A Justiça italiana enviou recentemente uma carta rogatória à Polícia Judiciária no sentido de serem ouvidos Luís Filipe Vieira e José Veiga, no âmbito das investigações do ‘calciocaos’ por causa do empréstimo de Fabrizio Miccoli.
O presidente e o director-geral demissionário já foram notificados e deveriam ser ouvidos ainda esta semana, na qualidade de testemunhas, pelo Departamento Central de Investigação da Corrupção e Criminalidade Económica e Financeira (DCICCEF), da PJ. No entanto, na sequência do ‘terramoto’ provocado pela demissão de Veiga, o presidente do Benfica e o director-geral demissionário solicitaram à PJ para que o interrogatório fosse adiado para mais tarde.
A PJ pretende analisar as cópias dos contratos de empréstimo de Miccoli que o Benfica tem em seu poder, para comparar com os documentos que foram apreendidos na sede da Juventus. A Procuradoria de Turim pretende ainda que a PJ apure que tipo de relação negocial existe entre o Benfica e a Juventus.
Os investigadores italianos suspeitam de fraude fiscal em diversos contratos de jogadores da Juventus, entre os quais o de Fabrizio Miccoli. O clube de Turim, que foi despromovido à Série B no âmbito do maior escândalo de corrupção no futebol italiano, emprestou Miccoli ao Benfica no Verão de 2005. A Justiça italiana pretende também determinar os rendimentos de Miccoli para perceber se houve evasão fiscal em Itália. Contactada pelo CM, a assessoria de Imprensa do Benfica informou que Vieira não iria comentar este caso. Veiga esteve incontactável.
INDEFINIÇÃO
Quanto ao destino de José Veiga no clube, permanece incerto. Luís Filipe Vieira esteve ontem reunido na Luz, ao longo de todo o dia, com a administração da SAD, membros da direcção e homens da sua confiança, mas não foi tornada pública qualquer posição.
Vieira vai quebrar hoje o tabu e revelar se aceita ou não a demissão de José Veiga, numa conferência de Imprensa cujo local ainda não está definido – será na Luz ou no Seixal.
Na Luz há, neste momento, versões desencontradas sobre o futuro de Veiga. Diversas fontes garantem que Veiga vai continuar no cargo e até os dirigentes que olham para o director-geral com menos simpatia, caso do vice-presidente Rui Cunha, já afirmaram internamente não ser este o momento apropriado para ‘cortar’ com Veiga. O presidente do Benfica ainda não tomou uma decisão, mas o CM sabe que também não lhe agrada ‘abandonar’ Veiga nesta fase delicada da sua vida pessoal.
Para já, é seguro que Veiga não companhará a equipa a Braga, no próximo sábado. O volte-face, a acontecer, será apenas depois desse jogo. Por outro lado, fontes próximas do dirigente demissionário contactadas peloCM garantem que a decisão de Veiga é irreversível e que este estará mesmo disposto a ir viver para outro país atendendo ao facto de se considerar perseguido e injustiçado em Portugal.
MICCOLI NAS ESCUTAS A MOGGI
O processo que ficou conhecido como ‘calciocaos’ e levou à despromoção da Juventus e dedução de pontos a Milan, Reggina, Lazio e Fiorentina, foi despoletado em Maio com a publicação pela Imprensa de diversas escutas a Luciano Moggi, todo poderoso director-geral da ‘Juve’.
Logo nas primeiras escutas publicadas veio à baila o nome de Fabrizio Miccoli, o avançado que a Juventus emprestou ao Benfica na época passada e na actual.
Num telefonema entre Luciano Moggi e o seleccionador italiano Marcello Lippi, a convocatória de Miccoli para a selecção foi um dos temas debatidos.
Numa outra escuta, ouve-se Moggi a garantir que foi ele que conseguiu que Miccoli fosse convocado para defender as cores da ‘squadra azzurra’.
Mas o que a Justiça italiana pretende agora averiguar é se a Juventus fugiu ao Fisco no empréstimo do avançado ao Benfica, negócio que foi acertado por Luís Filipe Vieira e José Veiga. Há suspeitas de evasão fiscal em mais de 40 transferências da Juve’.
José Veiga tem 43 anos e já foi um dos mais poderosos empresários de jogadores do futebol português e internacional, com a sua Superfute. Casado e pai de dois filhos, o empresário nasceu na aldeia de Seixo de Ansiães e fez carreira no Luxemburgo, para onde emigrou com os pais com apenas seis anos. Esteve 23 anos fora, tendo trabalhado como pintor de automóveis e delegado comercial. Adepto do FC Porto – foi o fundador da casa dos ‘dragões’ no Luxemburgo –, Veiga entrou como director-geral do Benfica em 2004.
O PRESIDENTE. Une-os a conveniência: um precisa do outro. Há quem não entenda, no entanto, a cumplicidade que os liga e o apoio que Vieira nunca lhe negou. Mais do que amigos são aliados.
O PLANTEL. O poder que atribuiu aos atletas brasileiros e a caça às bruxas que promove sempre que surge uma notícia sobre o grupo, não agrada a alguns jogadores da ‘casa’.
OS ADMINISTRADORES. O facto de não tolerar intromissões nos assuntos do futebol tem-lhe merecido algumas críticas internas. Mas o apoio de Vieira tem moderado os críticos.
