. Não me importo nada de escrever para mulheres. Adoro.
Que expectativas tinha relativamente aos seus fãs portugueses?
Todos os autores com quem tenho falado me dizem que os leitores portugueses são muito animados, barulhentos e entusiasmados. Constatei isso mesmo. Foi muito divertido.
Já tinha estado em Lisboa?
Já. Várias vezes, em férias. Mas a última foi há dez anos. A primeira vez coincidiu com a realização do Europeu de Futebol de 2004. Vim ver a Inglaterra perder com a França, mas foi muito bom. O tempo estava maravilhoso. Sentávamo-nos nas esplanadas até às duas ou três da manhã, a beber vinho verde. Guardo memórias muito boas dessa estada.
Algum autor português que conheça e de que goste?
Não. É um problema, em Inglaterra, sobretudo na escrita de romances policiais. O mercado editorial está totalmente dominado pelos autores ingleses e norte-americanos. Temos poucas traduções – nem alemães, nem holandeses... Temos alguma coisa dos nórdicos, claro, mas em todo o mundo se estão a traduzir os nórdicos, não é?
Considera-se um grande leitor?
Bem, neste momento leio sobretudo policiais. Antes de começar a escrever, não era, de todo, um leitor obcecado com o tema, mas agora sinto-me na obrigação de ler o que se anda a escrever nessa área. Gosto de livros com serial killers. Os meus autores preferidos são o Thomas Harris, Patricia Highsmith… Tenho lido bastantes livros dos autores americanos: Harlan Coben e o James Patterson do início da carreira.
Esses dois por alguma razão?
Porque acho que os estilos deles são os mais parecidos com o meu. Os policiais britânicos focam-se muito na personagem e na descrição dos locais. São livros lentos. Os americanos são mais rápidos e os capítulos terminam quase sempre com uma frase bombástica que te dá vontade de passar ao próximo logo a seguir. Fiquei estasiado quando percebi que há capítulos do James Patterson que só têm um página. É fantástico, esse tipo de concisão. Dizer o que se tem a dizer depressa e depois passar à frente.
Escreve todos os dias?
Exceto aos fins de semana. Encaro a minha actividade como um trabalho normal: de segunda a sexta, das nove da manhã às cinco ou seis da tarde. Porque me tornei um escritor a full-time… Eu sei que há escritores que se levantam às dez, escrevem um bocadinho, acabam às duas da tarde… enfim, têm uma atitude relaxada face à escrita. Não é o meu caso. Tento ser disciplinado. Até porque tenho um contrato que me obriga a produzir dois romances por ano.
Largou completamente a televisão?
Já não produzo. Mas escrevo para televisão. Metade do trabalho do dia é para a TV, metade para os meus livros. Acabo de assinar um contrato para a minha primeira série como argumentista, o que é fantástico. É sempre bom veres o teu nome no ecrã.
Esse sucesso todo deve-se ao seu romance de estreia, que em Portugal foi publicado com o nome ‘Um, Dó, Li, Tá’ [20|20 Editora]?
Sim. Vendeu tão bem no Reino Unido que me permitiu dedicar-me totalmente à escrita. É um trabalho fantástico: pagam-me para inventar coisas.
Era um sonho antigo?
Sempre pensei escrever, sim. Aliás, toda a vida escrevi, mas não tinha a confiança suficiente para me lançar nisso aos 20 anos, por isso é que arranjei outro emprego. Fui produtor de televisão, o que não deixava de ser criativo, mas, enfim… Foi o livro que me deu o empurrão de que eu precisava. E acho que quando nos sentamos para escrever acabamos sempre por ser surpreendidos por aquilo que nos sai da cabeça e que nem imaginávamos que tínhamos dentro de nós.
Que conselhos daria a um jovem que quer começar?
Quando vou a feiras de livros de crime, falo com muita gente. Pessoas que têm medo de falhar e por isso não avançam. Fazem pesquisa e mais pesquisa, frequentam ateliers de escrita criativa… Acho tudo isso muito bem, mas no fundo o que é preciso é sentar o rabo na cadeira e escrever. A imaginação humana é algo de muito poderoso.
Há um novo ‘boom’ no género policial. Porquê este interesse em escrever e em ler romances policiais?
Acho que é por duas razões. Há curiosidade intelectual em torno do crime, porque a verdade é que a maior parte de nós não se imagina a infringir a lei. Até parece ilógico: magoa as pessoas, é imoral… A maioria de nós pergunta-se: como é possível fazer-se isto? Sobretudo no caso dos serial killers, cujos crimes são particularmente horríveis. Depois, num outro nível, acho que as pessoas gostam de apanhar sustos. É por isso que vão ao cinema ver filmes de terror.
Quando escreve, vê o filme na sua cabeça? Quer dizer, escreve como se estivesse a realizar?
Sim. Eu preparo muito bem os meus livros. Planeio todos os capítulos antes de começar a escrever. Tenho um quadro na parede onde vou colando a informação, para fazer uma leitura imediata das situações…
Que atriz imagina a interpretar a figura de Helen Grace?
Na verdade, o primeiro livro está a ser adaptado agora, para a BBC, por uma empresa de cinema. Na cabeça deles, a Helen deverá ser interpretada pela Charlotte Gainsbourg. Porque tem bom sotaque inglês, é bela de uma forma estranha, parece ter um passado traumático… O livro é bastante explícito e a Charlotte não tem medo de se expor, como já vimos várias vezes na sua carreira. Acho que é esse tipo de sexualidade perigosa que eles procuram.
Tem receio de perder a inspiração?
Bem… para já não. Normalmente tenho montes de ideias. E como só comecei a escrever quando já tinha quase 40 anos… até lá estive a fermentar ideias na minha cabeça. Como finalmente descobri aquilo que realmente gosto de fazer, espero poder continuar a fazê-lo durante muitos anos.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.