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As notícias que marcaram as edições do primeiro ano do CM

Independência e coragem ao serviço da cidadania.
28.08.14
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Em 1979, nasceu o Correio da Manhã. Surgiu da vontade de um pequeno núcleo de jornalistas e comerciais. Tinha como líder um inconformado Vítor Direito, farto de promessas por cumprir e de um jornalismo servil perante o mundo da política.

PORTUGAL: PAÍS A FERRO E FOGO

O ano de 1979 terminou com 6523 reclusos nas cadeias portuguesas. O crime era violento, principalmente com recurso a armas, e viviam-se os atentados e vinganças do pós-revolução. Nesse ano, PSP, GNR, Guarda Fiscal, Polícia Marítima e PJ deram por concluídos 806 620 processos de corpo de delito (crime). Morreram 2186 pessoas nas estradas e arderam 66 330 hectares de floresta.

Ferreira Torres assassinado



(Joaquim Ferreira Torres foi morto com três tiros na cabeça a 21 de agosto de 1979)

Joaquim Ferreira Torres era um próspero empresário e senhor de considerável fortuna, com a qual financiou a rede terrorista de extrema-direita que aterrorizou o Norte do País durante os tempos revolucionários que se seguiram ao 25 de Abril. A 21 de agosto de 1979 – quando estava em liberdade provisória – foi assassinado num atentado rigoroso, na estrada entre Paredes e Paços de Ferreira. Tinha-se tornado um peso para os antigos companheiros do MDLP, que temiam que o empresário os denunciasse em tribunal. Ferreira Torres – irmão do ex-autarca – seguia ao volante do seu Porsche vermelho e numa curva acentuada deu-se o ataque. O carro foi atingido de frente por uma rajada de metralhadora e saiu da estrada. Imobilizado, Joaquim Ferreira Torres foi então alvo de três tiros na cabeça, disparados a curta distância. As autoridades passaram anos atrás dos responsáveis, mas não conseguiram deter ninguém. Os dois inspetores da Polícia Judiciária que inicialmente investigaram o crime morreram ambos num acidente de viação, quando iam em serviço. O caso foi arquivado e reaberto anos depois, com os mesmos resultados. O crime foi reivindicado por três "organizações revolucionárias de esquerda", o que ninguém acreditou.

Prisão de 'Manuel Alentejano'

Foi o homem que mais anos de cadeia seguidos cumpriu em Portugal: vinte e quatro. Manuel Dias, conhecido como ‘Manuel Alentejano’, liderou um gang que espalhou o terror nas décadas de 60 e 70, com roubos e homicídios. Esteve na maior fuga de sempre de cadeias portuguesas. Foi um dos 124 presos que fugiram, em 1978, de Vale de Judeus. Ficou célebre a sua frase: "Quando mato alguém fico um bocado deprimido." Foi definitivamente capturado no verão de 1979. Só saiu da prisão em 2002, graças a um indulto do então presidente Sampaio.

Bebé morto por causa de um cão

Em agosto de 1979, o impensável aconteceu no Fundão. Carina, de 8 meses, foi morta ao colo da mãe e 17 outras pessoas ficaram feridas num tiroteio que teve origem na morte de um cão.

Irmãs mortas a lavar roupa num tanque

Bernardete (18 anos) e Albertina (25) foram mortas por João, ‘O Frade’, a 19 de dezembro, em Mogadouro, quando lavavam num tanque. O homem foi recusado pela mais nova e usou uma caçadeira.

Confunde soldado com animal

Um sargento do Exército confundiu um soldado do Regimento de Artilharia de Leiria, que urinava atrás de mato, com um animal de caça e atingiu-o a tiro, matando-o, durante um exercício em 1979.

20 mil contos em assaltos a 24 bancos

Em 1979 foram assaltados 24 bancos em Portugal, tendo sido roubados perto de 20 mil contos (cerca de 100 mil euros). O número de crimes chocou as autoridades, que planeavam medidas práticas.

Decreto-lei cria GOE da polícia

A 1 de dezembro, o Governo aprovou o decreto-lei que criou o Grupo de Operações Especiais da PSP. "Será uma unidade preventiva de atos criminosos acompanhados de ações violentas", lia-se.

Atentado contra embaixada mata PSP

(Ataque noticiado no CM)

Um atentado contra o embaixador de Israel em Lisboa, à porta da embaixada, provocou a

morte ao seu segurança pessoal, o agente da PSP Ildefonso Pereira. O crime ocorreu a 13 de novembro de 1979.

O embaixador Ephraim Eltar tinha à sua espera dois comandos da organização Militantes Operários Internacionalistas. De metralhadora e granada, atacaram a viatura oficial quando o segurança abria a porta ao embaixador.

