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Luciano Amaral

Luciano Amaral

Professor universitário

Dom profano

16 de outubro de 2017 às 00:30

Aquilo que o Ministério Público reuniu no "caso José Sócrates" é, sem dúvida, impressionante. Esse material não se limita a acusar um antigo primeiro-ministro, mas todo um ecossistema político e económico.

E aí duas coisas preocupam especialmente. Uma: falamos de uma pessoa que foi eleita três vezes, duas das quais quando já se suspeitava de ações semelhantes e já se conheciam outras (como a da célebre licenciatura). Que dom profano é este que leva os portugueses a confiarem o seu precioso voto a pessoas como José Sócrates? Deve ser o mesmo que faz as pessoas mais qualificadas de Portugal confiarem os seus a Isaltino de Morais.

Não estamos perante o povo miserável e ignorante, mas uma vasta classe média moderna e dinâmica que se reviu muito em Sócrates e no seu estilo brutal e arrivista. Assim como se desfez em vénias ao grande senhor Ricardo Salgado e admirou o génio empresarial de Zeinal Bava. O "caso Sócrates" deveria ser tanto uma lição para os acusados como para todos os que engoliram a patranha.

A outra coisa preocupante é a sensação de que o caso só chegou aqui porque estas pessoas já não riscam muito na sociedade. Teríamos chegado tão longe se Sócrates não tivesse sido destruído politicamente pela chamada da "troika" e se o BES não tivesse sido destruído pela crise que se seguiu?

A pergunta não vale só pela retórica: vemos por aí tanta história estranha nas páginas dos jornais (sobre vendas de bancos e empresas, nomeações e rotações de lugares) a que ninguém liga, que nos perguntamos se não estarão por aí a germinar outros casos Sócrates, sob a indiferença geral.

O papel da Justiça é importante para fazer estes gangsters seletos pensarem duas vezes, mas nada substitui a ação de reguladores que realmente regulem, de jornalistas que questionem em vez de venerarem e de cidadãos que se recusem a votar em pessoas como estas.

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