A Guardia Civil espanhola desmantelou, em Navarra, um bando organizado que aliciava portugueses para trabalharem em Espanha e depois os “explorava em condições de escravatura.” A operação, denominada ‘Fado’, teve início em Fevereiro e permitiu a libertação dos 43 portugueses escravizados e a detenção do bando de dez, nove dos quais portugueses.
O ‘modus operandi’ do bando consistia em aliciar pessoas em estações de transportes e albergues, sobretudo nas zonas de Lisboa e do Porto. Os aliciados eram sempre pessoas desestruturadas do ponto de vista social, semi-analfabetos, com problemas familiares. Partiam com a promessa de um bom salário e, uma vez fixados em aldeias da Ribeira de Navarra, começavam a trabalhar na agricultura.
Os trabalhadores não tinham qualquer tipo de contrato, nem estavam inscritos na Segurança Social. Do magro salário que recebiam, era-lhes tirado dinheiro, por exemplo, para a gasolina, resultante das deslocações entre o trabalho e o local onde dormiam.
Também os gastos com o alojamento e comida eram descontados nos salários sem qualquer acordo pré-estabelecido, divulgou em comunicado a Guardia Civil.
As explicações dadas pelos detidos é que não entregavam mais dinheiro aos trabalhadores para que estes não se embriagassem para chegarem em perfeitas condições ao trabalho. Caso um trabalhador fosse despedido não recebia qualquer dinheiro dos patrões.
Uma vez finda uma empreitada agrícola, os trabalhadores recebiam aquilo que os patrões entendessem, sem recibos sobre os descontos.
A operação que terminou na terça-feira levou à detenção de sete homens portugueses de quem as autoridades espanholas revelaram apenas as iniciais dos nomes e idades – A.D.S.C. (44 anos), natural de Carrizais, residente em Valtierra; C.A.T. (32) Cerejais, residente em Valtierra; J.A.M.F. (35), Suçaes-Mirandela, residente em Arguedas; F.D.S. (44), Arcas, residente em Arguedas; A.M.D.S. (27), Mirandela, residente em Tudela; A.L.D.A. (41), Alfândega de Fé, residente em Arguedas. E.I.M.F. (22), Mirandela, morador em Arguedas. Sendo as duas portuguesas detidas S.M.D.S. (48), Avelás, residente em Arguedas e E.L.D.A.F. (22), Mirandela, moradora em Tudela.
ESFARRAPADOS E ESFOMEADOS
“Os trabalhadores portugueses escravizados estão bem e não precisam de tratamento hospitalar”, confirmou ao CM fonte do gabinete de comunicação da Guardia Civil. Concluída a ‘Operação Fado’, os 43 emigrantes foram colocados em liberdade.
Segundo informou a mesma fonte, não serão trazidos para Portugal, pois como cidadãos europeus têm total liberdade de circulação em Espanha. Quanto aos dez detidos, após terem sido ouvidos e conhecido o domicílio, foram postos em liberdade com a obrigatoriedade de todas as semanas se apresentarem na Guardia Civil.
Entretanto, procede a investigação administrativa a fim de apurar a extensão desta rede de tráfico de homens, nomeadamente nas ligações entre o bando e o tecido empresarial da região.
A Guardia Civil sublinhou que muitos dos mendigos portugueses apresentavam um estado de grande degradação: “Estão mal alimentados e usavam a mesma roupa há várias semanas. Sem sanitários nos locais onde viviam faziam as necessidades na via pública.”
NÚMEROS DA ESCRAVATURA PORTUGUESA LÁ FORA
2 EUROS - O mínimo que os portugueses recebiam por semana em Navarra
10 EUROS - O máximo que os portugueses recebiam por semana em Navarra
18 HORAS - Número de horas que chegavam a trabalhar por dia
6 DIAS - Só ao sábado estes trabalhadores descansavam
1 HORA - O tempo destinado para almoçar. Muitas vezes comida fria
30% - Máximo que os escravizados recebem daquilo a que têm direito
40 MIL - Número estimado de portugueses explorados nas obras na UE
25 - Detidos na operação contra tráfico humano para Espanha em 2005
2 - Casal português preso em Rioja por tráfico de cinco nacionais*
*Em Agosto de 2005
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