O carro arrancou – ainda assim, Ephraim Eltar, 55 anos, foi atingido com dois tiros – e ficou para trás o polícia, no meio da rua António Enes. Ildefonso Pereira, de 30 anos – casado, com duas filhas de 2 e 5 anos e natural de Parada de Cunhos, Trás-os-Montes –, ainda tentou sacar da arma, mas foi atingido de imediato por uma rajada de metralhadora.

(CM mostrou o ferido)

Tombado no chão, a granada lançada pelos terroristas caiu junto à cabeça do agente da PSP – a explosão foi fatal. No ataque ficaram ainda feridos o motorista do embaixador, um português, que levou um tiro no braço esquerdo.

Um outro agente da PSP, Alberto Silva, que estava à porta da embaixada, foi atingido por estilhaços da granada, assim como uma mulher que passava na rua – Emília Mesquita sofreu ferimentos no abdómen e olho esquerdo. O atentado foi reivindicado pela Secção de Lisboa dos Militantes Operários Internacionalistas, que admitiu a intenção de raptar o embaixador para o trocar por prisioneiros no Egito. Os atacantes estavam com armas soviéticas e foram presos dias depois numa pensão.

(História foi acompanhada)

Os números de um País em período pós-revolucionário

(Um dos dados que mais impressiona é o de mortes nas estradas)

Lisboa sob ameaça

A greve da Petroquímica, em novembro de 1979, lançou o terror em Lisboa. Temia-se que o corte de gás à cidade, pelos trabalhadores, pudesse provocar "graves acidentes de consequências imprevisíveis", segundo um comunicado da empresa. Os Sapadores falavam em "tempestade de fogo". Os trabalhadores conseguiram os aumentos e a greve foi desconvocada.

Foge com amante e mata filho à fome

 

Em vésperas de Natal de 1979, uma mulher fugiu com o amante e deixou quatro filhos abandonados, em S. Roque, Açores. Uma das crianças, Ricardo Jorge, de dois anos, morreu à fome. Os outros  três foram hospitalizados.

Aterragem de emergência em plena A1

Um avião do Aeroclube de Vila Real aterrou de emergência na autoestrada Lisboa-Porto, em Santa Maria de Lamas, em novembro. O piloto, António Freitas, saiu ileso. Aterrou devido ao nevoeiro e falta de combustível.

Morte nas brigadas do PRP

José Plácido, ex-militante do PRP, foi morto pelas suas Brigadas Revolucionárias, na Marinha Grande. Era suspeito de colocar bombas em vários locais, de colaborar em assaltos a bancos e de dar guarida a assassino de PJ.

SOCIEDADE: MUDANÇAS

O Correio da Manhã nasceu no momento em que Portugal avança na sua aventura democrática e a sociedade arranca para um período de enorme transformação. A criação do Serviço Nacional de Saúde permite o acesso de todos os portugueses a cuidados essenciais. E a expansão do sistema de ensino alarga a escolaridade. Duas mudanças fulcrais em dois setores onde o atraso era evidente.

Saúde gratuita para todos

(Os portugueses passaram a ter outro acesso aos serviços de Saúde)

A criação, em 1979, do Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi um acontecimento determinante no setor da Saúde e marca um ponto de viragem na assistência aos cidadãos. Graças a ele, todos os portugueses passaram a ter acesso aos serviços médico-sociais de forma gratuita.

António Arnaut, hoje com 78 anos, foi o autor da lei da criação do SNS. Recorda que os cidadãos que não tinham posses económicas para se tratarem tinham de "apresentar um atestado de indigência" para não pagar os tratamentos.

"Era uma humilhação", lembra o pai do SNS, acrescentando: "Muitas famílias tinham de vender os bois para se poderem tratar."

Já no que diz respeito a unidades de Saúde, existiam hospitais em Lisboa, no Porto e em Coimbra. Fora destas cidades, havia estruturas pertencentes às Misericórdias que desempenhavam um papel importante nos cuidados mas que tinham poucos recursos. Os centros de saúde só tratavam da medicina preventiva, nas campanhas das vacinas.

Em matéria de doenças, o atual diretor-geral da Saúde, Francisco George, médico de saúde pública, recorda que "não havia sida e o cancro estava a emergir". "Também não havia as vacinas do sarampo nem da rubéola e outras do Plano Nacional de Vacinação", lembra.

