Não me lembro de, alguma vez, em democracia, um jornal de ‘referência’ fazer manchete dum slogan político. Aconteceu ontem. No ‘Expresso’, em letras gigantes, lê-se: "Rui Rio: ‘É hora de agir’". Pensei que o candidato do PSD dissera essa frase ao semanário. Mas não. No interior, o jornal reproduz o cartaz de Rio com o slogan. Na primeira página, a manchete teve direito a um fundo cor- -de-laranja, para identificar Rio com uma onda em crescimento no PSD. Rio aparece sobre esse fundo de corpo inteiro, a dar um jeito à gravata, gesto que pretende conotar a tal ‘hora de agir’. Transformada em manchete, essa frase — inócua, por já se saber que Rio se candidatava — é uma opção editorial de apoio a Rio. No interior, a notícia é entusiástica, escrita pelo mesmo jornalista que andou meses a juntar à informação sobre Passos Coelho uma subjectividade anti-passista sarcástica, para não dizer humilhosa. O entusiasmo editorial por Rio contrasta com o desapreço editorial por Passos, reconfirmado semana a semana desde que António Costa formou governo. O mesmo entusiasmo, alívio, até, pôde ver-se na capa de uma revista do mesmo grupo, a ‘Visão’. Com um Rio gigante, a ‘Visão’ dava a boa nova ao povo: "É desta!"
Defendo que os media podem ter a máxima liberdade editorial, a par duma informação rigorosa. O que pretendo aqui relevar é como esta escolha editorial se enquadra numa luta subterrânea, de que não se fala porque não se quer apercebida: a luta pela sobrevivência do ‘sistema’, essa misturada de política e negócios feita à sombra da democracia, assim mantendo uma enorme liberdade de acção devido à deriva da atenção das pessoas para outros temas, a começar nos media, ou ocultando o que está de facto em causa: controlar o orçamento, obter dividendos, lugares para militantes, parentes, adjudicar trabalhos estatais a empresas ‘amigas’, etc. A ‘tempestade perfeita’ para o ‘sistema’ é que este pântano também agrada ao PCP, BE, e a partes do PSD e CDS.
O ‘sistema’ não perdoou a Passos ter recusado o dinheiro do Estado (da CGD) para salvar o número um do ‘sistema’, o BES de Salgado; que rejeitasse a tentativa ‘irrevogável’ de Portas de salvar o BES in extremis, quando já sabia a decisão de Passos, deitando abaixo o governo; e também não lhe perdoou que garantisse a independência do Ministério Público, que o ‘sistema’ antes controlava.
Uma boa parte dos media atacou sistematicamente Passos, que não intervinha nem pressionava os media; e alcandora Costa e Rio, conhecidos ambos pela sua fanfarronice contra os media: um paradoxo que só se explica pela fidelidade desses media ao ‘sistema’.
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A ver vamos: RTP1 - Séries de amigos e para os amigos
Duas novas séries da RTP confirmam a promessa de mais séries, o que, em termos de género, distingue a RTP 1 dos outros generalistas de massas, a SIC e a TVI. Mas que séries são? Feitas por amigos do administrador Nuno Artur Silva (o verdadeiro presidente da RTP) ou por gente do meio que ele pretende colocar na sua órbita.
As duas séries — ‘A Criação’ e ‘País Irmão’ — são, como a esmagadora maioria dos conteúdos do administrador, um falhanço criativo. Totalmente umbiguistas.
Uma parodia o meio publicitário, falando para ele e não para um público exterior às agências. Com pouca graça — sem graça nem sentido para quem não faz parte desse pequeno meio.
A outra visa denegrir as telenovelas — um género que a RTP 1 apresenta há anos. Escrita por autores superinteligentes, dá, se pretendia dar, uma ideia errada sobre a escrita e produção de telenovelas. Não tem graça nem garra. E tem menos acção e está mais mal iluminada do que as telenovelas.
Já agora: Como a política, a TV é a gestão do possível
Na era da multiplicação de canais e meios Internet, a vida não está fácil. Mas foi bonita a festa, pá.
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