Francisco Moita Flores
Professor universitárioAprendi a gostar de futebol quando a televisão nasceu. Era um acontecimento, na minha vila, a emissão de jogos importantes. E se o meu avô António fez de mim sportinguista, também me ensinou que no desporto não há inimigos. Só adversários.
Onde só uma coisa é importante: ver jogar bem e com muitos golos. Essa lição acompanhou-me durante 50 anos. Emocionei-me com golos do Eusébio (de quem me haveria de tornar amigo), com a fome de baliza de Yazalde, com a maestria de Madjer.
Embora sportinguista, dei por mim muitas vezes rendido às superiores exibições do Benfica ou do FC Porto. Chorei em 1966 quando não chegámos à final do Mundial. Vibrei como um puto quando conseguimos ser campeões europeus.
Tenho respeito reverencial pelos talentos de Ronaldo e de Messi. E não esqueço as espectaculares defesas de Damas e de Yashin. Nem a capacidade de transformar o futebol em arte do Brasil de Pelé, Rivelino, Tostão e Jairzinho.
Ver jogar bem e com muitos golos, o verdadeiro sal do futebol. As vedetas estão em campo e, citando um antigo presidente do Benfica, Fernando Martins, para dar o litro.
Não percebo como foi possível expropriar esse espectáculo aos relvados, transformando-se num espectáculo tenebroso, com maus actores, que vivem e se alimentam das grandes vedetas, verdadeiros rufias, sem escrúpulos, sem um pingo de moral, que fez de um jogo magnífico uma verdadeira guerra de bandos de malfeitores, decadentes, sujos, profissionais abjectos da porcaria mais nojenta.
E-mails, suspeitas forçadas, mentiras organizadas, deixaram o jogo ao Deus dará, para nos darem espectáculos de mediocridade que envergonham qualquer ser humano com um pingo de decência.
Chegámos a este ponto rasca e ordinário. Tenho para mim que isto só lá vai quando tornarmos a gostar de ver jogar bem e com muitos golos.
Os novos bárbaros não têm assento em torno de um jogo tão magnífico.
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