100 mil abortos por ano


Apesar de a pílula contracetiva existir desde 1960, lançada no mercado mundial no dia 18 de agosto desse ano, em Portugal registava-se uma média de "100 mil abortos por ano", segundo Duarte Vilar, diretor executivo da Associação para o Planeamento Familiar, reportando-se ao primeiro inquérito à contraceção. Atualmente, o número de abortos ronda os 19 mil por ano. O método contracetivo mais usado pelos casados era o coito interrompido, seguido da pílula e do preservativo. Com o passar dos anos, a pílula passou a ser o método mais utilizado.

Doenças infecciosas e contagiosas

As doenças mais prevalentes eram as infetocontagiosas e as gastrointestinais, devido às condições de vida dos cidadãos. Fora das cidades, muitas famílias não tinham água potável.

Aumento de filhos de mães adolescentes

O ano de 1979 foi um dos que registaram um aumento significativo do número de gravidezes durante a adolescência. No total, nasceram 17 063 filhos de jovens com idades entre os 16 e os 19 anos.

45 mil bebés nasceram em casa

Nem todas as grávidas recorriam à maternidade para ter os filhos. Um total de 45 819 bebés nasceram em casa, 16 682 dos quais não receberam assistência clínica. Registaram-se, ainda, 99 fetos mortos.

Crianças veem mar pela primeira vez

"50 crianças beirãs conhecem o mar." A notícia, publicada no CM de 20 de agosto de 1979, conta como 50 rapazes e raparigas do concelho de Nelas visitaram Aveiro e viram o mar pela primeira vez.

Revolução trouxe a pornografia

Os portugueses descobriram a pornografia no pós-revolução e no CM não faltavam anúncios. A 31 de maio, o Politeama exibia ‘As Sôfregas’, "filme pornográfico de invulgar interesse", podia ler-se.

Aulas pela TV para entrar no superior

(Ministro Valente de Oliveira)

Para entrar no Ensino Superior em 1979 era necessário ter aulas pela televisão e conseguir média suficiente nos exames de admissão. Era o chamado Ano Propedêutico, que antecedeu a criação do 12º ano, em 1980. "Como é que eu vejo se um exercício de Matemática está certo ou errado, é ridículo", queixava-se no CM um aluno, que queria tirar dúvidas com um professor, mas não tinha como.

Nas páginas do CM dedicadas à programação televisiva dos dois únicos canais lá apareciam as aulas do Ano Propedêutico: às 09h15 na RTP 1 e às 18h45 na RTP 2. Nesse ano de 1979, os resultados dos exames foram muito baixos (em especial a Matemática e Física, um pouco a exemplo do que acontece hoje) e, após protestos dos estudantes, a tutela acabou por dar bonificações que chegaram aos quatro valores.

(Inscrições no Propedêutico)

"Esses anos foram o início da grande expansão do ensino. Tínhamos escolas muito más e sobrelotadas, principalmente no ensino primário, e muito insucesso escolar", afirma Paulo Sucena, antigo secretário-geral da Fenprof.

(Uma escola da época)

O Conservatório Regional do Algarve, por exemplo, tinha 1200 alunos inscritos mas só havia salas para 800, noticiava o CM. Paulo Sucena recorda que, na altura, "havia professores a dar aulas que só tinham o primeiro ano da universidade ou nem isso".

O ensino "vivia com legislação avulsa e só com a lei de bases de 1986 se deu a primeira sistematização", afirma o antigo dirigente, destacando a criação do ensino unificado até ao 9º ano como decisiva.

O País em todas as suas vertentes

(Impressionante a taxa de analfabetismo, a rondar os 20 por cento)

Um País mais jovem

Portugal era, em 1979, um país bem mais jovem do que é hoje, onde os nascimentos eram quase o dobro dos óbitos e os divórcios uma raridade. Contudo, a taxa de mortalidade infantil era sete vezes maior do que hoje. Quase um em cada cinco portugueses era analfabeto e o número de alunos no superior era cinco vezes inferior. Cerca de 30% das casas não tinham ainda água canalizada.

Algarve ‘proibido’ para portugueses

Passar férias no Algarve era quase impossível mesmo para quem tinha um salário de 10 mil escudos, contava o CM numa das primeiras edições. Os preços inflacionados no verão eram proibitivos para a maioria dos portugueses.

Falta de padres já preocupava

A falta de jovens interessados em abraçar o sacerdócio era já um problema para a Igreja Católica. D. Manuel Martins, bispo de Setúbal, queixava-se no CM de que tinha 80 candidatos num distrito com 600 mil pessoas.

Praga dos flippers junto às escolas

"Flippers à porta das escolas levam alunos a faltar às aulas", titulava o CM numa reportagem no ano de arranque, lembrando que as "máquinas americanas" eram consideradas por alguns como "uma das pragas do século XX".