14/07/04
Dá entrada no Tribunal de Cascais uma acção interposta pelo banco luxemburguês Dexia, contra José Veiga. A entidade reclama 1,482 milhões de euros ao administrador benfiquista. Entre Junho de 2002 e Maio de 2003 Veiga terá alegadamente participado num esquema de desvio de dinheiros, juntamente com o ex-funcionário do Dexia, Théo Malget.
29/10/04
O CM noticia a situação envolvendo José Veiga e o Dexia, dando conta de todos os pormenores do processo. Neste mesmo dia, Veiga pede a Luís Filipe Vieira, que adie a sua nomeação para o cargo de administrador da SAD, a fim de resolver problemas já existentes com o Fisco.
04/03/05
A revista ‘Sábado’ publica uma extensa investigação sobre o alegado envolvimento de José Veiga com Théo Malget e o Banco Dexia. Na reportagem é relatada em detalhe a forma como Malget e Veiga alegadamente procediam ao desvio de fundos.
14/11/06
Durante a tarde, funcionários judiciais levam da casa de Veiga em Cascais mobiliário, quadros, plasmas, tapetes e outros artigos decorativos, bens suficientes para encher duas camionetas. Nesta mesma noite José Veiga vai à televisão para explicar-se e acaba por anunciar a sua demissão do cargo de director-geral da SAD ‘encarnada’.
CASA EM NOME DE OFF-SHORE
O Tribunal mandou arrestar apenas o recheio da casa de José Veiga em Cascais porque, oficialmente, o dirigente demissionário do Benfica não possui outros bens em seu nome. O CM apurou ainda que a vivenda alvo da ‘limpeza’ do Tribunal está em nome de uma ‘off-shore’.
O caso que levou ao arresto dos bens e conduziu à demissão de Veiga prende-se com uma queixa do banco luxemburguês Dexia, que reclama 1,5 milhões de euros de Veiga. No final de 2002, Veiga era o Agente FIFA da moda e conseguiu cotar a Superfute na Bolsa de Paris e numa acção de charme até convidou a Imprensa e políticos (Hermínio Loureiro, então secretário de Estado do Desporto também lá esteve) para o evento.
O Banco Dexia, que se associou nessa altura à operação, queixa-se agora de que Veiga desviou fundos de diversas contas em conluio com um funcionário do banco, Theo Malget, que confessou tudo e é a principal testemunha da acusação. Já Veiga garante que o dinheiro se destinou a uma operação financeira de aquisição de acções da Superfute.
De acordo com o Dexia, entre 10 de Junho de 2002 e 16 de Maio de 2003, Malget retirou quantias das contas de diversos clientes, que totalizam 1,5 milhões de euros, e creditou-as em contas pessoais de Veiga e noutras contas de empresas, alegadamente detidas pelo empresário – Superfute, Super Sport Limited, Super Soccer, etc. O banco garante ainda que já reembolsou os clientes de cujas contas o dinheiro foi retirado.
Em 4 de Março de 2005, a revista ‘Sábado’ publicou uma reportagem extensa sobre o tema, na qual relata de que forma se processaram as transferências. Por exemplo, em 1 de Julho de 2002, 235 mil euros foram levantados de uma conta e creditados na de Veiga. E em 31 de Julho de 2002, 68 357,43 euros saem de uma conta e 65 mil são creditados na conta de Veiga. 3357,43 euros desaparecem.
RECUPERAR BENS
Pedro Garcia Correia, advogado de Veiga, disse ontem ao CM que está a estudar a hipótese de “deduzir oposição” para recuperar os bens de Veiga que foram arrestados. O caso vai a julgamento dia 28, no Tribunal de Cascais.
O QUE É UM ARRESTO
Segundo o artigo 406.º do Código de Processo Civil, um arresto consiste numa apreensão judicial de bens, à qual são aplicáveis as disposições relativas à penhora.
SEM NOTIFICAÇÃO
José Veiga revelou em entrevista ao ‘Jornal Nacional’ (TVI) não ter recebido qualquer notificação do arresto, o que é normal neste tipo de situações. Desta forma, ficam salvaguardados os interesses do requerente, pois impossibilita que o requerido retire qualquer bem do local.
OS PROCESSOS FISCAIS DE VEIGA
3 MILHÕES DA SUPERFUTE
O Fisco reclama cerca de três milhões de euros da Superfute (incluindo juros de mora e custas judiciais), relativos ao IVA de 1997, 1998 e 1999 e ao IRC de 1997, 1998, 1999 e 2000. Este processo já levou à venda em hasta pública de um camarote na Luz entre outros bens.
3 MILHÕES DE IRS
Além das dívidas da Superfute, José Veiga está ainda a contas com outros processos a título pessoal. Tal como o CM noticiou, as Finanças de Cascais reclamam do director-geral demissionário uma dívida de 3 321 333,13 euros, relativa ao IRS do ano 2000.
1,4 MILHÕES DE IVA
O Fisco reclama ainda uma dívida de 1 413 234,55 euros referentes ao IVA de 2000. No âmbito dos processos relativos ao IRS e IVA, o Fisco penhorou a Veiga diversas acções e um terço do seu salário na Luz: dos 18 450 euros que recebe 6150 vão para os cofres do Estado.
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