Folheando a imprensa e dedilhando as redes sociais, sente-se o leitor constrangido a juntar-se ao exército dos adoradores de Centeno, empurrado para elogiar o ministro das Finanças eleito presidente do informal Eurogrupo pelos seus pares. É o regresso da parolada do ‘cá dentro’ e do ‘lá fora’.
‘Cá dentro’ podemos dizer o que quisermos sobre as nossas coisinhas; ‘lá fora’ nunca — até porque ‘eles’, os estrangeiros, sabem mais do que nós. Junta-se um nacionalismo tosco a um sentimento de inferioridade.
A nossa santa terrinha é nossa, mas é uma terrinha. Se a este caldo paradoxal juntarmos um atávico desprezo nacional pela liberdade de expressão dos outros, fica completa a sopa de pedra afascitada em que o ‘tudo pela nação, nada contra a nação’ se transforma, 43 anos depois do dia inicial, e inteiro, e limpo, & etc., em ‘tudo pelo Centeno, nada contra o Centeno’.
O PS, que é agora mais de Afonso Costa do que de Mário Soares, exerce já naturalmente esta coacção comunicacional nas declarações políticas, em artigos e nos comentários exclamatórios dos seus soldados nas redes sociais. Em termos de comunicação, o PS de Afonso-António Costa é mais leninista do que o PCP e, talvez por isso, anda a recolher votos da massa comunista, como mostraram as autárquicas e sondagens.
As tácticas leninistas tornaram-se uma condição natural da parte do PS no poder, que cala a outra parte, empurrada para debaixo do mesmo manto de silêncio com que o PS de Afonso-António tenta cobrir quaisquer vozes críticas. Um bom crítico é um crítico calado, como António José Seguro, há dois anos sem pio. Deveríamos ser todos como ele. Aceitar a linha justa: contra os Barrosos e os Arnauts, marchar, marchar, mas, por Centeno, tudo pela nação, nada contra a nação.
E lá vai Centeno presidir a um grupo ‘informal’, com reuniões de que se não fazem actas, um grupo criado para tomar decisões sem escrutínio democrático e público, quer dizer, decisões típicas de ministros das Finanças — contra os cidadãos europeus, enganando os cidadãos europeus. O que viram os seus colegas em Centeno? Que ele, com as cativações orçamentais, conseguiu até burlar os parceiros da geringonça, maridos enganados que aceitaram a traição como o da canção francesa: "je suis cocu, mais content". E, com os aumentos dos impostos indirectos — arma secreta do ardil em democracia há mais dum século —, enganou o país inteiro. Os colegas viram nele o homem certo para o cargo da ‘nova’ política financeira europeia: dar um rebuçado com uma mão para, com a outra, rapar rendimentos dos cidadãos até ao osso. A austeridade parece uma festa.
Os que vão morrer te bajulam, Estado!
Insensível, desigual, sanguessuga: eis o Estado que os portugueses odeiam — mas amam também, o Pai nosso que está no céu e na terra, vindo a todos o seu reino. Incluindo nos noticiários. Chegando ao fim o ‘Telejornal’ da RTP 1 na segunda-feira, dei por mim a pensar que todas as notícias eram do Estado ou com ele relacionadas.
Fui ver. O Estado caía do azul cinzento do canal sobre as notícias brancas e frias. Depois de 15 minutos sobre Centeno no Eurogrupo, o ‘Telejornal’ desfiou notícias ligadas ao Deus-Estado: polícias da Cova da Moura, legionella num hospital público, chefe do Estado com sem-abrigo, promessa do ministro da Agricultura, transplantes num hospital público, dívida do Estado, Costa que quer não sei quê, mergulhadores da Armada, duas sobre a própria televisão do Estado.
Três notícias internacionais (de Estados), três de futebol (o desporto de Estado) e uma ligada à EDP, empresa quase-Estado.
Sociedade civil? Não há. Avé, Estado.
TV pública: vergonha para controlarmos
Depois de Portugal e Espanha, la France! O presidente Macron disse que a TV pública "é uma vergonha". Desperdício de dinheiro. Quer mudar a nomeação da hierarquia, como os ibéricos. E, como cá, o argumento é justo, mas serve para o mesmo: mudar a forma mantendo o controlo do Governo. Assim a modos que vamos fingir que a gente não manda.
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