ECONOMIA: VIVER EM CRISE

Em 1979, tal como hoje, a instabilidade internacional só agrava os problemas dos portugueses. A guerra Irão-Iraque volta a lançar o caos nos mercados petrolíferos. Nessa altura, Portugal também se encontra sob vigilância internacional, defrontando-se com uma inflação acima de 20 %. Os preços dos combustíveis disparam, com a gasolina a aumentar 400 % face ao início da década.

Preço do petróleo dispara

(O litro de gasolina custava 30 escudos, quatro vezes mais do que no início da década) 

Um novo foco de instabilidade no Irão tem repercussões no mercado petrolífero em 1979. A deposição do xá Reza Pahlevi e a subida ao poder do aiatola Khomeini elevam o preço do barril acima dos 30 dólares, com impacto nas economias europeias. Em Portugal, o preço da gasolina chega a 30 escudos por litro (0,15 euros), e o complexo de Sines, obra iniciada por Marcelo Caetano para aproveitar o petróleo de Angola, vê a sua viabilidade definitivamente comprometida. As filas nas bombas de combustível para encher o depósito tornam-se habituais.

FMI impõe duros cortes

Um Orçamento de Estado com medidas de austeridade particularmente duras, impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que prevê, entre outras, o corte no subsídio de Natal, a descidas dos salários, o aumento de impostos e a redução do investimento público.

Não. Não estamos a falar de 2014, nem da troika. A situação descrita ocorreu em 1979 e foi o primeiro e único Orçamento de Estado a ser chumbado na história da democracia, à sombra da primeira intervenção no País do FMI, que tinha aterrado em Lisboa um ano antes.

O salário mínimo não chegava aos oito contos, o correspondente atual a pouco mais de 37 euros. Ordenado curto para comprar bens face a uma inflação na casa dos dois dígitos. Já o desemprego atingia os 8,1%. Cerca de cem mil portugueses tinham salários em atraso e os setores da construção naval, ferro e metalurgia foram fortemente afetados.

O défice situava-se nos 5,1% e tinha de ser reduzido, a par do maior montante de dívida pública de que havia registo: 35,6% do Produto Interno Bruto (PIB).

A balança comercial registava, contudo, um excedente de 112 milhões de contos (558,6 milhões de euros) naquele que foi um dos melhores anos das exportações portuguesas.

Inflação muito elevada

 

A taxa de inflação atingia os 23,52%, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística, a mais alta da década. Com o preço dos bens a subir, as dificuldades dos portugueses agravaram-se.

Emigrantes enviam 600 milhões

As remessas dos emigrantes atingem o máximo histórico, representando mais de 12 por cento do rendimento disponível. Quase 600 milhões de euros, praticamente o dobro do ano anterior.

Importantes reservas de ouro

As reservas de ouro do Banco de Portugal estavam nos 5,6 mil milhões de dólares, com uma cotação de 255 dólares por onça. Um montante elevado na exata medida da dívida aos investidores.

Espanhóis à descoberta de Portugal

A revogação da necessidade de passaporte para que espanhóis pudessem passar as fronteiras lusas levou a um verdadeiro boom nas visitas entre os países vizinhos. O turismo cresceu 56%.

Escudo desvaloriza mais de 20%

A aliviar a austeridade esteve uma medida que hoje já não é possível: a desvalorização cambial do escudo. Segundo os dados da época, entre 1976 e 1979 a moeda nacional desvalorizou mais 20%.

MUNDO: TEMPO DE VIRAGEM

Com a eleição de Thatcher para primeira-ministra do Reino Unido, o derrube do xá da Pérsia pelos fiéis do Aiatola Khomeini e os assassinatos de dois presidentes no Afeganistão, rematados pela invasão do país pelos soviéticos, o Mundo viveu, em 1979, uma viragem que continua a afligir a Humanidade. Acabou a União Soviética, mas no Afeganistão, Irão e vizinhos não se pára de atear a guerra.

Homem do ano na 'Time'

(O caso iraniano revelou-se a Caixa de Pandora das questões religiosas)

A revista ‘Time’ elegeu o Aiatola Khomeini como Homem do Ano em 1979. O seu regresso ao Irão, após 15 anos de exílio terminado em França, foi seguido por 120 jornalistas ocidentais como epopeia contra a opressão, então personalizada no xá Reza Pahlevi. Umas semanas depois, percebeu-se que se abrira uma caixa de Pandora das questões religiosas que ateou guerras.

A divisão entre sunitas e xiitas multiplicou-se, de repente, em exércitos de todo o género: Al-Qaeda, talibãs, Hezbollah, Partido de Deus e o mais que se tem visto, do ocidente do deserto do Saara à Indonésia no oriente longínquo. A guerra civil na Síria é o holocausto mais recente.

A tomada do poder pelos religiosos xiitas foi meteórica. Khomeini aterrou a 1 de fevereiro, criou o Conselho da Revolução Islâmica a 3, tomou a assembleia a 7, agregou os comandos militares a 10. A 1 de abril, o Irão tornou-se república islâmica com 98% dos votos num referendo.

E houve novas ideias para a canção ‘Sympathy for the Devil’, dos Rolling Stones, que fala das mortes em ‘hora de mudança’: a 4 de novembro, manifestantes assaltam a embaixada do ‘Grande Satã’ em Teerão e fazem 52 reféns americanos. A humilhação dos EUA durou 444 dias.

Eduardo dos Santos ao poder em Angola

(José Eduardo dos Santos, à direita)

Dez dias após a morte do líder histórico Agostinho Neto, o MPLA, partido no poder em Angola, escolheu José Eduardo dos Santos para novo presidente. Foi em Luanda, a 20 de setembro de 1979, e no dia seguinte o engenheiro de petróleos e telecomunicações, diplomado na antiga URSS, tomou posse, além da liderança do partido, também como presidente da República Popular de Angola e ainda comandante-em-chefe das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola).

Eduardo dos Santos nunca foi eleito diretamente para o cargo que exerce há quase 35 anos. Em 1992, ficou à frente numa 1ª volta de presidenciais disputadas com Jonas Savimbi e nunca concluídas. Em 2010, ele próprio assinou a lei que estabelece a designação automática para presidente da República do líder do partido mais votado.

Hoje, com 71 anos de idade, é com menos de dois meses de diferença o 2º do Mundo há mais tempo no poder. Só é superado por Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial, que tomou o poder a 3 de agosto 79, através de golpe de estado. São exemplos, a par de Mugabe, no Zimbabwe, e da família Castro, em Cuba, de absoluta resistência à mudança.

Thatcher antecipa era de Reagan

Vitória eleitoral, com 43,9% e mais 70 deputados, fez de Margaret Thatcher primeira-ministra do Reino Unido, a 3 de maio 1979. Reagan foi eleito presidente dos EUA 18 meses depois. Os dois liberalizaram o Ocidente.

João Paulo II: papa sem medo na Polónia

Vindo da Polónia, de uma Igreja perseguida pelo Estado, o papa João Paulo II fez bandeira da frase de Jesus no Evangelho: "Não tenhais medo." Em junho de 1979, numa viagem de nove dias ao seu país, lançou a mudança.

Primeiras eleições europeias

A primeira eleição internacional da História aconteceu a 7 de junho de 1979. Votantes dos nove países que integravam a Comunidade Económica Europeia escolheram diretamente 410 deputados do Parlamento Europeu.

DESPORTO: FIM DE DOIS CICLOS

Duas importantes decisões foram tomadas em 1979, uma individual, outra coletiva. Fustigado pelo calvário das lesões nos joelhos, Eusébio anuncia o fim da fabulosa carreira, em fevereiro. Mais à frente, no verão, os sócios do Benfica decidem, em histórica assembleia geral, abrir a porta do balneário da equipa de futebol a jogadores estrangeiros. Isto no ano em que Agostinho subiu à glória.

Abdicação do rei Eusébio

(Dólares atraíram estrelas mundiais aos ‘States’, mas em 1979 Eusébio teve de abdicar)

O ano de 1979 fica indelevelmente marcado por um acontecimento: o anúncio da retirada de Eusébio, feito pelo próprio, via televisão. No âmbito desportivo, houve factos mediaticamente mais relevantes nessa derradeira fatia da década de 70. Mas nenhum com tanto significado. Porque Eusébio era Eusébio. E recentemente, pelos piores motivos, o País e o Mundo perceberam o que isto quer dizer.

Estávamos em fevereiro e Eusébio tinha completado 37 anos há poucos dias. Os últimos anos estavam a ser penosos. Após a saída do Benfica, em 1975, o Pantera Negra deambulou por Estados Unidos, Canadá e México, com passagens internas pelo Beira-Mar e U. Tomar. Mas cada jogo era um sacrifício, culpa de dois joelhos martirizados por anos e anos de maus tratos, próprios e causados pelos adversários.

Seis operações ao joelho esquerdo, uma ao direito. Demais, até para um superjogador. Os dias de futebol de um dos maiores da história do jogo chegava ao fim. Para trás ficavam incontáveis jornadas de glória e magia. Fechou-se um ciclo. Outros se abriram, como o nascimento deste jornal, menos de um mês depois do dia 21 de fevereiro, data do anúncio de Eusébio. E por isso é que o mundo é redondo. Como uma bola de futebol.

O drama de Marco e Toni

Drama no clássico. Na Luz jogam Benfica e FC Porto, no dia 21 de janeiro (17ª jornada, 1-1). Chove e o terreno está pesado. Numa jogada acidental, Toni, capitão do Benfica, choca com Marco Aurélio, médio do FC Porto. Este fica a contorcer-se com dores no chão e percebe-se imediatamente a extensão da lesão, mais tarde confirmada por radiografia: fraturas da tíbia e do perónio. Toni, logo após o lance, desfaz-se em lágrimas. E pede para ser substituído. O drama emociona o País, pela lesão do portista e pela emotividade sentida do benfiquista.

Bicampeões europeus de corta-mato

Pela segunda vez consecutiva, o Sporting vence a Taça dos Campeões Europeus de Corta-Mato, por equipas. Fernando Mamede foi o melhor da equipa leonina, tendo-se classificado em 3º lugar.

Um dérbi carregado de polémica

Sporting perde com o Benfica na Luz (3-2) para o campeonato, em novembro, e atira-se à arbitragem de Graça Oliva. "O resultado foi falseado pelo árbitro, adepto do Benfica", acusou Inácio.

Dragões mais fortes no campeonato

O FC Porto, treinado por José Maria Pedroto, sagra-se campeão nacional de futebol pela sétima vez no seu historial. Termina a prova com 50 pontos, mais um que o Benfica e 8 sobre o Sporting.

Boavista leva a Taça de Portugal

O Boavista vence a Taça de Portugal, no Estádio Nacional, após derrotar na finalíssima o Sporting por 1-0, com um golo de Júlio. Na final, as duas equipas tinham empatado 1-1 após prolongamento.

Oliveira assina pelo Bétis

António Oliveira abandona o FC Porto e assina pelo Bétis de Sevilha. Foi a contratação mais cara da história do clube: 36 mil contos (180 mil euros) mais oito mil contos (40 mil euros) de ‘luvas’.

Benfica sem fronteiras

(Em cima: Bento, Toni (cap.), Nené, Alhinho, Bastos Lopes e Humberto Coelho. Em baixo: Alberto, Reinaldo, Alves, Chalana e Shéu. Aqui não cabiam estrangeiros)

O ano de 1979 marcou um ponto de viragem na história do Benfica. No dia 29 de agosto, data da primeira jornada do campeonato, o avançado brasileiro Jorge Gomes tornou-se no primeiro estrangeiro a representar o emblema da Luz. Já jogava em Portugal, no Boavista, e entrou aos 72 minutos do jogo Benfica-Vitória de Setúbal para o lugar de Fernando Chalana. Jogo esse que as águias venceram por 5-1. Quando Jorge Gomes entrou o resultado estava em 3-1.

A decisão de passar a incluir estrangeiros nas equipas de futebol fora tomada cerca de dois meses antes, em assembleia geral, que por esse facto passou a ser histórica. Os estatutos do Benfica não permitiam a utilização de não portugueses, pelo que foi preciso inquirir os sócios.

A magna reunião demorou oito horas, ao fim das quais houve fumo branco: 472 votos a favor da admissão de estrangeiros contra 62 partidários de um Benfica integralmente português. Tomada a decisão, o Benfica decidiu então avançar para Jorge Gomes, jogador que se destacava no Bessa e estava a ser também pretendido pelo Sporting. Valentim Loureiro, então presidente do Boavista, foi decisivo no processo e vendeu o avançado ao Benfica.

Agostinho entra na lenda do Tour

(Joaquim Agostinho nos píncaros da glória)

Joaquim Agostinho, referência de primeira linha da história do desporto português, escreveu em 1979 umas das páginas mais brilhantes da carreira. Na Volta a França desse ano venceu a etapa-rainha da prova, no alto da subida do mítico L’Alpe d’Huez, após uma escalada épica nos últimos 13 quilómetros da duríssima tirada, quando não só ‘caçou’ um a um todos os adversários em fuga como os deixou irremediavelmente para trás, vergados à classe e à força do português. Acabou isolado, lá no alto, ascendendo ao quinto lugar da classificação geral. O dia 15 de julho de 1979 entrou desta forma no calendários das grandes glórias do desporto português.

No ano anterior, Agostinho já tinha feito história ao classificar-se em 3º lugar na ‘geral final’ da maior e mais conceituada prova velocipédica do Mundo, atrás do vencedor, o francês Bernard Hinault, e do holandês Joop Zoetmelk. Em 1979 quis repetir a proeza. No antepenúltimo dia da competição de três semanas havia um contrarrelógio decisivo e para chegar de novo ao pódio o herói português precisava de anular uma desvantagem de 38 segundos para o holandês Kuiper. Tarefa de monta.

(Bernard Hinault, vencedor do Tour)

No final da etapa, Agostinho deixou o adversário direto a 2 minutos e 4 segundos. O terceiro lugar da ‘geral’ ficava garantido, de novo atrás de Bernard Hinault e de Joop Zoetmelk.

Pela segunda vez em dois anos, o português de Brejenjas, pequena localidade próxima de Torres Vedras, chegava ao pódio do Tour.

(Joop Zooetmelk, eterno segundo)

Marco Chagas acusa doping na Volta

Marco Chagas vence a Volta a Portugal em 1979, mas o título foi-lhe retirado pois acusou positivo no controlo antidoping recolhido na última etapa. Joaquim Sousa Santos, do FC Porto, foi declarado vencedor.

FC Porto bate AC Milan no San Siro

Depois de ter empatado no Estádio das Antas 0-0 com o AC Milan, o FC Porto ganha no ‘inferno’ San Siro por 1-0, em jogo da 1ª eliminatória da então Taça dos Campeões, com golo do brasileiro Duda, aos 60 minutos.

Maus ventos na seleção nacional

Maus ventos para a seleção nacional. A discutir o apuramento para o Europeu de 1980, Portugal perde na Luz com a Áustria (1-2) e diz adeus à qualificação. O avançado Reinaldo, do Benfica, marcou o golo português.

TV&MEDIA: SEM ALTERNATIVAS

Em 1979, a televisão em portugal estava limitada a dois canais, propriedade do estado. Após anos a preto e branco, a televisão dava os primeiros passos em direção à cor, que chegaria definitivamente em 1980. Ao mesmo tempo, novos rostos afirmavam-se na TV e o futebol ganhava mais espaço. Entretanto, vários projetos ganhavam voz na rádio e jornais históricos deixavam de correr nas rotativas.

Primeiro passo para a cor

(Um carro de exterior da RTP, a única estação televisiva em 1979)

Vinte e dois anos depois de ter começado as suas emissões regulares, em 1979 a RTP começa a testar a televisão a cores. No entanto, o processo só ficaria concluído a 7 de março do ano seguinte. Também em 1979, a RTP 2, que até aqui servia apenas de veículo de retransmissão da emissão da RTP 1, autonomiza-se, ganhando uma programação própria. A série ‘Zé Gato’ foi uma das primeiras grandes apostas do ‘novo’ canal, tal como a informação. António Mega Ferreira e José Júdice alternavam a apresentação do ‘Informação/2’, diariamente, às 22h00. O formato revolucionou o acesso dos portugueses às notícias.

É nesta época que se afirmam e ganham popularidade algumas das figuras que marcaram a televisão nacional nas últimas décadas, como Júlio Isidro, Maria Elisa Domingues, Manuela Moura Guedes, Herman José ou Margarida Marante. Mas há também novos jornalistas, como Miguel Sousa Tavares, Diana Andringa, Joaquim Vieira e Judite Sousa.

Entretanto, a RTP muda de sede, transferindo-se da rua de S. Domingos, na Lapa, em Lisboa, para um moderno edifício na avenida 5 de Outubro, bem no centro da capital. Nos Açores, entra em funcionamento uma delegação da RTP na Horta, ilha do Faial.

Europa à volta dos jogos

Em 1979, Portugal participou pela primeira vez nos míticos ‘Jogos Sem Fronteiras’, um evento televisivo organizado desde 1965 pela Eurovisão. A estreia nacional decorreu na Praça de Touros de Cascais e foi vista por 40 milhões de europeus. Fialho Gouveia, Eládio Clímaco e Maria Margarida foram os pioneiros na apresentação do concurso. Este foi apenas o primeiro ano de uma história de sucesso. Portugal participou em 15 edições dos ‘Jogos Sem Fronteiras’, por via da RTP, tendo ganho por seis vezes, o melhor resultado entre os países que participaram.

Comercial arranca em março

Resultado de uma reorganização da RDP, a 12 de março surge a Rádio Comercial, o canal comercial da radiodifusão portuguesa, que entra em concorrência direta com os operadores privados.

Futebol ganha espaço na televisão

 

A RTP já emitia futebol, mas só em 1979 começou a fazê-lo regularmente. A temporada de 1979/1980 da 1ª divisão do campeonato nacional foi a primeira a merecer acompanhamento integral.

Empresa O Século extingue-se

Em virtude da falência técnica e dos problemas herdados de gestões anteriores, a Empresa Pública Jornal O Século e Popular foi considerada insustentável e irrecuperável, sendo extinta no fim do ano.

Novos canais nos Estados Unidos

Enquanto em Portugal a televisão se limitava à RTP, nos Estados Unidos o crescimento era exponencial. A 1 de abril nascia o canal infantil Nickelodeon, e a 7 de setembro a estação desportiva ESPN.

1º curso de Comunicação Social

O primeiro curso de Comunicação Social surgiu na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob a orientação do académico Adriano Duarte Rodrigues.

VIDAS: FESTAS EM CASAS RICAS

Em 1979 o mundo cor-de-rosa era bem diferente do que é hoje. As festas eram feitas nas discotecas da moda ou em casa das "famílias ricas, que começavam a regressar do Brasil", como conta Lili Caneças, uma das primeiras figuras públicas a surgir nas revistas de social. Mas tudo sem o glamour de outros tempos. "No pós-25 de Abril não havia muito luxo. Os restaurantes eram trocados por tasquinhas".

Do oito ao oitenta

(O biquíni foi ganhando terreno ao habitual fato de banho)

Num País ainda em mudança, cinco anos após o 25 de Abril, os hábitos, os locais, a vida social e as formas de diversão conheceram novos contornos.

"Em 1979 todos os dias aconteciam coisas interessantíssimas em termos sociais e culturais. Houve uma mudança de costumes de tal ordem, que se passou de um extremo ao outro. Os filmes pornográficos e eróticos começaram a ter interesse. De repente, as mulheres passaram a usar e a abusar da minissaia, a vestir biquínis na praia e, principalmente, começaram a fazer topless", recorda Lili Caneças, acrescentando que a praia da moda era a do Guincho.

Na vida noturna, destaca três espaços: "A discoteca Van Gogo, em Cascais, a Stone’s e a Ad-Lib, em Lisboa. Era para aí que saíamos para dançar. O Bairro Alto também estava na moda e o restaurante Papa Açorda era o máximo". Mas a grande noite era mesmo a do réveillon: "Íamos para o Casino Estoril ouvir a Amália Rodrigues".

Segundo a socialite, em 1979 viviam-se tempos de contenção de gastos. "Tal como agora, não sabíamos o que o futuro nos reservava, por isso, poupávamos ao máximo".


Na moda, destacou-se a estilista Ana Salazar e a hairstylist Isabel Queiroz do Vale.

Manuela Bravo vence Festival da Canção

(Manuela Bravo fez sucesso em Israel) 

"A minha vida deu uma volta de 180 graus nesse ano. 1979 foi incrível, todo o sucesso que tive foi uma loucura", recorda Manuela Bravo, vencedora do Festival da Canção, com o mítico tema ‘Sobe, Sobe, Balão Sobe’.

Na altura, era uma jovem de apenas 21 anos, cheia de sonhos e que deixou Portugal a seus pés. "Eu participei porque sabia que bastava isso para ser bem-sucedida na carreira. Agora, ganhar, nunca pensei. Fiquei radiante e sei que toda a gente ficou. Até hoje, todos me reconhecem pela música do ‘Balão Sobe’. O que para mim é um orgulho. Estou na história da música portuguesa. Foi um marco enorme. E fiquei muito bem classificada lá fora: conquistei o 9º lugar entre 19 países participantes. Foi uma festa que nunca esquecerei."

E há momentos caricatos que não se cansa de partilhar: "O Festival da Eurovisão decorreu em Israel e lembro-me de ir a um mercado, ser reconhecida e os árabes começarem a cantar a minha música."

Também a imprensa internacional ficou rendida ao talento da cantora. "Fui contactada por jornalistas em todo o Mundo e lembro-me também de ser notícia no Correio da Manhã, que nasceu nesse ano."

Madonna faz furor na ‘Playboy’

Em 1979, com 21 anos, Madonna despiu-se para a ‘Playboy’. As fotos só fizeram furor mais tarde, quando a cantora se tornou uma estrela. No mesmo ano, a atriz Dorothy Stratten seduziu como Playmate.

Jane Fonda conquista novo Óscar

A atriz norte-americana Jane Fonda ganhou o segundo Óscar da carreira, pelo seu desempenho como personagem principal no filme ‘Amargo Regresso’. No mesmo ano, também ganhou um Globo de Ouro.

Marta Maria representa Portugal

Marta Maria Mendonça Gouveia ganhou o título de Miss Portugal e foi representar o País no concurso Miss Universo que, em 1979, decorreu na Austrália. A modelo não ficou entre as finalistas, mas deu destaque a Portugal.

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